Há uma alternativa

Conselheiro de Tony Blair, o sociólogo
inglês diz que esquerda e direita têm propostas
inviáveis e defende a "terceira via"

Carlos Graieb

"Projetamos políticas
que, sendo realistas,
não deixem de ser
radicais. Ou seja,
não abram mão
da solidariedade"
Foto: Luiz Claudio Ribeiro  

Tony Blair, primeiro-ministro da Inglaterra, pode até não ser sociólogo, mas foi buscar entre os sociólogos o seu principal mentor. O nome desse conselheiro é Anthony Giddens, a quem a imprensa britânica se refere como "o outro Tony". Giddens é um acadêmico respeitado. Atualmente, dirige a London School of Economics, uma das instituições de ensino superior mais prestigiosas do país. O que realmente uniu Giddens e Blair, porém, foi um projeto político: a "terceira via". A tal "via" pretende ser uma alternativa tanto ao neoliberalismo quanto à social-democracia. Começou a ser discutida em 1994, quando Giddens publicou um livro provocador chamado Para Além da Esquerda e da Direita (no Brasil, a edição é da Unesp). O assunto, inclusive, ultrapassou as fronteiras inglesas: na semana passada, Blair e o presidente americano Bill Clinton encontraram-se em Nova York. Assunto: uma frente mundial de governos da "terceira via". E lá estava Giddens, nos bastidores, acenando com sua mais recente obra, The Third Way The Renewal of Social Democracy (A Terceira Via A Renovação da Social-Democracia), de cujos temas ele fala nesta entrevista a VEJA.

Veja A esquerda e a direita morreram?

Giddens — De modo algum. A maior parte do debate político ainda ocorre entre esses dois pólos. O que acho é que nenhuma delas apresenta propostas viáveis. A economia de esquerda é inadequada. Seu modelo de administração centralizada não tem lugar no mundo atual. As crenças políticas da direita, por outro lado, são incoerentes. Ao mesmo tempo que abraçam o fundamentalismo mercadológico, desejam preservar símbolos e instituições tradicionais, como a família ou a pátria. Todos os símbolos tradicionais são corroídos pela ação do mercado. O mercado fomenta um comportamento individualista que destrói as bases da família ou, pelo menos, leva as pessoas a experimentar novos modelos de relacionamento. O mercado global desfaz as fronteiras nacionais. Em outras palavras, a direita simplesmente não pode ter o que deseja: tradição e mudança ao mesmo tempo.

Veja E o que é, afinal, a "terceira via"?

Giddens — A filosofia da "terceira via" preocupa-se em procurar o sentido das três grandes revoluções: a globalização, as transformações da intimidade e a mudança do relacionamento do homem com a natureza. A partir dessas análises, projeta políticas que, sendo realistas, não deixem de ser radicais. Ou seja, não abram mão dos ideais de solidariedade e inclusão social.

Veja Estamos falando de uma espécie de "socialismo de mercado"?

Giddens — A expressão "terceira via" aparece numa infinidade de ocasiões na história do pensamento político. Nas últimas três décadas, ela foi muito empregada na Europa, sobretudo em países como a Itália e a Suécia, exatamente nessa linha de "socialismo de mercado". Falava-se num sistema misto, combinando planejamento central e instituições do mercado. A maioria dos estudos, porém, demonstra que a idéia é inviável. Resultaria em desemprego, estagnação, caos financeiro. Não existe "terceira via" desse tipo.

Veja Qual seria, então, a definição correta?

Giddens — Digamos que a "terceira via" defendida por nós é a social-democracia modernizada. Ela é um movimento de centro-esquerda, ou do que temos chamado de "centro radical". Radical, porque não abandonou a política de solidariedade que tradicionalmente foi defendida pela esquerda. De centro, porque reconhece a necessidade de trabalhar alianças que proporcionem uma base para ações práticas. Da comparação entre os diversos países que têm lidado com essa hipótese, percebe-se que está emergindo uma agenda comum. Seus principais objetivos são a reforma do Estado, a revitalização da sociedade civil, a criação de fórmulas para o desenvolvimento sustentado, a preocupação com uma nova política internacional. Dito assim parece vago, mas é exatamente o que políticos como o inglês Tony Blair, o francês Lionel Jospin, o italiano Romano Prodi e, por que não?, Fernando Henrique Cardoso estão fazendo hoje em dia.

Veja Por falar em Tony Blair, diz-se que o senhor é o guru do primeiro-ministro britânico. É verdade?

