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Eleições 2006
Cadê a campanha?
Pesquisa exclusiva do Ibope mostra
que o Brasil está vivendo a corrida eleitoral
mais desanimada dos últimos tempos

Lucila Soares e Ronaldo Soares
Ricardo Stuckert/PR
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| Lula em ação: o presidente descolou sua imagem
do PT e se deu bem |
A esta altura do ano, em 2002,
a corrida eleitoral era o grande assunto em qualquer roda. Luiz
Inácio Lula da Silva liderava as pesquisas e José
Serra ainda disputava com Ciro Gomes a vaga no segundo turno. O
mercado financeiro vivia dias agitados, que culminariam com o dólar
batendo 4 reais e o risco Brasil ultrapassando a marca dos 2.000
pontos às vésperas do segundo turno. Nas eleições
anteriores não foi diferente. A um mês da votação,
havia campanha, disputa, discussão. Agora, a situação
é bem diversa. Um estrangeiro desavisado que desembarcasse
no Brasil na semana passada dificilmente perceberia a proximidade
de uma eleição presidencial. Poderia ser apenas resultado
de uma determinação legal estão proibidos
outdoors, camisetas, brindes, showmícios, enfim, toda a parafernália
festiva que marcou as eleições desde a redemocratização
do país, nos anos 80. Mas é bem mais do que isso.
Pesquisa exclusiva feita para VEJA pelo Ibope, na semana passada,
mostra que as restrições à festa democrática
apenas tornam mais evidente a apatia que reina nesta eleição
(veja quadro).
O Ibope ouviu, por telefone, 2.000 entrevistados em todo o Brasil.
A grande maioria 68% afirma estar "mais ou menos",
"pouco" ou "nada" interessada na eleição.
Orlando Brito/divulgação
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| Alckmin em ritmo de monge: a candidatura não
polariza e não empolga |
Mais impressionante ainda é
a constatação pelo Ibope de que, se não fossem
obrigados a votar, seis em cada dez eleitores deixariam de comparecer
às urnas em 1º de outubro, número que confirma
uma tendência que já se esboçava nas eleições
municipais de 2000, quando esse porcentual era de 51%. O eleitor
percebe esta eleição como menos animada que as anteriores
(53%), e 52% apontam como principal motivo para seu pouco interesse
as denúncias de corrupção um dado que
corrobora pesquisa anterior do próprio Ibope, sobre a credibilidade
de instituições e categorias profissionais. As piores
avaliações recaem justamente sobre os partidos e os
políticos. Embora ambos sejam, de longa data, alvo da desconfiança
da população, a situação se deteriorou
muito. Em 1989, quando começou a série, 81% dos eleitores
diziam não confiar nos políticos. Na última
pesquisa, realizada neste mês, o porcentual ficou em 90%.
A decepção com a
classe política também está por trás
de uma apatia específica. O envolvimento dos principais dirigentes
do PT nas denúncias de corrupção foi um golpe
na militância do partido. "Quem sempre animou as eleições
foi o PT, com os militantes nas ruas, os comícios. Isso acabou",
avalia Carlos Augusto Montenegro, presidente do Ibope. Acabou também
o engajamento em massa de artistas nas campanhas, como ficou demonstrado
na reunião promovida na semana passada pelo ministro Gilberto
Gil, em sua casa no Rio de Janeiro. Poucas estrelas, nenhuma empolgação.
Do lado do PSDB acontece o mesmo. Regina Duarte, que encarnou na
TV o medo da vitória de Lula, e Elba Ramalho, que também
participou do programa de José Serra, evitam se manifestar.
Alex Silva/AE
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Diário do
Nordeste
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| José Serra (no alto), Lúcio Alcântara
(acima) e Aécio Neves (abaixo): governadores pouco
podem fazer para alavancar Geraldo Alckmin |
Sidney Lopes/Estado
de Minas/AE
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O favoritismo absoluto dos líderes
das pesquisas nos principais colégios eleitorais também
contribui para esfriar a campanha. Em vinte dos 27 estados a eleição
deverá ser decidida em primeiro turno, sendo que em dezenove
deles o governador concorre à reeleição. Em
Minas Gerais, Aécio Neves tem 76% das intenções
de voto, segundo a última pesquisa do Datafolha. "É
uma situação em que não há disputa,
portanto muito dificilmente existe paixão", afirma a cientista
política Lúcia Hippolito. A essa situação
se soma uma diferença importante da campanha em relação
às anteriores. O eleitor mal consegue distinguir candidatos
e partidos. Lula deixou de ser PT, ainda que o PT faça de
tudo para associar-se a Lula. Geraldo Alckmin é PSDB, mas
o PSDB não faz questão de associar-se ao candidato
tucano aliás, em muitos casos, tenta claramente desvencilhar-se
dele.
