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Edição 1971 . 30 de agosto de 2006

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Cinema
A hollywood africana

Sem subsídio do governo, a indústria
de cinema da Nigéria tem o terceiro
maior faturamento do mundo


Thomaz Favaro


Abraham Mclaughlin/Getty Images
Cena nollywoodiana: baixo custo


A Nigéria tem, segundo a ONU, um padrão de vida pior do que o do Haiti, a nação mais miserável da América Latina. Como em qualquer outro lugar do mundo, muitos de seus jovens sonham com uma carreira no cinema. A surpresa é que, entre os nigerianos, esse objetivo está ao alcance da mão. Nos últimos quinze anos, o país africano desenvolveu uma pujante indústria cinematográfica – a terceira maior do mundo, com um faturamento anual de 200 milhões de dólares que a deixa atrás apenas de Hollywood, nos Estados Unidos, e de Bollywood, na Índia. Nollywood, como é chamado o conjunto de produtoras nigerianas de cinema, ganha de americanos e indianos em um quesito: a quantidade de filmes. São 1.200 novos títulos por ano, o dobro do que costuma ser produzido nos Estados Unidos. Nollywood é o segundo maior empregador do país, com 1 milhão de trabalhadores. Nem o setor de petróleo, responsável por 95% das exportações nacionais, gera tantos empregos.

A carreira artística é hoje uma das maneiras mais eficientes para ascender socialmente na Nigéria. Adim Williams, diretor de Nollywood, recentemente foi recebido com tapete vermelho e carreata em Uganda, outro país africano. Ele levou 5.000 dólares pela visita. Um ator de segundo time ganha entre 2.000 e 3.000 dólares por filme – o que significa dez dias de trabalho, o tempo médio das filmagens nigerianas. O cachê de Genevieve Nnaji, a atriz mais bem paga da Nigéria, é de 20.000 dólares. Uma pequena fortuna, comparada com o salário médio de 350 dólares mensais dos nigerianos. Outras celebridades de sucesso são Grace Everly, que vendia laranjas nas feiras de Lagos antes de virar atriz, e Cossy Orjiakor, ex-dançarina folclórica e atual sex symbol de Nollywood.

Cossy, escrachadamente voluptuosa, é execrada pelos líderes religiosos do norte da Nigéria, região de maioria muçulmana. Os filmes de Nollywood costumam refletir as divisões étnicas e religiosas do país, onde são faladas 230 línguas. Um órgão de censura do governo cuida para que o preconceito étnico não prevaleça nos roteiros, ainda que uma ou outra piadinha seja inevitável. A censura quer, por exemplo, impor limites ao gênero mais popular do cinema nacional: as histórias de vodu. A indústria cinematográfica do país começou a crescer justamente depois do sucesso de um filme de bruxaria, em 1992. Vivendo com um Encosto conta a saga de um homem que sacrifica a mulher em um ritual de magia negra para enriquecer. O público gostou, carente que estava de histórias com sabor local – a TV nigeriana não investia em conteúdo próprio. Aos poucos, ganharam popularidade os filmes românticos, os policiais e os épicos inspirados em lendas locais. Há também títulos dedicados a públicos específicos, como a comunidade muçulmana e os evangélicos. "Os enredos de Nollywood, ao contrário das produções americanas, são lineares e têm finais previsíveis, em que o bem sempre vence o mal", disse a VEJA Afolabi Adesanya, diretor da Corporação Nigeriana de Filmes, órgão do governo que regula o setor mas não coloca um centavo nas produções.

Sem a menor pretensão de fazer obras de arte, os diretores de Nollywood gastam entre 20.000 e 100.000 dólares por filme. Nessas condições, a qualidade das locações, do som e do desempenho dos atores fica seriamente prejudicada. A maioria dos títulos nem sequer é exibida em salas de cinema – Lagos só tem doze dignas do nome. São Paulo, uma cidade com um número equivalente de habitantes, tem mais de 240 salas. Como não podem faturar com a bilheteria, as produtoras nigerianas fazem algumas dezenas de milhares de cópias em DVD ou VHS e as distribuem para vendedores ambulantes. O preço final é de 3 dólares. Os produtores nigerianos têm técnicas peculiares para incentivar as compras: por exemplo, colocar bilhetes de loteria dentro das embalagens dos DVDs. Mesmo assim, o lucro tem de vir em um mês. Depois disso, as cópias piratas começam a superar as originais. Calcula-se que, se não houvesse pirataria, o faturamento de Nollywood seria duas vezes maior.

 

PLANETA NOLLYWOOD

Os números do cinema nigeriano

Produz 1 200 filmes por ano, o dobro de Hollywood

Fatura 200 milhões de dólares por ano

É o segundo maior empregador da Nigéria

Paga no máximo 20 000 dólares de cachê a seus astros

 
 
 
 
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