|
|
Turfe
Montados no dinheiro
Sem mercado nos hipódromos nacionais,
jóqueis brasileiros fazem sucesso no exterior

Letícia Sorg
Julian Herbert/Getty Images
 |
Divulgação
 |
| O mineiro Nelson de Souza vence
um páreo (à esq.): sucesso na Inglaterra |
Em sua terceira temporada na Inglaterra,
o jóquei mineiro Nelson de Souza, de 24 anos, acumulou títulos
que lhe renderam não só espaço na imprensa
inglesa como a invejável quantia de 2 milhões de reais
em prêmios. No início do mês passado, N. de Souza,
como é conhecido, venceu um importante páreo com prêmio
equivalente a 400.000 reais, em Newcastle. Essa e outras vitórias
o colocaram ao lado dos melhores da Inglaterra entre os jóqueis
conhecidos como "aprendizes" ou seja, no estágio inicial
da carreira. Souza é o exemplo mais bem-sucedido de uma safra
de profissionais do turfe brasileiro que optaram pelo êxodo.
Com a queda do interesse pelas corridas de cavalo no Brasil, jóqueis,
treinadores e até cavalariços decidiram se aventurar
pelos prados internacionais. "Não há comparação.
Em um páreo comum na Inglaterra, ganho o mesmo que no principal
grande prêmio do Brasil", diz Souza, cujo sonho é disputar
o Royal Ascot, a prova mais tradicional do mundo existente
desde 1711 , diante dos olhos da rainha Elizabeth II, fã
de turfe e ela mesma proprietária de cavalos de corrida.
Nos Estados Unidos e na Inglaterra,
dois dos principais pólos desse esporte, estima-se que haja
perto de uma centena de brasileiros trabalhando com cavalos. "Quase
todas as cocheiras têm algum funcionário do Brasil",
diz Cícero Raul da Silva, outro jóquei de futuro que
se mudou para a Inglaterra. Não são apenas os jovens
que estão tentando a sorte no exterior. Depois de vencer
mais de 1.000 páreos no Brasil, o mineiro Manoel Cruz, 35
anos, foi para os Estados Unidos cinco anos atrás. "Os prêmios
foram caindo e não havia tantas corridas", explica. Cruz
juntou suas economias, hospedou-se em um hotel de segunda categoria
em Miami e, com a ajuda de um treinador brasileiro, começou
a participar de páreos. Hoje já ganhou páreos
cujas bolsas somadas ultrapassam 2 milhões de reais. Até
na Ásia se encontram brasileiros. O jóquei Manoel
Nunes mudou-se para Hong Kong e espera repetir em sua primeira temporada
os bons resultados que obteve em Macau, onde foi o campeão
do último ano, com 122 vitórias. Uma pequena parte
do sucesso dos brasileiros se deve a um fator físico: nos
países desenvolvidos, com dietas cada vez mais calóricas,
rareiam pessoas com o biótipo baixo e magro, essencial para
montar um cavalo de corrida. Dos dez jóqueis líderes
em prêmios nos Estados Unidos neste ano, oito são latino-americanos.
Andrew Watikins/divulgação
 |
| Heart Alone ganha prova em Dubai: cavalos
brasileiros também brilham no exterior |
Em busca de prêmios melhores que os oferecidos no Brasil,
criadores de cavalos brasileiros também têm exportado
seus campeões. Nos últimos cinco anos, começaram
a participar de provas importantes. Na corrida de maior premiação
do mundo, em Dubai, nos Emirados Árabes, cinco animais brasileiros
concorreram entre os sete páreos do programa, número
inferior apenas ao de países tradicionais na criação
de cavalos de corrida, como Estados Unidos e Irlanda. Um deles,
"Heart Alone", venceu outra prova importante nos Emirados, com bolsa
equivalente a 450.000 reais.
Até meados do século
passado, o turfe era um dos esportes mais populares do Brasil. Os
hipódromos viviam lotados de apostadores e os jornais tinham
páginas inteiras sobre o tema. Animais campeões como
"Gualicho", "Narvik" e "Farwell" e jóqueis como Irineo Leguisamo
e Luiz Rigoni, que morreu neste mês, eram tão famosos
quanto qualquer jogador de futebol. O Grande Prêmio Brasil,
a prova mais importante do país, atraía até
presidentes da República à tribuna do jóquei-clube
da Gávea, no Rio de Janeiro. Outrora uma ocasião para
gente elegante, hoje a corrida mais parece uma competição
entre atrizes de novela para exibir o chapéu mais espalhafatoso.
O último cavalo cuja fama ultrapassou os limites da raia
do hipódromo foi "Itajara", duas décadas atrás.
Há alguns anos a Rede Globo deixou de televisionar o Grande
Prêmio Brasil. Neste ano, exibiu um videoteipe no intervalo
da transmissão do futebol.
A concorrência das loterias
federais, a partir dos anos 70, deu início ao declínio
do turfe. Ganhar dinheiro apostando em cavalos exige um trabalhoso
acompanhamento de treinos e páreos. Os prêmios, embora
estatisticamente mais fáceis de ganhar que a Mega Sena, são
bem menos apetitosos. Nos últimos anos, alguns jóqueis-clubes,
como os de Brasília e Belo Horizonte, pararam de organizar
corridas. Muitos, como o de São Paulo, passaram a diversificar
suas fontes de renda, destinando seus terrenos a shows de rock,
sessões de cinema ao ar livre e desfiles de moda. "Essas
atividades paralelas ajudam a reaproximar o público da cidade",
afirma Márcio Toledo, presidente do Jockey Club de São
Paulo. "O turfe ficou distante da sociedade e por isso sofreu um
esvaziamento." Entre os projetos do hipódromo paulistano
está a construção de uma academia de ginástica,
que teria entre os sócios o jogador Ronaldo, do Real Madrid.
No Jockey Club Brasileiro, na Gávea, a novidade para atrair
o público é a possibilidade de apostar em páreos
que acontecem em outros países, como Argentina, Uruguai,
Estados Unidos e Austrália. Os números do turfe nacional
são pálidos em comparação com os do
exterior. Só no fim de semana do Derby de Kentucky, a prova
mais importante dos Estados Unidos, fatura-se mais que em um ano
inteiro no hipódromo carioca da Gávea. Isso ajuda
a explicar o êxodo que fez de jóqueis como Nelson de
Souza histórias de sucesso longe do Brasil.
|