As campanhas presidenciais de
Lula sempre foram marcadas pelo uso de símbolos do PT, como
a estrela, a cor vermelha e o número 13. Agora, candidato
à reeleição e com o maior índice de
popularidade de sua carreira política, Lula esconde os símbolos
petistas e os antigos companheiros de partido. E usa as cores da
bandeira do Brasil em vez do vermelho. Nas propagandas de TV da
campanha presidencial, não há referência ao
partido. Nos palanques montados nos estados, Lula se divide entre
candidatos petistas e de outros partidos. Caso do Rio de Janeiro,
onde se equilibra nas campanhas do petista Vladimir Palmeira e do
senador Marcelo Crivella, do PRB, que se licenciou do cargo de bispo
da Igreja Universal do Reino de Deus mas continua, evidentemente,
tendo no rebanho evangélico seu maior trunfo. "O escândalo
do mensalão destruiu o PT, mas não colou no Lula.
Por isso ele cortou o PT de sua campanha. É uma questão
de sobrevivência", analisa o cientista político Octaciano
Nogueira, da Universidade de Brasília (UnB).
Alex Silva/AE
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| Candidatos debatem na Band: faltam as tiradas
e polêmicas dos velhos tempos |
Se Lula procura afastar-se do
PT, o partido faz o caminho contrário. Isso é explicado
pelos números. Lula sempre foi maior do que o PT. Mas, nesta
eleição, a superioridade é muito mais gritante.
De acordo com a última pesquisa do Datafolha, o presidente
tem 56% dos votos válidos. Em 2002, ele teve 46,4% dos votos
no primeiro turno. Já os dezoito candidatos do PT a governador
têm, em média, 16,9% dos votos. Em 2002, os 24 candidatos
do PT a governador tiveram 28,4% dos votos, em média. Assim,
é natural que o partido, nos estados, tente se aproveitar
da imagem do presidente. Aliás, não só o PT
tem agido assim. O tucano Lúcio Alcântara, candidato
ao governo do Ceará, e o pefelista Mendonça Filho,
de Pernambuco, já utilizaram a imagem do presidente em suas
campanhas de TV. Sinal claro de que não há diferença
ideológica ou partidária na disputa, o que contribui
para o marasmo na campanha. Afirma o deputado federal Paulo Delgado,
do PT de Minas Gerais: "É a eleição mais individualista
da história do Brasil. O eleitor está escolhendo os
políticos de maior visibilidade sem debate. Isso torna a
campanha morna".
Para tornar ainda mais fluidas
as diferenças que poderiam esquentar a corrida eleitoral,
a candidatura de Geraldo Alckmin está sendo ostensivamente
abandonada pelo PSDB. VEJA fez um levantamento da campanha para
governador em todos os estados. Alckmin, na teoria, teria trinta
palanques eletrônicos, cedidos pelos candidatos que formalmente
o apóiam. Na prática, porém, ele conta com
apenas onze desses palanques. Nos outros dezenove, não há
sequer a preocupação em exibir na propaganda do horário
eleitoral gratuito uma legenda "Alckmin presidente". Entre eles,
estão alguns dos principais puxadores de voto da coligação
PSDB-PFL, como o paulista José Serra e o baiano Paulo Souto.
Outros aliados teóricos vão além e trabalham
contra o candidato. Caso de Amazonino Mendes, do PFL, líder
nas pesquisas para o governo do Amazonas, que espalha pelo estado
que Alckmin é contra a Zona Franca de Manaus e que a extinguiria
se fosse eleito presidente. "Não dá para cobrar de
um candidato a governador que coloque sua máquina a serviço
do Alckmin se ele vai acabar perdendo voto com esse apoio", admite
um dos coordenadores da campanha presidencial tucana.
Ana Araujo
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| Valdemar Costa Neto: registro negado pelo
TRE |
A calmaria eleitoral é determinada ainda por outro fator.
