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Edição 1971 . 30 de agosto de 2006

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Artigo: Gustavo Ioschpe
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Moda
O figurino de
1 milhão de dólares

Esqueça a história, a música, o
cenário. Em O Diabo Veste Prada,
o que encanta mesmo são as roupas


Bel Moherdaui


Fotos divulgação
gação
gação
Se Prada é a marca da chefe diabólica, Chanel é a da sua assistente: aqui, no casaco ajustado, com botas até a coxa, míni de tweed e top metalizado A transformação começou: cabelo escorrido, sobretudo de lã, boina de tweed Chanel, bolsa de cobra Calvin Klein, sapatos Marni e luvas Apressada, com estilo: vestido de jérsei Calvin Klein, óculos escuros Chanel


Como filme, o maior elogio tem sido o de ser considerado melhor do que o livro que lhe deu origem (o qual, diga-se, não é nenhuma grande obra da literatura mundial, embora tenha vendido cerca de 20.000 cópias no Brasil e mais de 1 milhão nos Estados Unidos). Mas o que prende a atenção, encanta e arranca suspiros na versão cinematográfica de O Diabo Veste Prada, o livro de Lauren Weisberger que expõe o mundinho da moda nas bem-cuidadas peles de uma editora de revista má como a peste e sua determinada assistente, são as cores, volumes e tilintar de bling-blings do fabuloso figurino, um desfile de grifes elegantes montado pela stylist e empresária de moda Patricia Field, a mente por trás dos arroubos de ousadia indumentária de Carrie Bradshaw (Sarah Jessica Parker) e amigas no seriado Sex and the City. Com ajuda de três assistentes, Patricia montou cerca de quarenta conjuntos de roupas e acessórios para a diabólica editora de moda Miranda Priestly, interpretada por Meryl Streep, e outros sessenta para a assistente-capacho Andrea Sachs (Anne Hathaway). Rechearam as araras dos camarins das duas atrizes vestidos, casacos e outras peças com etiquetas como Louis Vuitton, Calvin Klein, Giorgio Armani, Hermès, Louboutin, Gucci, Valentino e Chanel, num total de 1 milhão de dólares em roupas e acessórios. Prada, a marca do título, aparece até com parcimônia, em sapatos (quatro em cada dez usados por Meryl Streep), um conjunto e uma escancaradamente legendada bolsa de 1.445 dólares logo na abertura.

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"O filme mostra o mundo da moda pelos olhos de uma revista de moda. Precisei ter muito cuidado para não montar um figurino compreensível apenas por quem vive nesse mundo. O importante era criar um estilo original para a Miranda e usar marcas conhecidas para Andrea", disse Patricia a VEJA. Na trama, a recém-formada Andrea Sachs aceita o "emprego pelo qual milhões de garotas morreriam" e vira a faz-tudo de Miranda, poderosa comandante da maior revista de moda dos Estados Unidos, a fictícia Runway. Faz-tudo aqui não é força de expressão: ela pendura os casacos de pele de milhares de dólares da chefe, busca seu café pelando, leva seu cachorro ao veterinário, recolhe sua roupa na lavanderia. Em troca, a moça, que era simplesinha de doer e tinha orgulho disso, ganha acesso ao fantástico guarda-roupa amealhado pela revista e, com a ajuda de uma espécie de fada madrinha fashion – o editor de moda Nigel (Stanley Tucci) –, vira outra pessoa, chique, bem penteada e bem maquiada. "No começo ela é uma garota comum. Não feia, nem uma caricatura da falta de estilo, apenas comum. Quando se transforma em uma pessoa fashion, passa a usar as grandes marcas que são fotografadas pela revista", explica Patricia.


O charme dos acessórios: dois colares de pérolas com vários pingentes e boina de tweed. A marca? Chanel Direto do acervo da Runway: sobretudo de lã, saia de veludo Gucci, bolsa Chanel e botas Louboutin

Quem gosta de moda perderá a pose e ficará de queixo caído do meio até o fim do filme, quando Andrea, já de franja e cabelos escorridos, desfila, um depois do outro e não necessariamente nesta ordem, um sobretudo de lã creme com boina de tweed Chanel, uma bolsa-saco Calvin Klein de pele de cobra dourada, sapatos de tweed cinza Marni e luvas, um sobretudo de lã de carneiro Rebecca Taylor com saia de veludo berinjela Gucci, meia-calça preta trabalhada, bolsa de couro Chanel, botas de couro Louboutin e gorro de cashmere, um blazer justo de crepe de lã Chanel com minissaia de tweed marrom Kristina Ti, top com aplicações metalizadas, botas de couro preto até a coxa e colares de ouro vintage, uma camisa branca Miu Miu sobreposta por blusa preta, boina Chanel e dois colares de pérolas com pingentes também Chanel, um vestido de jérsei verde Calvin Klein com cinto de couro, sapatos em verde dourado, bolsa dourada, óculos escuros Chanel – uma vertiginosa seqüência de tirar o fôlego e desviar a atenção do resto da cena. O auge da elegância é atingido na festa de gala em que ela surge deslumbrante em um longo preto John Galliano (Miranda veste na mesma ocasião um Valentino confeccionado especialmente para o filme). "Amei o vestido. Toda vez que o vestia, cantava Rich Girl, da Gwen Stefani. Fiquei emocionada de usar algo tão lindo", suspira Anne Hathaway.

O figurino de Miranda, suposta caricatura da editora Anna Wintour, manda-chuva da Vogue americana (de quem Lauren Weisberger foi assistente, mas que jura de pés juntos não ter nada a ver com sua personagem), mereceu cuidados especiais. "Por ser uma poderosa executiva da moda, não queria colocar nela nada que se identificasse com algum período ou tendência. Queria que tivesse seu estilo próprio", diz Patricia. No guarda-roupa básico da personagem entraram peças do acervo Donna Karan da década de 80 e roupas pouco datadas da grife Bill Blass, além da infindável seqüência de bolsas e casacos deslumbrantes que todo dia despeja na mesa da assistente – aproximadamente quinze de cada, num total de 30.000 dólares só em peles. "Uma das bolsas que eu usei no filme custava 12.000 dólares. Para mim, é inconcebível", declarou Meryl Streep, de quem partiu a idéia de leiloar parte do figurino (outra parte foi devolvida às grifes e algumas peças foram dadas de presente às atrizes).

Durante a filmagem, Patricia, que atualmente faz a produção da versão americana de Betty, a Feia, conta que uma de suas maiores dificuldades foi o orçamento de 100.000 dólares, limitadíssimo para as ambições do figurino. A solução, diz, foi apelar para "a ajuda de meus amigos da indústria da moda", que emprestaram roupas e colaboraram sem cobrar nada. Outro obstáculo, mais intangível, foi o receio de algumas marcas de, com sua participação, atiçar a ira da Miranda Priestly que impera na Vogue. "Realmente, alguns se preocuparam com a reação de Anna Wintour e preferiram não participar. Se percebia desconforto, eu não forçava", diz Patricia. O resultado, uma festa para os olhos, poderá ser conferido a partir de 22 de setembro, data prevista para a estréia do filme no Brasil.


Puro poder: em seqüência, Meryl-Miranda desfila 30 000 dólares só em casacos de pele; na festa de gala (acima, à direita), Valentino sob medida para ela, Galliano para a assistente Andrea

 
 
 
 
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