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Brasil
A alucinação de Botucatu
A história do extraordinário fenômeno
psicossocial que afeta a cidade paulista

Victor Martino
Antonio Milena
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| Foto aérea da fazenda Chalet: em destaque,
a quadra de basquete, esporte favorito de Fleury |
Vez
por outra, cidades brasileiras são acometidas por alucinações
coletivas. Em 1996, parte da população de Varginha,
no sul de Minas Gerais, afirmou ter visto um ET. Pouco depois, os
habitantes de São Roque, próxima a São Paulo,
apelidaram de chupa-cabra uma estranha criatura acusada de sugar
o sangue de animais. Assim como vieram, tais ilusões sumiram
rapidamente. Mas há uma alucinação que persiste
há mais de dez anos em Botucatu, no interior paulista. Grande
parte dos seus cidadãos atribui ao deputado Luiz Antonio
Fleury Filho, ex-governador do estado pelo PMDB e hoje no PTB, a
posse de sete fazendas no município. A alucinação
se estende a detalhes incríveis: todas as propriedades teriam
sido adquiridas por testas-de-ferro enquanto o atual deputado ocupava
o Palácio dos Bandeirantes. Um dos responsáveis pela
disseminação da história é o presidente
da Câmara de Vereadores da cidade, Luiz Rubio, do PT. "Além
dessas fazendas, já disseram que sou dono de um hotel em
Miami, de uma propriedade em Avaré e outras coisas mais.
É tudo mentira", diz Fleury, que teme que a ilusão
coletiva de Botucatu prejudique sua reeleição.
Celso Junior/AE
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| Fleury: "É difícil convencer as pessoas de
que a história não tem fundamento" |
O deputado está tão habituado a responder a perguntas
sobre esse fenômeno psicossocial que passou a levar consigo
certidões de cartório para provar que não tem
imóveis em Botucatu. Até agora, porém, o papelório
não foi capaz de convencer a população local
de que ele nada tem a ver com as propriedades registradas em nome
do empresário Luiz Eduardo Batalha. Batalha, um dos principais
criadores de gado do país, participou da campanha de Fleury
ao governo de São Paulo, em 1990. Sua função
era apresentar o candidato ao empresariado. Até a vitória
de Fleury naquela eleição, Batalha morava num apartamento
de classe média no Paraíso. Imediatamente depois que
o amigão triunfou nas urnas, ele comprou um belo dúplex
no bairro dos Jardins, para onde se mudou. Coincidências da
vida, claro.
De acordo com os relatos das pessoas afetadas
pela alucinação, logo após ser eleito governador,
Fleury teria enviado Batalha à cidade para comprar-lhe terras.
Três ex-funcionários da Fazenda Chalet, uma das propriedades
adquiridas por Batalha, contam que Fleury visitava o local com freqüência.
Por isso, o empresário teria mandado construir perto da casa-grande
uma quadra de basquete, o esporte predileto de Fleury (a
quadra não é alucinação, está
no destaque da foto) Segundo esses ex-funcionários,
Fleury parou de ir à Chalet ao deixar o governo estadual.
Ele diz que foi à fazenda uma só vez, e antes de assumir
o governo. Batalha confirma sua versão. "Estou na agropecuária
há trinta anos. Meu sucesso se deve ao trabalho, não
à amizade dele", desabafa.
Ayrton Vignola/Folha Imagem
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| Batalha: "Apenas bons amigos" |
Fleury está cansado de ser vítima de um delírio
psicossocial tão extraordinário. Ele diz que adoraria
ser sócio de Batalha, pois, se isso fosse verdade, seu patrimônio
teria crescido espetacularmente nos últimos anos. Em vez
disso, encolheu. Em 1990, Fleury declarou à Justiça
ter 2,3 milhões de reais, em valores atualizados. Hoje, seus
bens somariam apenas 1 milhão de reais um exemplo
raro de político brasileiro que perdeu dinheiro servindo
ao bem público. Botucatu, no entanto, não acredita
nas suas provas. "Quando um grupo de pessoas adota firmemente uma
crença, ninguém consegue persuadi-las do contrário",
explica o psicanalista José Renato Avzaradel. Fleury concorda
e lamenta: "Realmente, não há nada mais difícil
do que convencer as pessoas de que uma história dessas não
tem fundamento".
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