Ao contrário dos demais, ele é muito positivo. Pela
primeira vez desde 1989, quando se realizou a primeira eleição
direta para presidente em 29 anos, a campanha se passa em um ambiente
de estabilidade. O Brasil domou a inflação e enfrentou
todas as crises políticas inclusive um impeachment
presidencial dentro da mais absoluta normalidade democrática.
É um amadurecimento institucional inegável. Diferentemente
do que acontecia nas eleições anteriores, a economia
não está em risco. Não há uma hiperinflação
em curso, como em 1989, nem o desafio de levar à frente um
ambicioso programa de estabilização da economia, como
em 1994, com o Plano Real. Tampouco há pressão externa,
como a crise financeira internacional de 1998. Principalmente, não
existe o medo de que a vitória de qualquer candidato signifique
mudança nas regras do jogo, calotes, medidas heterodoxas
ou rompimento com a comunidade internacional. Nos últimos
quatro anos, a inflação permaneceu sob controle, os
juros recuaram ao nível mais baixo dos últimos dez
anos, o salário mínimo é o mais alto desde
1986. "Sob o regime democrático, nunca houve sucessão
presidencial em ambiente econômico tão favorável
ao presidente", diz o cientista político Murillo de Aragão,
da consultoria Arko Advice. Essa situação é
determinante para um comportamento pragmático do eleitor,
que está disposto a referendar o que vê de positivo
e não enxerga nos candidatos da oposição sequer
o canal para protestar contra a corrupção, o clientelismo
e outras graves mazelas do governo Lula.
O principal sinal que se pode
perceber nesta eleição é o da necessidade imperiosa
de levar à frente a reforma política. A extensão,
a profundidade e a maneira de fazer isso ainda dividem opiniões.
Mas ninguém mais tem dúvida de que é preciso
mudar. Lúcia Hippolito centra as prioridades em três
pontos: fidelidade partidária, fim do voto secreto nos processos
de cassação e cálculo do tempo de rádio
e TV dos partidos tendo como base a bancada do dia da eleição,
e não a do dia da posse. Assim se evitaria o indecente troca-troca
de legendas que infla os partidos da base governista e burla a vontade
do eleitor. Carlos Augusto Montenegro acrescenta a esses pontos
o fim da reeleição, o voto facultativo, a fidelidade
partidária e o financiamento público de campanha.
E defende mudanças também no horário eleitoral
gratuito. "A impressão que dá é que ainda é
um resquício da ditadura", afirma.
De fato, parece haver um esforço
para tornar todo o processo eleitoral árido e pesado. Em
relação aos programas de TV, ainda há a justificativa
de tentar evitar o abuso de poder econômico. O problema é
que, de tão chatos, os programas acabam sendo vistos por
cada vez menos gente. Ao entrar no ar, o horário eleitoral
gratuito provocou a debandada de 3 milhões de espectadores.
Em 2002, os desertores foram 2,4 milhões. Mas, quanto aos
debates, em que pese a saudável preocupação
das emissoras em manter a discussão em bom nível,
é inegável que o resultado é entediante
isso quando os debatedores comparecem, pois agora virou praxe os
líderes nas pesquisas desprezarem esse tipo de confronto,
a pedido de seus marqueteiros. Era bem mais apaixonante (e divertido)
quando se podia ver Boris Casoy deixando Fernando Henrique Cardoso
sem ação diante da pergunta sobre suas convicções
religiosas e FH alegar ao vivo que Casoy prometera não
tocar nesse assunto. Ou Leonel Brizola e Paulo Maluf se acusando
mutuamente de "filhote da ditadura" e "desequilibrado". Ou Fernando
Collor afirmar, na cara-dura, que não tinha dinheiro para
comprar um aparelho de som igual ao de Lula. É verdade que
entre os candidatos de hoje não há ninguém
com verve semelhante à desses personagens. Ainda assim, todos
se beneficiariam de regras mais flexíveis.
Na semana passada, houve duas
demonstrações de que talvez as coisas não estejam
totalmente perdidas no campo político. No Senado, o Conselho
de Ética tratou de barrar uma tentativa do presidente da
casa, Renan Calheiros (PMDB-AL), de protelar para depois das eleições
a abertura do processo de cassação contra três
senadores suspeitos de ligação com a máfia
das ambulâncias. Outro exemplo veio do Rio de Janeiro, onde
a Justiça Eleitoral indeferiu os registros de candidatura
à reeleição de quatro deputados federais envolvidos
no escândalo das ambulâncias, por considerar que eles
não têm o "perfil moral que se deve exigir" de um candidato.
