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Brasil
O nebuloso Newtão
Declaração de bens do político
mineiro
lança mais dúvidas sobre seu patrimônio

José Edward
Celso Junior/AE
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André Fossati/Ag. 1º Plano
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| Newton Cardoso, ao lado de Lula,
e a sua fazenda Veredão: casa, terras e pista para aviões
declaradas pelo preço de um carro |
A
fortuna do ex-governador de Minas Gerais Newton Cardoso sempre foi
um assunto nebuloso. No início do mês, ele acrescentou
mais mistério ao seu patrimônio. Candidato ao Senado
pelo PMDB, Newtão, como é conhecido, informou ao Tribunal
Regional Eleitoral que seus bens somam 11 milhões de reais.
Dias depois, comprou o controle da indústria de sucos Goody.
O faturamento e o valor dos empréstimos contraídos
pela empresa levaram os analistas a estimar o valor da transação
em 12 milhões de reais. É mais do que Newtão
declarou à Justiça. Seu advogado, Luiz Gustavo Oliveira,
explica que a Goody não foi incluída na lista entregue
ao tribunal porque o negócio não havia sido concluído.
O advogado encontrou dificuldade, porém, em esclarecer de
onde saiu o dinheiro usado por Newtão para comprar a fábrica,
já que ele não consta de sua declaração.
Deu duas explicações contraditórias. Primeiro,
afirmou que a compra não envolveu dinheiro, porque a companhia
estava muito endividada. Depois, corrigiu-se e disse que uma das
empresas do candidato desembolsou 6 milhões de reais.
A controvérsia sobre o patrimônio
de Newtão o acompanha há quase quarenta anos, desde
quando ele ingressou na política. No período em que
foi governador, no fim dos anos 80, as denúncias de corrupção
lhe renderam dois processos de impeachment. Em suas campanhas seguintes,
as dúvidas sobre sua evolução patrimonial ressurgiram.
Desta vez, os pontos obscuros já aparecem. Por exemplo, Newtão
informou que tem duas fazendas. Uma delas é a Veredão,
onde está a pista de pouso que ilustra esta reportagem. Ele
a declarou por meros 30.000 reais o preço de um carro
médio. Mas uma avaliação menos modesta, e mais
compatível com o mercado, dá conta de que a Veredão
valha 3 milhões de reais.
Na lista, Newtão declarou ainda suas
ações da NC Participações por 5,5 milhões
de reais. A NC é dona de uma empresa chamada Rio Rancho,
em nome da qual estão registradas 25 fazendas. Apenas seis
delas valem 17 milhões de reais. De novo, é bem mais
do que ele atribuiu à NC e do que informou à Justiça.
No documento entregue à Justiça, Newtão nem
sequer cita a mineradora Magnesita. Há cinco anos, a Ovante
Trading, sediada no paraíso fiscal da Ilha da Madeira, adquiriu
30% da mineradora. Hoje, essas ações valem 60 milhões
de reais. Newtão é diretor da Magnesita. Seu advogado
explica que ele chegou ao cargo porque se tornou procurador da Ovante.
"Escolheram Newton porque ele tem preciosos contatos internacionais",
diz. Por essa versão, corrigiu-se uma injustiça histórica.
Até hoje, pensava-se que Newtão era um monoglota funcional,
incapaz de pedir uma Coca-Cola numa lanchonete americana. Pois agora
ele faz até "preciosos contatos internacionais". Preciosos,
mesmo. Seus contatos nacionais também se valorizaram. Hoje,
ele sobe no palanque de mãos dadas com o presidente Luiz
Inácio Lula da Silva e participa da chapa do candidato petista
a governador, Nilmário Miranda. No passado, o mesmo Miranda
defendia o impeachment do peemedebista e afirmava: "O senhor Newton
Cardoso deve procurar aliar-se a seus semelhantes na corrupção".
Pois bem, o eleitorado tem todo o direito de concluir que Newtão
não apenas procurou como achou seus semelhantes.
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