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Sociedade
Ela se casou com
ela mas ela virou ele
Nos Estados Unidos, lésbicas viram
homens e são rejeitadas por parceiras
e amigas, que consideram uma traição
Fotos Darcy Padilha/The New York Times
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York Times
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| Caya, ex-Sharon, hoje Shane, brinca
com a filha de sua ex-parceira: hormônios e mastectomia
dupla (à esquerda, mostra as cicatrizes) para
poder "me mostrar como sou" |
Num casal de lésbicas,
uma das parceiras resolve fazer tratamento para se transformar em
homem ganha barba, reesculpe formas, perde os seios, engrossa
a voz. Transformação concluída, a união
se desfaz por um motivo prosaico em meio à complexidade de
sentimentos envolvidos: ela não mais vê nele aquilo
que procura em sua cara-metade. A questão, quase inexistente
até cinco anos atrás pela raridade das mudanças
de sexo de mulher para homem, vem sendo cada vez mais comentada
inclusive fora do mundo lésbico, tendo sido tema recente
de uma série de televisão e, na semana passada, de
um artigo no The New York Times. "Sou lésbica porque
me sinto atraída por mulheres, não por homens. Concluí
que não queria manter um relacionamento romântico com
um homem", disse ao jornal Natasha, gerente financeira que não
quis dar o sobrenome, sobre a mudança em sua ex-parceira,
Sharon Caya, que se tornou Shane após três anos de
tratamento e cirurgias.
Caya, 42 anos, que dirige um
escritório de advocacia para transexuais em São Francisco,
na Califórnia, resolveu mudar de sexo quando Natasha, com
quem viveu por sete anos, engravidou por inseminação
artificial com esperma doado. "Queria que o bebê me visse
como eu sou", explica. Passou a ingerir testosterona, teve os seios
removidos em uma dupla mastectomia (que lhe rendeu duas vastas cicatrizes
no peito) e atualmente usa cavanhaque, fala com voz grossa e se
orgulha de seus músculos. Até agora, não se
animou a "operar embaixo", como diz, porque custa muito caro (cerca
de 100.000 dólares). O casal se separou quando o bebê
tinha 5 meses, mas continua amigo e tem guarda conjunta da criança.
O tratamento pelo qual Caya passou é desgastante e doloroso,
mas ultimamente vem atraindo um número crescente de mulheres.
Michael Brownstein, cirurgião de São Francisco (a
única cidade americana onde planos de saúde empresariais
cobrem cirurgias de mudança de sexo), diz que realizou mais
de 1.000 mudanças de sexo em mulheres nos últimos
anos. "As operações de reposicionamento sexual aumentaram
muito de 2000 para cá, por causa do avanço nos procedimentos,
dos preços mais baixos e do acesso a informações
na internet", confirma Harold Reed, de Miami, que diz operar de
sete a dez mulheres por ano, em comparação a quase
quarenta homens. Mark Cummings, dono de uma academia de ginástica
em Hollywood, cubano que até 2003 era lésbica e se
chamava Maritza Perdomo, removeu não só os seios,
como todos os órgãos reprodutores internos. Considera-se
muitíssimo bem-aceito, inclusive pela parceira, Violet, que
conheceu antes da mudança, mas admite: perdeu contato com
a comunidade lésbica, que o vê como um traidor.
"Fazer a transição",
como o procedimento é chamado, é uma decisão
em geral malvista pelos grupos de lésbicas nos Estados Unidos.
"Muita gente olha para essas mulheres e pensa 'Você não
percebe que, ao virar homem, está passando para o outro lado?'",
diz Barbara Price, ex-produtora do Womyn's Music Festival, um encontro
de lésbicas que só permite a entrada de "mulher que
nasceu mulher e vive como mulher". A polêmica chegou em maio
à terceira temporada do seriado The L Word (no Brasil,
o canal pago Warner passa atualmente a segunda), na qual uma nova
personagem, Moira, anuncia que vai mudar de sexo e se chamar Max.
Em blogs e sites lésbicos, muitas pediram que Max fosse morto
no fim, inclusive por "overdose de testosterona". Não bastassem
as discussões e os comentários sobre lealdade e identidade
política, Max tripudiou em princípios ainda mais sensíveis
ao conseguir, como homem, um emprego que tinha sido negado a Moira
e aceitar. O americano Max Valerio, ex-Anita, que iniciou
o tratamento há dezessete anos e em maio lançou o
livro Os Arquivos da Testosterona, afirma que a mudança
foi muito além do seu corpo, voz e incipiente calvície.
"Os objetos ficaram mais definidos e as emoções, difíceis
de articular", garante Valerio, que se viu olhando para mulheres
com o mesmo olhar guloso que costumava desprezar nos homens.
Em meio à gritaria, dirigentes
de organizações lésbicas tentam pôr ordem
no debate e preservar os avanços obtidos até agora.
"A visão de que estamos perdendo lésbicas para o transicionismo
é absurda. Diante do nosso histórico de opressão,
todas as lésbicas têm de incentivar as pessoas a ser
o que são, mesmo que com isso nossa irmã lésbica
se torne nosso irmão identificado como heterossexual", diz
Kate Kendall, diretora do Centro Nacional pelos Direitos das Lésbicas.
E no Brasil? "Não conheço ninguém que tenha
feito esse tipo de transformação aqui", diz Milly
Lacombe, jornalista e autora do livro Segredos de uma Lésbica
para Homens. "Transformar o corpo em outra coisa deve ser uma
jornada dificílima. Não vejo como traição.
Para mim, são os discriminados discriminando."
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