Giddens — Guru? É um exagero. Não sou um conselheiro direto de Blair. Aliás, nesses últimos doze meses só tivemos uns poucos encontros particulares. Nossas maiores oportunidades de trocar idéias ocorrem em seminários como esse de Washington, na semana passada, ou no seminário de Chequers, em maio, na Inglaterra. Meu papel principal não é ficar a postos para fornecer análises restritas e imediatas. Não sou um ideólogo de plantão.

Veja Mas os acadêmicos da London School of Economics, que o senhor dirige, vêm exercendo um papel importante na execução das políticas do gabinete Blair.

Giddens — É uma tradição da escola influir na política britânica. Hoje, temos de trinta a quarenta professores realizando trabalhos técnicos para o governo. A recente reforma do sistema de seguro-desemprego, por exemplo, foi encabeçada por um de nossos acadêmicos. Criar canais de comunicação entre a Inglaterra e outros países é algo que também me empenho em fazer. Criamos 150 grupos de pesquisa ligados à London School ao redor do mundo, inclusive no Brasil. Pessoalmente, encontro-me com inúmeros políticos estrangeiros. O presidente Fernando Henrique Cardoso é um dos que já estiveram aqui como palestrantes.

Veja Diversos textos seus dizem que o sistema de previdência social dos países desenvolvidos se tornou indefensável. O que deu errado?

Giddens — Para começar, o estado do bem-estar social nunca foi um fenômeno tão brilhante quanto se supõe. Nos países europeus e nos Estados Unidos, ele jamais foi plenamente democrático, tendo servido sobretudo para promover os interesses de uma classe média em expansão. Ele não foi um instrumento de redistribuição de riqueza. Ele não resolveu os problemas da exclusão e da pobreza. E, embora devamos tomar cuidado com esse argumento potencialmente conservador, criou de fato uma cultura de dependência, de acomodação por parte de seus beneficiários. Alguns desses beneficiários consolidaram grupos de pressão que, hoje, tornam extremamente difícil qualquer projeto de reforma do sistema. Mais importante, porém, é o fato de que as mudanças ocorridas na esfera pública e na esfera privada transformaram o aparato tradicional da previdência em algo obsoleto. Pensemos nas questões de família: o sistema simplesmente não está equipado para lidar com o número crescente de lares em que a criança é criada por um único cônjuge, ou então lares formados pela união homossexual. Gostaria de deixar bem claro que não sou a favor de um estado do bem-estar social mínimo. Mas a reforma deve ser drástica.

Veja Que modelo o senhor propõe?

Giddens — Tenho usado o conceito de previdência positiva.

Veja Que vem a ser, exatamente, o quê?

Giddens — Até agora, só o lado negativo da previdência foi enfatizado: em caso de "acidente", o Estado proporciona uma rede de segurança para o cidadão. Pensamos sempre em sujeitos passivos, aguardando sua pensão sob as asas do Estado. Esse papel de proteção foi importante, mas não basta mais hoje. Em vez de prover subsistência econômica, o Estado deve investir em capital humano sempre que possível. E, ao garantir direitos para o cidadão, deve fazer com que eles venham acompanhados de responsabilidades. A saúde, por exemplo, já não pode ser tratada como algo puramente passivo, sobre a qual a pessoa não tem nenhum controle: sabemos o bastante a respeito da influência da alimentação ou do estilo de vida sobre nosso organismo para julgar que toda doença é um azar externo que se abateu sobre nós. Os arranjos de seguro-desemprego também devem ser feitos de modo a não travar a pessoa na inatividade. A decisão de voltar ao trabalho, desistindo de pensões, ou a de mudar de emprego freqüentemente são benéficas para o indivíduo e para o grupo. Devem ser estimuladas. Foi isso que fizemos na recente reforma do modelo aqui na Inglaterra.

Veja Uma das suas preocupações centrais é a ecologia. Como tratar de maneira consistente das questões ecológicas?

Giddens — Uma política ecológica para os dias de hoje tem de ir além do simples ambientalismo. Não adianta propor coisas como o "retorno à natureza". A maioria de nossas áreas ambientais está de tal forma atrelada a sistemas sociais que nem poderíamos começar a separar um do outro. Não adianta planejar uma "revolução não violenta", que erradique a "sociedade industrial poluidora" e nos ponha em harmonia com o planeta. A sociedade tecnológica é irreversível. É desse ponto que precisamos partir, lembrando que vivemos num mundo de riscos artificiais, criados por nós mesmos. De um ponto de vista prático, precisamos assumir a administração desses riscos, sem nostalgia ou conservadorismo. Por exemplo, intensificando muito mais do que ocorre hoje os contatos entre o governo e a comunidade científica. De um ponto de vista filosófico — e digo isso sem nenhum cinismo —, temos de nos esforçar para ver a destruição da natureza sob um signo positivo.

