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Cinema Na
rota da tragédia Vôo 93
reconstitui, de forma dolorosa e brilhante, os últimos momentos
das quarenta pessoas que derrotaram a Al Qaeda  Isabela
Boscov
Divulgação
 | | Os
passageiros do United 93: famílias das vítimas deram apoio maciço
ao projeto do filme |
Dos quatro vôos seqüestrados
em 11 de setembro de 2001, o de código 93, da United Airlines, foi o único
que não atingiu seu alvo que, presume-se, seria o Capitólio,
sede do Congresso americano. Como foi o último a partir, graças
a um congestionamento no Aeroporto de Newark, o United 93 ainda estava longe do
destino que a Al Qaeda pretendia para ele quando os outros jatos abateram o World
Trade Center e o Pentágono. A humanidade toda, em terra, podia apenas conjecturar
sobre a origem dos acontecimentos aterradores daquela manhã. Mas os 33
passageiros e os sete tripulantes do United 93 sabiam exatamente o que estava
se passando: após cerca de quarenta minutos no ar, eles ficaram frente
a frente com quatro terroristas islâmicos dois deles pilotando a
aeronave, dois outros junto aos reféns, ameaçando-os com uma bomba
(falsa). É provável que táticas idênticas tenham sido
aplicadas para controlar os ocupantes dos três jatos efetivamente transformados
em armas de destruição em massa. O que tornou o United 93 diferente
foi seu atraso: os passageiros foram informados, em telefonemas feitos de celulares
e de aparelhos de bordo, de que uma tragédia de proporções
inéditas estava em curso. Concluindo que seu próprio seqüestro
terminaria da pior forma possível, eles tentaram retomar o controle da
aeronave, que afinal acabaria despencando num campo da Pensilvânia, matando
todos a bordo e mais ninguém. São esses os eventos reconstituídos
no estupendo Vôo 93 (United 93, Estados Unidos/Inglaterra,
2006), que estréia nesta sexta-feira no país.
Se há ocasiões em que o cinema pode servir a um propósito
maior, é no caso de filmes como esse. Como ficou claro nos cinco anos que
se passaram desde o 11 de Setembro, a mensagem da Al Qaeda não é
apenas de destruição. É, principalmente, de impotência
perante a destruição e essa foi a mensagem que as pessoas
a bordo do United 93 frustraram. Há algo de tremendamente existencial nesse
percurso, e é isso que torna o filme do diretor inglês Paul Greengrass
tão admirável: a maneira como ele honra não o heroísmo
desses passageiros, mas a complexidade da condição humana, capaz
de despedir-se da vida ao mesmo tempo em que planeja furiosamente a sua continuidade.
Muito do que aconteceu nos 81 minutos
em que o United 93 passou no ar está registrado na caixa-preta do
Boeing 757, nas ligações feitas por passageiros e tripulantes, nas
lembranças que os parentes guardam dessas conversas, nas transmissões
captadas pelas torres. Há ainda muito mais informação disponível
sobre o desenrolar daquela manhã no interior das diversas agências
americanas ligadas à aviação. Greengrass, que há quatro
anos reconstruiu o massacre de manifestantes católicos por soldados britânicos
em 1972, na Irlanda do Norte, em Domingo Sangrento, costura aqui todos
esses dados, desde a primeira suspeita de seqüestro até a queda do
United 93, com a determinação de não acentuar a dramaticidade
deste ou daquele evento. Em Vôo 93, os fatos e as pessoas falam por
si próprios. Literalmente, aliás. Os passageiros da aeronave, claro,
são interpretados por atores (e os quatro que fazem os terroristas foram
isolados até a hora de rodar sua participação, para que fossem
percebidos como intrusos). Mas os tripulantes foram selecionados entre pilotos
e comissárias, e o pessoal de terra é formado quase todo pelos controladores,
oficiais e analistas que desempenharam essas funções naquela manhã.
O caso mais notável é
o de Ben Sliney, que em 11 de setembro de 2001 estava em seu primeiro dia no posto
de diretor de operações da Federal Aviation Administration (FAA),
responsável pelo movimento aéreo civil em nível nacional.
