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Cinema A
lenda sem cabeça O nome de M. Night Shyamalan
já foi sinônimo de boas surpresas. Hoje desperta desconfiança

Isabela Boscov
Divulgação  |
| Bryce, como Story, com seu protetor Giamatti: pedir que
se acredite em ninfas de piscina já é demais | | Quando lançou
O Sexto Sentido, o indo-americano M. Night Shyamalan instantaneamente se
tornou uma enorme promessa artística. A cada novo filme, porém,
seu nome evoca mais frustração e A Dama na Água
(Lady in the Water, Estados Unidos, 2006), que estréia nesta sexta-feira
no país, não deve ajudar a reverter essa expectativa negativa. O
excelente Paul Giamatti, o único elemento do filme que não merece
nenhuma ressalva, interpreta Cleveland Heep, zelador de um condomínio de
pequenos apartamentos, tão bem-intencionado quanto solitário. Cleveland
suspeita que alguém esteja usando a piscina de noite, fora do horário
permitido. Mas o que encontra nela não é algum atleta notívago,
e sim uma ninfa marinha chamada Story (Bryce Dallas Howard, de A Vila).
Story está ali para cumprir uma missão: despertar num escritor uma
centelha que será decisiva para o futuro da humanidade. Quem é esse
escritor, ela não sabe dizer, e também ignora quem são as
pessoas designadas a protegê-la dos perigos que cercam sua tarefa. Cleveland
se dispõe a ajudá-la. Sua principal pista é uma senhora coreana,
que se recorda de situação semelhante num conto de fadas que sua
mãe costumava narrar. E, a essa altura, a bagunça já está
instalada. Na escala do improvável, propor comunicação com
os mortos ou invasões alienígenas é uma coisa; já
ninfas em piscinas, esperando que uma grande águia venha resgatá-las,
é outra bem diferente um verdadeiro convite ao humor involuntário,
e mais uma boa razão para que se discuta qual é, afinal, o dom que
tornaria Shyamalan tão especial quanto se julgou.
Existem pelo menos duas maneiras possíveis de olhar os filmes do diretor:
do seu próprio ponto de vista, como a história que ele pretende
contar; e do prisma da platéia, como o filme a que ela efetivamente está
assistindo. Em seus bons momentos, Shyamalan se sai bem justamente pela forma
como primeiro explora a distância entre esses dois pontos de vista e então
a transpõe. São suas célebres reviravoltas: a surpresa de
que também o personagem de Bruce Willis é um fantasma que só
o menino interpretado por Haley Joel Osment é capaz de ver em O Sexto
Sentido, ou o fato de que alguns dos dados aparentemente aleatórios
de Sinais se revelarão um passo-a-passo para debelar uma invasão
alienígena. Em seus maus momentos, como Corpo Fechado e A Vila,
essa distância se alarga e, aqui, se torna quase irrecuperável.
O que faz Shyamalan fracassar é exigir do espectador que ele acredite em
tudo e qualquer coisa, sem oferecer sedução ou verossimilhança
em quantidades proporcionais. Seu método, enfim, é sempre rigorosamente
o mesmo. Algumas histórias se adaptam a ele, outras não. E a de
A Dama na Água, que o diretor tirou de um conto de fadas que ele
próprio inventou para fazer suas filhas dormir (deve ter funcionado às
mil maravilhas), é a mais absurda delas.
Contos de fadas não são brincadeira de criança; são
codificações poderosas de sentimentos e complexos ancestrais, capazes
de atravessar os séculos e as civilizações com sua essência
inalterada. Shyamalan é um cineasta talentoso, que sabe enquadrar suas
imagens e montá-las num ritmo deliberado. Também tem uma boa intenção:
celebrar a maneira como uma narrativa é capaz de reunir pessoas díspares
numa mesma experiência. Mas ele não é nenhum Grimm, Perrault
ou La Fontaine. Sua lenda não tem nem pé que a sustente nem cabeça
que a faça ecoar com algo sequer parecido com a força desses enredos.
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