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Edição 1971 . 30 de agosto de 2006

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Cinema
Na rota da tragédia

Vôo 93 reconstitui, de forma
dolorosa e brilhante, os últimos
momentos das quarenta pessoas
que derrotaram a Al Qaeda


Isabela Boscov

 

Divulgação
Os passageiros do United 93: famílias das vítimas deram apoio maciço ao projeto do filme


DA INTERNET
Trailer do filme

Dos quatro vôos seqüestrados em 11 de setembro de 2001, o de código 93, da United Airlines, foi o único que não atingiu seu alvo – que, presume-se, seria o Capitólio, sede do Congresso americano. Como foi o último a partir, graças a um congestionamento no Aeroporto de Newark, o United 93 ainda estava longe do destino que a Al Qaeda pretendia para ele quando os outros jatos abateram o World Trade Center e o Pentágono. A humanidade toda, em terra, podia apenas conjecturar sobre a origem dos acontecimentos aterradores daquela manhã. Mas os 33 passageiros e os sete tripulantes do United 93 sabiam exatamente o que estava se passando: após cerca de quarenta minutos no ar, eles ficaram frente a frente com quatro terroristas islâmicos – dois deles pilotando a aeronave, dois outros junto aos reféns, ameaçando-os com uma bomba (falsa). É provável que táticas idênticas tenham sido aplicadas para controlar os ocupantes dos três jatos efetivamente transformados em armas de destruição em massa. O que tornou o United 93 diferente foi seu atraso: os passageiros foram informados, em telefonemas feitos de celulares e de aparelhos de bordo, de que uma tragédia de proporções inéditas estava em curso. Concluindo que seu próprio seqüestro terminaria da pior forma possível, eles tentaram retomar o controle da aeronave, que afinal acabaria despencando num campo da Pensilvânia, matando todos a bordo – e mais ninguém. São esses os eventos reconstituídos no estupendo Vôo 93 (United 93, Estados Unidos/Inglaterra, 2006), que estréia nesta sexta-feira no país.

Se há ocasiões em que o cinema pode servir a um propósito maior, é no caso de filmes como esse. Como ficou claro nos cinco anos que se passaram desde o 11 de Setembro, a mensagem da Al Qaeda não é apenas de destruição. É, principalmente, de impotência perante a destruição – e essa foi a mensagem que as pessoas a bordo do United 93 frustraram. Há algo de tremendamente existencial nesse percurso, e é isso que torna o filme do diretor inglês Paul Greengrass tão admirável: a maneira como ele honra não o heroísmo desses passageiros, mas a complexidade da condição humana, capaz de despedir-se da vida ao mesmo tempo em que planeja furiosamente a sua continuidade.

Muito do que aconteceu nos 81 minutos em que o United 93 passou no ar está registrado – na caixa-preta do Boeing 757, nas ligações feitas por passageiros e tripulantes, nas lembranças que os parentes guardam dessas conversas, nas transmissões captadas pelas torres. Há ainda muito mais informação disponível sobre o desenrolar daquela manhã no interior das diversas agências americanas ligadas à aviação. Greengrass, que há quatro anos reconstruiu o massacre de manifestantes católicos por soldados britânicos em 1972, na Irlanda do Norte, em Domingo Sangrento, costura aqui todos esses dados, desde a primeira suspeita de seqüestro até a queda do United 93, com a determinação de não acentuar a dramaticidade deste ou daquele evento. Em Vôo 93, os fatos e as pessoas falam por si próprios. Literalmente, aliás. Os passageiros da aeronave, claro, são interpretados por atores (e os quatro que fazem os terroristas foram isolados até a hora de rodar sua participação, para que fossem percebidos como intrusos). Mas os tripulantes foram selecionados entre pilotos e comissárias, e o pessoal de terra é formado quase todo pelos controladores, oficiais e analistas que desempenharam essas funções naquela manhã.

