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Edição 1971 . 30 de agosto de 2006

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Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
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Gente
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Livros
Maluco e irresistível

Marley & Eu toca na veia sentimental
de todos os que já tiveram um cão
– ou outro bicho de estimação


Jerônimo Teixeira

 

Divulgação
Marley: almofadas destruídas e ouro devorado


EXCLUSIVO ON-LINE
Trecho do livro

Há mais de quarenta semanas na lista dos mais vendidos de não-ficção do The New York Times – na qual ocupava a primeira colocação na semana passada –, Marley & Eu (tradução de Thereza Christina Rocque da Motta e Elvira Serapicos; Prestígio; 272 páginas; 34,90 reais), do jornalista americano John Grogan, é um daqueles sucessos que parecem desafiar toda compreensão. Trata-se de uma crônica da convivência do autor com seu cachorro trapalhão e hiperativo, o Marley do título. Com exceção de uns poucos episódios mais pitorescos (como o fracasso do indisciplinado Marley em uma participação no cinema), é uma história bem comum, sem nada de extraordinário: um casal sem filhos adota um cachorro; o cachorro, como muitos de sua espécie, bagunça a casa toda; o casal ganha três filhos e muda de cidade; o cachorro envelhece e morre; a família fica triste. Em teoria, qualquer dono de cachorro poderia ter produzido uma narrativa similar. Sim, mas foi Grogan quem teve a idéia de fazê-lo. E com isso acertou na veia sentimental de todos os que amam cachorros – um público nada desprezível, a julgar pelo 1,8 milhão de exemplares que o livro vendeu nos Estados Unidos. Marley, o labrador, merece esse sucesso póstumo: ele é a prova de que o maior encanto de um cão está na sua personalidade.

Não, falar em personalidade canina não constitui o pecado fabuloso da antropomorfização. Não se estão projetando atributos humanos sobre o bicho. Os especialistas em psicologia animal trabalham com parâmetros razoavelmente claros para definir a personalidade dos cães. De cinco fatores utilizados na avaliação da personalidade humana, quatro são válidos para o cão (veja o quadro abaixo). O único que não se aplica é a responsabilidade – noção que implica compromissos com o futuro e portanto não vigora no universo imediatista da cachorrada. As diferentes raças têm características específicas. Inteligência e afetividade, por exemplo, são próprias de labradores como Marley. Ao mesmo tempo, porém, cada cachorro guarda seus atributos individuais, que podem ser avaliados na hora de comprar um filhote. Grogan e sua mulher, a também jornalista Jenny, negligenciaram um dado importante ao comprar o pequeno Marley em uma fazenda nos arredores de West Palm Beach, no início dos anos 90: não pediram para conhecer o pai do cãozinho. Foi só depois de já ter fechado negócio com a criadora que o casal viu, por acaso, o pai cachorro voltando para casa em desabalada carreira, agitado e todo sujo depois de um dia de diversão nos pântanos da região. A resistência de Marley ao adestramento deve ter sido herança paterna.

John Grogan e sua nova cachorra, Gracie: amizade incondicional

Marley & Eu é leitura leve e rápida, sob medida para a beira da piscina. A única dificuldade que ele oferece ao leitor – no Brasil – é a tradução obtusa. As tradutoras chegam a transformar "lab puppies" em "filhotes de laboratório". "Lab", aqui, quer dizer muito obviamente "labrador", a raça de Marley. Tamanho desprezo pelo contexto parece sugerir um despropósito lógico: as tradutoras não estavam lendo aquilo que traduziam. Uma pena, porque teriam se divertido com as peripécias de Marley. Em seus 13 anos de vida, o herói do livro arranhou portas, rasgou almofadas e roubou comida dos donos. Chegou a engolir uma corrente de ouro de Jenny (que o dedicado marido recuperou, imagine o leitor como). No entanto, Grogan e Jenny – e, mais tarde, seus três filhos – se apaixonaram pelo labrador. Há um encanto simplório mas irresistível nessa amizade. Lá pelo final, o autor tenta extrair uma "lição de vida" de sua relação com Marley. O cão era capaz de encontrar a máxima felicidade buscando um pedaço de pau atirado pelo dono – uma prova de que a felicidade estaria nas coisas simples. Comparação furada: seres humanos não são criaturas tão simples. Os bichos de estimação talvez tenham pouco a ensinar aos homens. Marley & Eu demonstra sobejamente, isso sim, que eles têm muito a dar.

 

Personalidade canina

Os psicólogos especializados em comportamento animal dizem que os cães têm, sim, personalidade. De cinco fatores utilizados para avaliar as pessoas, quatro são adaptáveis aos cães. Há traços gerais que são característicos de cada raça, mas os cachorros também têm sua personalidade individual

Os traços que definem a personalidade dos cães  


Extroversão/introversão:
os cachorros mais ativos e cheios de energia são considerados extrovertidos. Os terriers (foto) em geral estão entre os mais expansivos  

 

Neuroticismo: diz respeito à rapidez com que o cão muda de humor. Spaniels (foto) e beagles ficam irritados ou bravos com mais rapidez. Cães de briga como o dobermann ou o rottweiler demoram mais – mas também levam mais tempo para se acalmar  

 

Sociabilidade: os mais afetuosos costumam ser os cães de colo, como o poodle e o yorkshire. No outro extremo, estão cães agressivos como o pit bull (foto) e o rottweiler

 


Intelecto:
o border collie (foto), o poodle e o pastor alemão são os mais inteligentes  

 

 

 

Passos para avaliar a personalidade de um cãozinho  

Procure conhecer os dois pais do cãozinho. Muitos traços de personalidade são hereditários  

Evite os extremos. Ao avaliarem uma ninhada, algumas pessoas tendem a escolher o cãozinho que se aproxima imediatamente delas, em geral um tipo mais dominante, difícil de adestrar. Outras buscam os mais retraídos, que inspiram pena – mas estes podem ter personalidade medrosa e tímida

Teste a agressividade, imobilizando o filhote por algum tempo. Se ele reagir com raiva imediata, tenderá a ser um adulto agressivo  

Não leve o cãozinho para casa antes que ele tenha 7 ou 8 semanas. Esse tempo junto à ninhada é importante para que ele aprenda a se socializar

Fontes: psicólogos Stanley Coren (Universidade de British Columbia)
e César Ades (USP); zootecnista Alexandre Rossi

Fotos Rick Smith/AP, Dilmar Cavalher/Strana e divulgação

 

Rabo destruidor

"Marley estava crescendo a uma velocidade assustadora. Seu rabinho de filhote estava se tornando grosso e poderoso. Todos os objetos da altura do joelho para baixo foram derrubados pela arma louca e balançante de Marley. (...) Marley não sacudia o seu rabo. Ele sacudia o corpo todo. E em nenhum momento ele se sacudia mais do que quando tinha alguma coisa em sua boca. Sua reação em qualquer situação era a mesma: agarrar o sapato, travesseiro ou lápis mais próximo e sair correndo com ele. Uma voz em sua cabeça deveria lhe sussurrar: 'Pegue isto! Babe bastante em cima dele! Agora, saia correndo!'"

Trecho de Marley & Eu

 
 
 
 
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