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Edição 1971 . 30 de agosto de 2006

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Ciência
Fim da polêmica

Pesquisadores americanos criam cultura
de células-tronco sem destruir o embrião


Ruth Costas


Fabiano Accorsi
Manipulação de células-tronco no Centro do Genoma Humano da USP: esperança

A pesquisa com células-tronco embrionárias é uma dessas áreas da ciência em que os métodos têm de se adaptar aos dogmas. Os cientistas defendem que as células-tronco, capazes de formar diferentes tecidos do corpo, podem levar, no futuro, à cura de doenças como o mal de Alzheimer e o diabetes tipo 1. Os críticos argumentam que o método usado nesses estudos, que passa pela destruição de embriões humanos, é um atentado contra a vida. Na semana passada, a Advanced Cell Technology, uma empresa de biotecnologia dos Estados Unidos com sede na Califórnia, anunciou ter descoberto uma maneira de desenvolver células-tronco embrionárias sem destruir o embrião que lhes deu origem. Se for confirmada sua eficiência, o novo método vai tirar do caminho o principal argumento do lobby conservador que tenta atravancar o progresso científico nos Estados Unidos, na Europa e até no Brasil. A técnica consiste em fazer uma biópsia, retirando uma única célula de um embrião de dois dias. Nesse estágio, ele normalmente não passa de um aglomerado de oito células. Pelo método antigo, o material que dá origem à linhagem de células-tronco é retirado do interior de embriões mais desenvolvidos, com cinco dias. Nessa fase, o embrião não resiste à retirada de células de seu centro.

A experiência já havia sido feita com ratos no ano passado, mas é a primeira vez que dá certo com células humanas. "A questão é que, até hoje, ninguém havia conseguido criar culturas de células-tronco a partir de uma única célula retirada de um embrião humano em início de desenvolvimento – e esse é o grande mérito da nova técnica", diz Mayana Zatz, coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano da Universidade de São Paulo. Na pesquisa divulgada na semana passada, apenas duas entre 91 células retiradas de embriões de dois dias geraram linhagens de células-tronco. Trata-se de um índice de aproveitamento baixo, mas os cientistas dizem ser possível melhorar. A biópsia em embriões de 2 dias não é uma novidade em si. A técnica vem sendo utilizada há dez anos por casais que fazem fertilização in vitro e querem saber se seu filho terá doenças como hemofilia. As análises genéticas são feitas na célula isolada enquanto o embrião continua a se desenvolver normalmente. Confrontados com esses fatos, os representantes do lobby cristão – responsáveis por convencer o presidente George W. Bush a vetar, em julho, um projeto de lei que facilitava a pesquisa com células-tronco – saíram-se com um novo argumento: o de que qualquer manipulação de embriões humanos é um desrespeito à vida. Pelo jeito, de nada adianta uma lanterna para quem não quer abrir os olhos.

 

 
 
 
 
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