O caso mais notável é o de Ben Sliney, que em 11 de setembro de 2001 estava em seu primeiro dia no posto de diretor de operações da Federal Aviation Administration (FAA), responsável pelo movimento aéreo civil em nível nacional. Confrontado com uma situação para a qual não havia precedentes nem parâmetros, Sliney teve de trabalhar, em suas próprias palavras, "no vácuo": não conseguiu colocar os militares no circuito até que fosse tarde demais, e não foi nem uma vez sequer contatado pelas agências de inteligência (leia mais de seu depoimento a VEJA no quadro abaixo). Ainda assim, foi dele que partiu a decisão monumental de obrigar as cerca de 4.200 aeronaves que transitavam pelo espaço aéreo americano a aterrissar. "Todos os dias, temos algo como uma dezena de vôos suspeitos, que saíram de rota ou estão sem comunicação. Naquela manhã, todos os vôos se tornaram suspeitos. Fazê-los pousar era a única forma de distinguir os vilões dos mocinhos", diz Sliney. É do seu desempenho soberbo que flui muito da urgência de Vôo 93: enquanto, no ar, os ocupantes do Boeing tentavam adivinhar a lógica por trás das ações dos quatro terroristas, Sliney fazia o mesmo em terra, lidando com milhares de variáveis.

Dois outros aspectos significativos cercam Vôo 93. O primeiro é a acolhida que o projeto teve por parte das famílias das vítimas. Quase todas trabalharam junto com Paul Greengrass, e quase todas compareceram à estréia do filme, em abril, no Festival de Tribeca, fundado por Robert De Niro para estimular a recuperação da área próxima ao Marco Zero. Os soluços durante a projeção foram convulsivos e a aprovação ao filme, praticamente unânime. Já o público americano, que no mesmo período prestigiou na bilheteria a violência gratuita de produções como O Albergue, quis distância de Vôo 93, como se a veracidade do filme o tornasse de alguma forma obsceno. "O sentimento geral é o de que é cedo demais para um filme como esse", disse à revista Time Alice Hoagland, mãe de uma das vítimas. "Mas eu penso o contrário: espero que já não seja tarde demais."

 

 

"TERRORISTA SE PEGA É EM TERRA"

Divulgação
Ben Sliney em Vôo 93: "Revivi aquela manhã milhares de vezes"

Em seu primeiro dia como diretor de operações da Federal Aviation Administration (FAA), entidade que controla os vôos civis sobre o território americano, Ben Sliney, hoje com 61 anos, foi o responsável pela decisão de interromper todo o tráfego aéreo na manhã de 11 de setembro de 2001, como meio de identificar aviões seqüestrados. A seguir, ele comenta os eventos retratados em Vôo 93, em que interpreta a si mesmo.

FOI DIFÍCIL REVIVER AQUELA MANHÃ TRÁGICA?
Não, por dois motivos. Primeiro, porque meu trabalho exige que, quanto maior a pressão, mais eu me contenha emocionalmente. E, se houve um dia em que tentei manter a frieza, foi esse. Segundo, porque já repassei aquela manhã milhares de vezes em minha mente, pesando cada uma das decisões que tomamos.  

O QUE O SENHOR CONCLUIU?
Fizemos tudo o que podíamos fazer em vista do que sabíamos. Trabalhar naquela manhã foi como olhar para um quebra-cabeça desmontado sem ter idéia da imagem que ele iria formar. O que me irrita e me incomoda é que os órgãos de inteligência tinham indícios de que havia um plano para seqüestrar aviões em solo americano e não dividiram essa informação com a FAA. Para piorar, não possuíamos nenhum protocolo para lidar com seqüestros múltiplos e missões suicidas.  

O SENHOR HOJE TEM MEDO DE VOAR?
A verdade é que as viagens aéreas ficaram mais perigosas. Se um terrorista consegue decolar numa aeronave, não há mais nada que se possa fazer. Lugar de pegar terrorista é em terra, com serviço de inteligência e policiamento – como os ingleses fizeram há três semanas, impedindo que dez aviões explodissem em pleno vôo. Pior: jatos são feitos para cruzar o mundo, e um terrorista pode embarcar em qualquer lugar. As medidas de segurança nos aeroportos americanos ou ingleses não são exageradas. Todos os países deveriam ser rigorosos dessa forma.  

POR QUE O SENHOR DEIXOU A FAA?
Depois de quatro meses como diretor de operações, fui promovido a diretor-geral, mas não gostei da burocracia do cargo. Agora controlo o movimento em todos os aeroportos da região de Nova York. Hoje, por exemplo, o dia começou lindo e ensolarado, e o tráfego vai estar a mil – exatamente como eu gosto.

 
 
 
 
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