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Edição 1971 . 30 de agosto de 2006

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Sociedade
Ela se casou com
ela mas ela virou ele

Nos Estados Unidos, lésbicas viram
homens e são rejeitadas por parceiras
e amigas, que consideram uma traição


Fotos Darcy Padilha/The New York Times
York Times
Caya, ex-Sharon, hoje Shane, brinca com a filha de sua ex-parceira: hormônios e mastectomia dupla (à esquerda, mostra as cicatrizes) para poder "me mostrar como sou"

Num casal de lésbicas, uma das parceiras resolve fazer tratamento para se transformar em homem – ganha barba, reesculpe formas, perde os seios, engrossa a voz. Transformação concluída, a união se desfaz por um motivo prosaico em meio à complexidade de sentimentos envolvidos: ela não mais vê nele aquilo que procura em sua cara-metade. A questão, quase inexistente até cinco anos atrás pela raridade das mudanças de sexo de mulher para homem, vem sendo cada vez mais comentada inclusive fora do mundo lésbico, tendo sido tema recente de uma série de televisão e, na semana passada, de um artigo no The New York Times. "Sou lésbica porque me sinto atraída por mulheres, não por homens. Concluí que não queria manter um relacionamento romântico com um homem", disse ao jornal Natasha, gerente financeira que não quis dar o sobrenome, sobre a mudança em sua ex-parceira, Sharon Caya, que se tornou Shane após três anos de tratamento e cirurgias.

Caya, 42 anos, que dirige um escritório de advocacia para transexuais em São Francisco, na Califórnia, resolveu mudar de sexo quando Natasha, com quem viveu por sete anos, engravidou por inseminação artificial com esperma doado. "Queria que o bebê me visse como eu sou", explica. Passou a ingerir testosterona, teve os seios removidos em uma dupla mastectomia (que lhe rendeu duas vastas cicatrizes no peito) e atualmente usa cavanhaque, fala com voz grossa e se orgulha de seus músculos. Até agora, não se animou a "operar embaixo", como diz, porque custa muito caro (cerca de 100.000 dólares). O casal se separou quando o bebê tinha 5 meses, mas continua amigo e tem guarda conjunta da criança. O tratamento pelo qual Caya passou é desgastante e doloroso, mas ultimamente vem atraindo um número crescente de mulheres. Michael Brownstein, cirurgião de São Francisco (a única cidade americana onde planos de saúde empresariais cobrem cirurgias de mudança de sexo), diz que realizou mais de 1.000 mudanças de sexo em mulheres nos últimos anos. "As operações de reposicionamento sexual aumentaram muito de 2000 para cá, por causa do avanço nos procedimentos, dos preços mais baixos e do acesso a informações na internet", confirma Harold Reed, de Miami, que diz operar de sete a dez mulheres por ano, em comparação a quase quarenta homens. Mark Cummings, dono de uma academia de ginástica em Hollywood, cubano que até 2003 era lésbica e se chamava Maritza Perdomo, removeu não só os seios, como todos os órgãos reprodutores internos. Considera-se muitíssimo bem-aceito, inclusive pela parceira, Violet, que conheceu antes da mudança, mas admite: perdeu contato com a comunidade lésbica, que o vê como um traidor.

"Fazer a transição", como o procedimento é chamado, é uma decisão em geral malvista pelos grupos de lésbicas nos Estados Unidos. "Muita gente olha para essas mulheres e pensa 'Você não percebe que, ao virar homem, está passando para o outro lado?'", diz Barbara Price, ex-produtora do Womyn's Music Festival, um encontro de lésbicas que só permite a entrada de "mulher que nasceu mulher e vive como mulher". A polêmica chegou em maio à terceira temporada do seriado The L Word (no Brasil, o canal pago Warner passa atualmente a segunda), na qual uma nova personagem, Moira, anuncia que vai mudar de sexo e se chamar Max. Em blogs e sites lésbicos, muitas pediram que Max fosse morto no fim, inclusive por "overdose de testosterona". Não bastassem as discussões e os comentários sobre lealdade e identidade política, Max tripudiou em princípios ainda mais sensíveis ao conseguir, como homem, um emprego que tinha sido negado a Moira – e aceitar. O americano Max Valerio, ex-Anita, que iniciou o tratamento há dezessete anos e em maio lançou o livro Os Arquivos da Testosterona, afirma que a mudança foi muito além do seu corpo, voz e incipiente calvície. "Os objetos ficaram mais definidos e as emoções, difíceis de articular", garante Valerio, que se viu olhando para mulheres com o mesmo olhar guloso que costumava desprezar nos homens.

Em meio à gritaria, dirigentes de organizações lésbicas tentam pôr ordem no debate e preservar os avanços obtidos até agora. "A visão de que estamos perdendo lésbicas para o transicionismo é absurda. Diante do nosso histórico de opressão, todas as lésbicas têm de incentivar as pessoas a ser o que são, mesmo que com isso nossa irmã lésbica se torne nosso irmão identificado como heterossexual", diz Kate Kendall, diretora do Centro Nacional pelos Direitos das Lésbicas. E no Brasil? "Não conheço ninguém que tenha feito esse tipo de transformação aqui", diz Milly Lacombe, jornalista e autora do livro Segredos de uma Lésbica para Homens. "Transformar o corpo em outra coisa deve ser uma jornada dificílima. Não vejo como traição. Para mim, são os discriminados discriminando."

 
 
 
 
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