Outro caso que chamou atenção foi o do ex-deputado
Eurico Miranda (PP-RJ), que teve o registro negado pelo conjunto
da obra responde a sete crimes nas cortes federal e estadual.
Em São Paulo, o TRE indeferiu 425 dos 2.970 registros de
candidaturas, um porcentual histórico (14,25%), superando
o das eleições de 2002 (9,56%) e 1998 (10,38%). Entre
eles estão o do ex-deputado Valdemar Costa Neto (PL) e o
do deputado João Paulo Cunha (PT), que não apresentou
documentos de quitação de uma dívida da campanha
de 2002. Em todos os casos, cabe recurso ao Tribunal Superior Eleitoral.
Também na semana passada foi apresentada a lista de 27 parlamentares
que, a pedido da Procuradoria-Geral da República, serão
investigados no Supremo Tribunal Federal por suspeita de ligação
com a máfia dos sanguessugas. Com isso, subiu para 84 o número
de congressistas que respondem a inquérito no STF pelo mesmo
motivo. São medidas que podem contribuir para reconquistar
a confiança do eleitor e reverter o quadro de apatia em eleições
futuras. O Brasil só tem a ganhar com elas.
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A MORTE DOS COMÍCIOS
Ari Lago
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| Comício do PT em 1989, com lotação
máxima: imagem do passado |
Os comícios
começaram a se popularizar no Brasil durante
os anos 40 do século passado, chegaram a reunir
grandes multidões em torno de um palanque e já
foram o principal meio pelo qual um candidato falava
ao eleitor. A atual campanha presidencial, no entanto,
está mostrando que os comícios estão
à beira da morte. Até agora, os dois principais
candidatos ao Palácio do Planalto realizaram
apenas 22 comícios, número inexpressivo
se comparado ao registrado em campanhas anteriores,
em que os candidatos faziam até mais de um por
dia. Além de poucos, eles têm sido um fracasso
de público. O maior comício realizado
pelo tucano Geraldo Alckmin nesta campanha aconteceu
em Taguatinga, uma cidade-satélite de Brasília,
e reuniu apenas 30 000 pessoas. No caso do presidente
Lula, foi ainda pior. Seu comício mais concorrido
atraiu apenas 20 000 pessoas, em Diadema, na região
metropolitana de São Paulo. "O Brasil arcaico
era o Brasil dos comícios. Hoje, estamos na era
da ciberdemocracia, numa sociedade de massas cujo grande
instrumento de informação é a TV",
diz o cientista político Octaciano Nogueira,
da Universidade de Brasília (UnB).
Os comícios
já vinham definhando havia bastante tempo, mas,
nos últimos vinte anos, os políticos conseguiram
dar-lhes uma sobrevida enchendo seus palanques de artistas
e celebridades para atrair o público. Agora,
como a lei eleitoral deste ano proíbe a presença
de artistas nos palanques, os showmícios acabaram
e os comícios, reduzidos à sua
forma original, mostraram toda a sua inadequação
à modernidade. "Está claro que as pessoas
iam aos comícios para ver os artistas, e não
para ouvir os candidatos", diz Nogueira. No seu último
comício, realizado em Parnaíba, no interior
do Piauí, Alckmin reuniu apenas 5 000 pessoas.
O presidente Lula, em Varginha, no sul de Minas Gerais,
falou para menos de 8 000. Trata-se de um público
magro demais para mobilizar toda a estrutura de uma
campanha. "E comício não é barato.
Não sai por menos de 80 000 reais", diz Paulo
Ferreira, coordenador do comitê reeleitoral do
PT. Na eleição presidencial de 2002, Lula
fez 58 comícios e, num deles, chegou a reunir
150 000 pessoas contando com a ajuda, claro,
da dupla sertaneja Zezé Di Camargo & Luciano.
Desta vez, Lula, que adora fazer discurso e tem facilidade
para se comunicar com a massa, não fará
nem trinta comícios. Sinal dos tempos.
