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Edição 1971 . 30 de agosto de 2006

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Turfe
Montados no dinheiro

Sem mercado nos hipódromos nacionais,
jóqueis brasileiros fazem sucesso no exterior


Letícia Sorg



Julian Herbert/Getty Images
Divulgação
O mineiro Nelson de Souza vence um páreo (à esq.): sucesso na Inglaterra

Em sua terceira temporada na Inglaterra, o jóquei mineiro Nelson de Souza, de 24 anos, acumulou títulos que lhe renderam não só espaço na imprensa inglesa como a invejável quantia de 2 milhões de reais em prêmios. No início do mês passado, N. de Souza, como é conhecido, venceu um importante páreo com prêmio equivalente a 400.000 reais, em Newcastle. Essa e outras vitórias o colocaram ao lado dos melhores da Inglaterra entre os jóqueis conhecidos como "aprendizes" – ou seja, no estágio inicial da carreira. Souza é o exemplo mais bem-sucedido de uma safra de profissionais do turfe brasileiro que optaram pelo êxodo. Com a queda do interesse pelas corridas de cavalo no Brasil, jóqueis, treinadores e até cavalariços decidiram se aventurar pelos prados internacionais. "Não há comparação. Em um páreo comum na Inglaterra, ganho o mesmo que no principal grande prêmio do Brasil", diz Souza, cujo sonho é disputar o Royal Ascot, a prova mais tradicional do mundo – existente desde 1711 –, diante dos olhos da rainha Elizabeth II, fã de turfe e ela mesma proprietária de cavalos de corrida.

Nos Estados Unidos e na Inglaterra, dois dos principais pólos desse esporte, estima-se que haja perto de uma centena de brasileiros trabalhando com cavalos. "Quase todas as cocheiras têm algum funcionário do Brasil", diz Cícero Raul da Silva, outro jóquei de futuro que se mudou para a Inglaterra. Não são apenas os jovens que estão tentando a sorte no exterior. Depois de vencer mais de 1.000 páreos no Brasil, o mineiro Manoel Cruz, 35 anos, foi para os Estados Unidos cinco anos atrás. "Os prêmios foram caindo e não havia tantas corridas", explica. Cruz juntou suas economias, hospedou-se em um hotel de segunda categoria em Miami e, com a ajuda de um treinador brasileiro, começou a participar de páreos. Hoje já ganhou páreos cujas bolsas somadas ultrapassam 2 milhões de reais. Até na Ásia se encontram brasileiros. O jóquei Manoel Nunes mudou-se para Hong Kong e espera repetir em sua primeira temporada os bons resultados que obteve em Macau, onde foi o campeão do último ano, com 122 vitórias. Uma pequena parte do sucesso dos brasileiros se deve a um fator físico: nos países desenvolvidos, com dietas cada vez mais calóricas, rareiam pessoas com o biótipo baixo e magro, essencial para montar um cavalo de corrida. Dos dez jóqueis líderes em prêmios nos Estados Unidos neste ano, oito são latino-americanos.

Andrew Watikins/divulgação
Heart Alone ganha prova em Dubai: cavalos brasileiros também brilham no exterior


Em busca de prêmios melhores que os oferecidos no Brasil, criadores de cavalos brasileiros também têm exportado seus campeões. Nos últimos cinco anos, começaram a participar de provas importantes. Na corrida de maior premiação do mundo, em Dubai, nos Emirados Árabes, cinco animais brasileiros concorreram entre os sete páreos do programa, número inferior apenas ao de países tradicionais na criação de cavalos de corrida, como Estados Unidos e Irlanda. Um deles, "Heart Alone", venceu outra prova importante nos Emirados, com bolsa equivalente a 450.000 reais.

Até meados do século passado, o turfe era um dos esportes mais populares do Brasil. Os hipódromos viviam lotados de apostadores e os jornais tinham páginas inteiras sobre o tema. Animais campeões como "Gualicho", "Narvik" e "Farwell" e jóqueis como Irineo Leguisamo e Luiz Rigoni, que morreu neste mês, eram tão famosos quanto qualquer jogador de futebol. O Grande Prêmio Brasil, a prova mais importante do país, atraía até presidentes da República à tribuna do jóquei-clube da Gávea, no Rio de Janeiro. Outrora uma ocasião para gente elegante, hoje a corrida mais parece uma competição entre atrizes de novela para exibir o chapéu mais espalhafatoso. O último cavalo cuja fama ultrapassou os limites da raia do hipódromo foi "Itajara", duas décadas atrás. Há alguns anos a Rede Globo deixou de televisionar o Grande Prêmio Brasil. Neste ano, exibiu um videoteipe no intervalo da transmissão do futebol.

A concorrência das loterias federais, a partir dos anos 70, deu início ao declínio do turfe. Ganhar dinheiro apostando em cavalos exige um trabalhoso acompanhamento de treinos e páreos. Os prêmios, embora estatisticamente mais fáceis de ganhar que a Mega Sena, são bem menos apetitosos. Nos últimos anos, alguns jóqueis-clubes, como os de Brasília e Belo Horizonte, pararam de organizar corridas. Muitos, como o de São Paulo, passaram a diversificar suas fontes de renda, destinando seus terrenos a shows de rock, sessões de cinema ao ar livre e desfiles de moda. "Essas atividades paralelas ajudam a reaproximar o público da cidade", afirma Márcio Toledo, presidente do Jockey Club de São Paulo. "O turfe ficou distante da sociedade e por isso sofreu um esvaziamento." Entre os projetos do hipódromo paulistano está a construção de uma academia de ginástica, que teria entre os sócios o jogador Ronaldo, do Real Madrid. No Jockey Club Brasileiro, na Gávea, a novidade para atrair o público é a possibilidade de apostar em páreos que acontecem em outros países, como Argentina, Uruguai, Estados Unidos e Austrália. Os números do turfe nacional são pálidos em comparação com os do exterior. Só no fim de semana do Derby de Kentucky, a prova mais importante dos Estados Unidos, fatura-se mais que em um ano inteiro no hipódromo carioca da Gávea. Isso ajuda a explicar o êxodo que fez de jóqueis como Nelson de Souza histórias de sucesso longe do Brasil.

 

 
 
 
 
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