Confrontado com uma situação para a qual não havia precedentes
nem parâmetros, Sliney teve de trabalhar, em suas próprias palavras,
"no vácuo": não conseguiu colocar os militares no circuito até
que fosse tarde demais, e não foi nem uma vez sequer contatado pelas agências
de inteligência (leia mais de seu depoimento a VEJA
no quadro abaixo). Ainda assim, foi dele que partiu a decisão
monumental de obrigar as cerca de 4.200 aeronaves que transitavam pelo espaço
aéreo americano a aterrissar. "Todos os dias, temos algo como uma dezena
de vôos suspeitos, que saíram de rota ou estão sem comunicação.
Naquela manhã, todos os vôos se tornaram suspeitos. Fazê-los
pousar era a única forma de distinguir os vilões dos mocinhos",
diz Sliney. É do seu desempenho soberbo que flui muito da urgência
de Vôo 93: enquanto, no ar, os ocupantes do Boeing tentavam adivinhar
a lógica por trás das ações dos quatro terroristas,
Sliney fazia o mesmo em terra, lidando com milhares de variáveis.
Dois outros aspectos significativos cercam Vôo 93. O primeiro é
a acolhida que o projeto teve por parte das famílias das vítimas.
Quase todas trabalharam junto com Paul Greengrass, e quase todas compareceram
à estréia do filme, em abril, no Festival de Tribeca, fundado por
Robert De Niro para estimular a recuperação da área próxima
ao Marco Zero. Os soluços durante a projeção foram convulsivos
e a aprovação ao filme, praticamente unânime. Já o
público americano, que no mesmo período prestigiou na bilheteria
a violência gratuita de produções como O Albergue,
quis distância de Vôo 93, como se a veracidade do filme o tornasse
de alguma forma obsceno. "O sentimento geral é o de que é cedo demais
para um filme como esse", disse à revista Time Alice Hoagland, mãe
de uma das vítimas. "Mas eu penso o contrário: espero que já
não seja tarde demais."  |  |
"TERRORISTA SE PEGA É
EM TERRA" Divulgação
 | | Ben
Sliney em Vôo 93: "Revivi aquela manhã milhares de vezes"
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Em seu primeiro dia como
diretor de operações da Federal Aviation Administration (FAA), entidade
que controla os vôos civis sobre o território americano, Ben Sliney,
hoje com 61 anos, foi o responsável pela decisão de interromper
todo o tráfego aéreo na manhã de 11 de setembro de 2001,
como meio de identificar aviões seqüestrados. A seguir, ele comenta
os eventos retratados em Vôo 93, em que interpreta a si mesmo.
FOI DIFÍCIL REVIVER AQUELA MANHÃ TRÁGICA?
Não, por dois motivos. Primeiro, porque meu trabalho exige que, quanto
maior a pressão, mais eu me contenha emocionalmente. E, se houve um dia
em que tentei manter a frieza, foi esse. Segundo, porque já repassei aquela
manhã milhares de vezes em minha mente, pesando cada uma das decisões
que tomamos. O QUE O SENHOR
CONCLUIU? Fizemos tudo o que podíamos fazer em vista do que sabíamos.
Trabalhar naquela manhã foi como olhar para um quebra-cabeça desmontado
sem ter idéia da imagem que ele iria formar. O que me irrita e me incomoda
é que os órgãos de inteligência tinham indícios
de que havia um plano para seqüestrar aviões em solo americano e não
dividiram essa informação com a FAA. Para piorar, não possuíamos
nenhum protocolo para lidar com seqüestros múltiplos e missões
suicidas. O SENHOR HOJE
TEM MEDO DE VOAR? A verdade é que as viagens aéreas ficaram
mais perigosas. Se um terrorista consegue decolar numa aeronave, não há
mais nada que se possa fazer. Lugar de pegar terrorista é em terra, com
serviço de inteligência e policiamento como os ingleses fizeram
há três semanas, impedindo que dez aviões explodissem em pleno
vôo. Pior: jatos são feitos para cruzar o mundo, e um terrorista
pode embarcar em qualquer lugar. As medidas de segurança nos aeroportos
americanos ou ingleses não são exageradas. Todos os países
deveriam ser rigorosos dessa forma. POR
QUE O SENHOR DEIXOU A FAA? Depois de quatro meses como diretor de operações,
fui promovido a diretor-geral, mas não gostei da burocracia do cargo. Agora
controlo o movimento em todos os aeroportos da região de Nova York. Hoje,
por exemplo, o dia começou lindo e ensolarado, e o tráfego vai estar
a mil exatamente como eu gosto. | | |