Julia Duailibi
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FECHARAM O
CONGRESSO
Se 100 picaretas se
elegerem, o próximo Parlamento
será pior que o atual. Isso pode levar o presidente
a
tentar canais diretos com o povo, o que é um
risco
Oscar Cabral
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| Miro Teixeira, 35 anos de Congresso:
"Há uma violação constitucional em curso" |
O deputado federal Miro Teixeira, 61 anos, tem um vício
de origem em sua carreira política. Advogado
por formação e jornalista no início
da vida, ele tem marcado seus mandatos pela luta para
organizar a atividade parlamentar. Não o faz
por mera implicância. Concluindo seu oitavo mandato
na Câmara dos Deputados, Miro acredita que, se
não obtiver êxito em barrar os criminosos
no Congresso, a democracia pode sofrer as conseqüências.
"Estou otimista com o Brasil, que está conseguindo
combater a corrupção. Mas, se não
prestarmos atenção, a democracia correrá
perigo", afirma. Com a propriedade conferida por 35
anos de atividade parlamentar, ele dá nesta entrevista
ao repórter Ronaldo França sua visão
da situação atual da política brasileira.
QUAL É
A SUA AVALIAÇÃO DESTE MOMENTO PELO QUAL
PASSA O CONGRESSO NACIONAL?
Na prática, o Congresso está fechado.
Não há sessão, e as sessões
têm de acontecer, ainda que não sejam deliberativas.
Coisas anormais começam a acontecer com um caráter
de normalidade, e fica tudo por isso mesmo. Estamos
vivendo uma crise muito estranha. Há uma violação
constitucional em curso e ninguém fala nada.
A Lei de Diretrizes Orçamentárias não
foi votada e as atividades do Congresso estão
interrompidas. Isso é proibido pela Constituição.
Não há eleição ou CPI que
justifique o recesso branco que estamos fazendo. Tivemos
uma sucessão de presidentes ruins na Câmara.
Teve o João Paulo (Cunha), o Severino
Cavalcanti e o Aldo Rebelo. Os próximos presidentes
têm de ter independência.
FALA-SE MUITO
QUE O CONGRESSO NACIONAL SE TORNOU UM GRANDE BALCÃO
DE NEGÓCIOS. QUAL É A SENSAÇÃO
QUE SE TEM QUANDO SE ESTA LÁ DENTRO?
O Congresso como um todo não é um
balcão de negócios. Mas lá funcionam
balcões de negócios. O poder público
brasileiro funciona com balcões de negócios.
A organização administrativa brasileira
deforma os partidos políticos. Tem-se a oportunidade
de entregar um ministério a um partido político
com plenos poderes para gastar e ocupar cargos. Então
o partido vai atrás de um ministério não
para realizar políticas públicas. Ele
quer um ministério pelo orçamento que
dominará e pelo número de cargos que é
capaz de preencher. O partido que procede dessa maneira
se torna um negócio. Administra diretamente uma
parte do PIB e ganha capacidade de influir num naco
muito maior dele. Estamos cometendo uma loucura, como
se fosse uma normalidade, mantendo esse tipo de acordo.
O PRESIDENTE LULA
PODERIA TER AGIDO DE OUTRA FORMA NA COMPOSIÇÃO
DE SUA BASE, EM VEZ DE ENTREGAR OS MINISTÉRIOS
À BARGANHA PARTIDÁRIA?
Ele teve estímulos para optar por um caminho
diferente. Por exemplo, o do (ex-ministro Antonio)
Palocci, que em janeiro de 2003 defendia que se
fizesse uma aliança com o PSDB. Em uma reunião,
começou-se a defender os métodos tradicionais
de formação de maioria parlamentar, através
de orçamento e liberação de emendas.
Não era uma proposta de fazer alianças
políticas publicamente anunciadas em torno de
projetos e de ganhar maioria com o apoio da opinião
pública. A cabeça era mais ou menos essa,
de que com aqueles 300 picaretas não haveria
jeito. E o Palocci queria o caminho da aliança
com o PSDB. No momento em que o (então ministro-chefe
da Casa Civil) José Dirceu disse que isso
era assim mesmo, que maioria se faz com orçamento,
com emendas, eu disse: "Vai dar errado". Ele insistiu.
Eu me tornei dispensável naquela reunião
e me retirei da sala.
O QUE O SENHOR
ACHOU DA PROPOSTA DO PRESIDENTE DE UMA CONSTITUINTE
PARA FAZER A REFORMA POLÍTICA?
