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Edição 1971 . 30 de agosto de 2006

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Futebol
Compraram os argentinos

Bilionário russo adquire o direito de
escolher os adversários – e até os
jogadores – da seleção argentina

A seleção argentina de futebol foi praticamente vendida neste mês ao magnata Victor Vekselberg, uma das cinco maiores fortunas da Rússia, por 18 milhões de dólares (cerca de 40 milhões de reais). Esse é o valor que a empresa Renova, do bilionário russo, pagou pelo direito de organizar 24 amistosos nos próximos cinco anos, escolhendo não só os adversários dos argentinos mas até os jogadores que podem participar desses jogos. O técnico Alfio Basile recebeu uma lista com o nome de trinta jogadores, que devem compor a base de suas próximas convocações. O primeiro jogo da nova era já está marcado: será no próximo dia 3, em Londres, contra a seleção brasileira do técnico Dunga.

Como não podia deixar de ser, os termos do contrato causaram polêmica. O presidente da federação argentina, Julio Grondona, uma espécie de Ricardo Teixeira local – está no poder desde 1979, dez anos a mais que seu colega da CBF –, defendeu a decisão de terceirizar a agenda da seleção nacional. Alegou que dá trabalho procurar rivais para amistosos e que os milhões de dólares são uma garantia de renda para manter o centro de treinamento da seleção, em Ezeiza, o equivalente argentino da Granja Comary. Garantiu que, apesar da lista de trinta nomes, os russos aceitarão quem quer que Basile convoque e previu que os novos parceiros escolherão adversários de bom nível para a Argentina. "O tempo, insubornável companheiro, nos dará razão", discursou em tom de letra de tango ao anunciar o contrato.


Fotos Daniel Luna/AP e Enrique Marcarian/Reuters
O técnico Basile e o craque Lionel Messi: lista de trinta "convocáveis"

Em uma análise fria, o cartola argentino tem certa razão. Organizar amistosos já é, há muito tempo, tarefa intermediada por empresários. A novidade é apenas vendê-los em pacote. O valor do contrato dá uma média de 750.000 dólares por partida, mais do que os argentinos costumam receber hoje. O Brasil em geral pede 1 milhão de dólares (recebeu 1,3 milhão para jogar em Oslo no início do mês, segundo a imprensa norueguesa). Além disso, a federação argentina pode arrecadar mais vendendo os direitos de transmissão pela TV. Teoricamente, os russos terão interesse em marcar jogos rentáveis, contra times fortes. E a cláusula que "impõe" uma lista de jogadores é flexível – trata-se apenas de uma garantia para evitar que a Argentina ponha em campo um time B. Basile já mostrou isso ao convocar alguns novatos que não estavam na lista para o jogo contra o Brasil.

Mas há alguns senões. Ao abrir mão da soberania de negociar amistosos, a Argentina sujeita-se a enfrentar não as seleções mais fortes, e sim as que pagarem mais à Renova. Veja-se o caso da CBF, que em nome de cotas milionárias submete a seleção a amistosos inúteis contra times fracos como Emirados Árabes e Kuwait. Divulgar uma lista formal de jogadores solapa a autoridade do treinador – e foi um dos motivos da renúncia de José Pekerman, o antecessor de Basile no cargo. Cláusulas assim podem acabar em problema. No Brasil, a Nike chegou a possuir o direito de marcar cinco amistosos do Brasil por ano. Deu-se conta da roubada e desistiu. Outro patrocinador da seleção, a Ambev, tem atualmente a prerrogativa de organizar um amistoso anual. A CBF garante, porém, que participa da escolha do adversário.

 
 
 
 
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