Veja Cada vez mais, os temas abordados nos debates de assuntos de interesse público respondem à agenda das pesquisas de opinião. Não está surgindo uma política sem idéias, que atende apenas às demandas do mercado?

Giddens — Não adianta chorar: o marketing político é um fenômeno que veio para ficar. Atualmente, nenhum partido ou político sem capacidade para lidar com a mídia irá longe. É claro que há aspectos terríveis nesse processo. Os meios de comunicação tendem a criar uma política de culto às personalidades. Pior ainda, eles tendem a definir a agenda de discussões sempre com base no que aconteceu meia hora atrás. De toda forma, é burrice pensar numa política só de imagens. Um princípio básico da propaganda diz que não se podem anunciar produtos sem nenhuma qualidade. Os brasileiros conhecem bem o fenômeno da perda de confiança nos políticos.

Veja A Inglaterra criou um grande projeto de marketing para vender uma imagem atualizada do país no exterior, sob o slogan "Cool Britannia" (algo como "Grã-Bretanha legal, moderna"). É possível mudar a imagem de uma nação dessa maneira?

Giddens — Não sei se os métodos do projeto Cool Britannia são os melhores. Mas a filosofia está absolutamente certa. O nacionalismo exacerbado tem sido uma das principais causas da violência nos últimos tempos. Por outro lado, a globalização põe em xeque as fronteiras dos Estados, cria pressões que são desorganizadoras. Está na hora de os países criarem novas imagens de si mesmos. Imagens cosmopolitas, fundadas num nacionalismo alegre e positivo. É essa idéia que está por trás do projeto Cool Britannia. Estou de acordo com esse novo modelo de marketing nacional. Todo país deveria ter o seu.

Veja Que lição se pode tirar da história envolvendo o presidente americano Bill Clinton e a ex-estagiária Monica Lewinsky?

Giddens — O caso Clinton-Lewinsky põe em questão uma regra que esteve implícita em boa parte de nossa História: de que os políticos podiam ter uma vida sexual diferenciada. Em alguns momentos, até mesmo deviam. Há, por exemplo, estudos curiosíssimos sobre o papel da sexualidade durante o período de consolidação do império britânico. Na época, os ingleses faziam sexo com as nativas para enfatizar sua posição de colonizadores. Essas ligações entre sexualidade e política, que sempre existiram, agora deixaram de ser latentes. A democracia e a vida íntima estão criando novos vínculos. As mulheres fazem exigências novas diante dos homens. Nesse processo, aprenderemos a ver quais aspectos da moral privada são relevantes para a moral pública. Pessoalmente, creio que fundamentar o impeachment de um presidente bem-sucedido como Clinton apenas nesse caso seria tolice. Está fora de questão. Mas isso não significa que os políticos não tenham de desenvolver uma ética sexual que leve em conta os padrões de conduta dominantes na sociedade em que atuam. Queiram ou não, serão obrigados a isso.

Veja Há cada vez mais leis regulamentando a vida privada. O senhor acha legítimo que o governo interfira nesses assuntos?

Giddens — Creio que toda a confusão de leis em torno da intimidade dos indivíduos é sinal de um momento de transição. A democracia ainda está tentando criar laços com uma vida privada que foi completamente revolucionada nas últimas décadas. Culturalmente, a sexualidade saiu do domínio da tradição. Ela não é mais dada, é criada. O fato de nascer com esse ou aquele gênero não estrutura mais nossos papéis na vida, como acontecia antes. Há quatro décadas, ser homem significava ter um destino mais ou menos traçado no mercado de trabalho. Ser mulher significava ter um destino previsível: casar, gerar filhos ou então encaixar-se em outras categorias, como a da prostituta e a da santa. Ser homossexual, num país como a Inglaterra, significava ter grandes chances de se encrencar com a polícia. Mas a democracia penetrou na vida cotidiana. Homens, mulheres e até mesmo crianças, cada vez mais rapidamente, estão aprendendo a tratar-se como iguais. Tal mudança cria ansiedades que às vezes precisam ser controladas por meio da lei.

Veja Isso é bom ou ruim?

Giddens — Pessoalmente, prefiro pensar na carga de transformação progressista contida nisso tudo.




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