Não se pode fazer a reforma política
por uma Constituinte restrita. O presidente, ao dizer
isso, talvez esteja revelando a sua percepção
do que poderá acontecer no próximo ano.
Se os 100 criminosos se elegerem, o próximo Congresso
será pior que o atual. Um Congresso enfraquecido,
emasculado, desqualificado, pode levar o presidente
da República a, mesmo que no interesse público,
estabelecer outros canais diretos com o povo. Isso pode
levar a mecanismos plebiscitários que são
um risco para o país. Ou a um entendimento direto
com centrais sindicais sobre alguns temas, e nós
todos vamos aplaudir porque o Congresso estará
desqualificado.
O PLEBISCITO NÃO
É UMA FORMA LEGÍTIMA DE CONSULTA DIRETA?
Sem dúvida, mas não pode haver substituição
do Parlamento por mecanismos plebiscitários.
Você imagina o que acontecerá se o presidente
da República, com 55 milhões de votos,
convocar um plebiscito dois ou três meses depois
da sua posse?
O PRESIDENTE FALOU
ABERTAMENTE EM PLEBISCITOS...
Ao defender isso ele parece estar antecipando sua preocupação
com o segundo mandato. Lula já está eleito.
Acho positivo que ele fale coisas assim antes da eleição.
Porque dá para pensar no assunto, e quem tem
acesso a ele pode conversar, aconselhá-lo, mostrar
que não vai dar certo. O plebiscito não
é instrumento para resolver questões essenciais
como a reforma política. O Poder Legislativo
tem de ter atitudes que impeçam que uma medida
como essa se torne justificável aos olhos da
opinião pública. E isso acontecerá
se o Congresso estiver enfraquecido. O presidente não
vai deixar de atingir os objetivos de governo e de Estado,
mesmo que tenha de atropelar prerrogativas do Congresso.
Tivemos agora um exemplo concreto desse modo de agir.
Ninguém, em tese, é contra aumento para
os aposentados. O governo fez isso por medida provisória
e depois a reeditou para mudar o porcentual. A reedição
de MPs é proibida pela Constituição
Federal. Como o tema é delicadíssimo,
ele bancou e todo mundo noticiou com naturalidade, porque
o mérito parece justo. Mas fere o princípio
constitucional. Depois, quando se fizer isso novamente
por algum motivo menos nobre, não poderemos reclamar,
pois o princípio já foi violado.
POR QUE É
TÃO DIFÍCIL ACABAR COM AS TRAMÓIAS
NA COMISSÃO DE ORÇAMENTO?
As práticas não são boas.
Antes da sessão de abertura da Comissão
de Orçamento, no início do ano, os parlamentares
assinam o livro de presença, mas aquela sessão
não é encerrada. Fica apenas suspensa.
Então aquelas assinaturas do dia da instalação
ficam valendo para todas as demais sessões do
ano. Com isso ocorrem reuniões de quinze parlamentares
deliberando emendas na comissão, o que é
absurdo. Há reuniões que começam
às 10, às 11, na calada da noite, em que
falta quórum para decidir, mas no livro estão
as assinaturas que legitimam aquelas decisões.
O QUE MAIS O SENHOR
IMAGINA QUE SERÁ NECESSÁRIO PARA REERGUER
A IMAGEM DO CONGRESSO NACIONAL?
Depois de eleger o presidente da República,
deputados e senadores, o Brasil terá de dar uma
atenção maior às eleições
para as presidências do Senado e da Câmara.
Tenho a impressão de que nas duas Casas haverá
movimentos para eleger presidentes independentes. Caso
contrário, com um Congresso esquálido,
o presidente da República, qualquer presidente,
vai imaginar novas interpretações para
medidas provisórias quando estiver diante da
necessidade de tomar algumas medidas essenciais. Temo
que haja um fortalecimento exagerado das atribuições
do presidente da República. E uma certeza você
pode ter. Para mim, a vida pública é impessoal.
Não há admiração ou carinho
pelo presidente, seja ele quem for, que me faça
compactuar com o desequilíbrio da democracia.
Se houver qualquer tentativa de ultrapassar os poderes
do Congresso Nacional, eu estarei do outro lado.
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Com reportagem de
Otávio Cabral, de Brasília,
e Marcelo Bortoloti, do Rio de Janeiro
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