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Edição 1971 . 30 de agosto de 2006

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Cinema
A lenda sem cabeça

O nome de M. Night Shyamalan
já foi sinônimo de boas surpresas.
Hoje desperta desconfiança


Isabela Boscov


Divulgação
Bryce, como Story, com seu protetor Giamatti: pedir que se acredite em ninfas de piscina já é demais
DA INTERNET
Trailer do filme


Quando lançou O Sexto Sentido, o indo-americano M. Night Shyamalan instantaneamente se tornou uma enorme promessa artística. A cada novo filme, porém, seu nome evoca mais frustração – e A Dama na Água (Lady in the Water, Estados Unidos, 2006), que estréia nesta sexta-feira no país, não deve ajudar a reverter essa expectativa negativa. O excelente Paul Giamatti, o único elemento do filme que não merece nenhuma ressalva, interpreta Cleveland Heep, zelador de um condomínio de pequenos apartamentos, tão bem-intencionado quanto solitário. Cleveland suspeita que alguém esteja usando a piscina de noite, fora do horário permitido. Mas o que encontra nela não é algum atleta notívago, e sim uma ninfa marinha chamada Story (Bryce Dallas Howard, de A Vila). Story está ali para cumprir uma missão: despertar num escritor uma centelha que será decisiva para o futuro da humanidade. Quem é esse escritor, ela não sabe dizer, e também ignora quem são as pessoas designadas a protegê-la dos perigos que cercam sua tarefa. Cleveland se dispõe a ajudá-la. Sua principal pista é uma senhora coreana, que se recorda de situação semelhante num conto de fadas que sua mãe costumava narrar. E, a essa altura, a bagunça já está instalada. Na escala do improvável, propor comunicação com os mortos ou invasões alienígenas é uma coisa; já ninfas em piscinas, esperando que uma grande águia venha resgatá-las, é outra bem diferente – um verdadeiro convite ao humor involuntário, e mais uma boa razão para que se discuta qual é, afinal, o dom que tornaria Shyamalan tão especial quanto se julgou.

Existem pelo menos duas maneiras possíveis de olhar os filmes do diretor: do seu próprio ponto de vista, como a história que ele pretende contar; e do prisma da platéia, como o filme a que ela efetivamente está assistindo. Em seus bons momentos, Shyamalan se sai bem justamente pela forma como primeiro explora a distância entre esses dois pontos de vista e então a transpõe. São suas célebres reviravoltas: a surpresa de que também o personagem de Bruce Willis é um fantasma que só o menino interpretado por Haley Joel Osment é capaz de ver em O Sexto Sentido, ou o fato de que alguns dos dados aparentemente aleatórios de Sinais se revelarão um passo-a-passo para debelar uma invasão alienígena. Em seus maus momentos, como Corpo Fechado e A Vila, essa distância se alarga – e, aqui, se torna quase irrecuperável. O que faz Shyamalan fracassar é exigir do espectador que ele acredite em tudo e qualquer coisa, sem oferecer sedução ou verossimilhança em quantidades proporcionais. Seu método, enfim, é sempre rigorosamente o mesmo. Algumas histórias se adaptam a ele, outras não. E a de A Dama na Água, que o diretor tirou de um conto de fadas que ele próprio inventou para fazer suas filhas dormir (deve ter funcionado às mil maravilhas), é a mais absurda delas.

Contos de fadas não são brincadeira de criança; são codificações poderosas de sentimentos e complexos ancestrais, capazes de atravessar os séculos e as civilizações com sua essência inalterada. Shyamalan é um cineasta talentoso, que sabe enquadrar suas imagens e montá-las num ritmo deliberado. Também tem uma boa intenção: celebrar a maneira como uma narrativa é capaz de reunir pessoas díspares numa mesma experiência. Mas ele não é nenhum Grimm, Perrault ou La Fontaine. Sua lenda não tem nem pé que a sustente nem cabeça que a faça ecoar com algo sequer parecido com a força desses enredos.

 
 
 
 
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