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VÍDEO
Divulgação
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General: crônica
bem-humorada |
O General (The General,
Irlanda, 1998. Filmark) O gângster irlandês Martin
Cahill era um gênio da insolência: cada vez que cometia
um de seus grandes roubos, corria para a delegacia. Por uma razão
simples: como é difícil determinar o horário
exato de um crime, os próprios policiais viam-se levados
a fornecer um álibi a ele. Cahill, que foi assassinado
em 1994, depois de desavenças com os terroristas do IRA,
é o tema do mais recente filme do inglês John Boorman.
Diretor de obras marcantes como Amargo
Pesadelo e Excalibur,
Boorman faz aqui um misto de crônica e sátira. Ao
mesmo tempo em que retrata fielmente a trajetória de Cahill
(vivido pelo ótimo Brendan Gleeson), extrai humor dos lances
audaciosos do bandido e de seus inusitados cacoetes, como a mania
de cobrir o rosto com as mãos. O outro destaque do elenco
é Jon Voight, que interpreta o eternamente ludibriado chefe
de polícia. Inédito nos cinemas brasileiros, o filme
está sendo lançado em cópia colorida, e não
no preto-e-branco original.
LIVROS
Casei
com um Comunista, de Philip
Roth (tradução de Rubens Figueiredo; Companhia das
Letras; 421 páginas; 34,50 reais) O americano Philip
Roth é um escritor em guerra com seu país. Seus
romances mais recentes formam uma trilogia sobre as convulsões
sociais das últimas décadas, que teriam transformado
os Estados Unidos numa nação neurótica e
vulgar. Este é o segundo volume da trilogia (os outros
são Pastoral Americana
e A Mancha Humana,
ainda não traduzido no Brasil). Conta a história
de Ira Ringold, artista que tem sua vida destruída nos
anos 50, quando políticos macarthistas caçaram implacavelmente
os esquerdistas do país. Com humor raivoso, Roth faz uma
obra de mestre
A
Noite em Questão, de
Tobias Wolff (tradução de Aulyde Soares Rodrigues;
Rocco; 199 páginas; 24 reais) A matéria-prima
dos contos do americano Tobias Wolff é difícil de
manejar. Ele fala de gente obscura, às voltas com dramas
banais. Autores menos talentosos cairiam facilmente no sentimentalismo
ou, ao contrário, tratariam seus personagens como "burgueses
ridículos". Wolff evita tais erros. Tem um domínio
perfeito sobre o tom irônico da narrativa. Observe, por
exemplo, o primeiro texto desta coletânea, Mortais,
no qual um idoso tenta resumir sua vida nas linhas de um obituário
de jornal. Ou então Neve
Seca, em que um garoto parte para
um passeio com seu pai. Neles, Wolff mostra que sabe arrancar
leite de pedras.
DISCO
Live
at the Greek, Jimmy Page &
The Black Crowes (Roadrunner) Os fãs tiveram de aguardar
mais de vinte anos para ver este sonho realizado: finalmente,
Jimmy Page está lançando um disco à altura
de seu antigo grupo, o Led Zeppelin. Após o final da banda,
em 1980, o guitarrista inglês criou vários projetos,
tentou a carreira-solo e até se aliou novamente a seu ex-parceiro,
o cantor Robert Plant. Mas ele só reencontrou a inspiração
ao tocar com o quinteto americano Black Crowes, composto de tietes
confessos de seu estilo roqueiro. Este disco nasceu de uma série
de concertos que Page e seus novos companheiros fizeram no ano
passado. Inicialmente, foi lançado só para comercialização
via internet, no formato MP3. Mas o sucesso foi tanto que Live
at the Greek acabou chegando às
lojas como um CD comum. Eles recriam alguns dos principais clássicos
do Led Zeppelin, como Celebration
Day e Heartbreaker.
Incrivelmente, não ficam
devendo nada às versões originais. A melhor canção
é In My Time of Dying,
um blues épico (onze minutos) sobre a chegada da morte.
TELEVISÃO
Anna
Magnani (quinta-feira no Telecine
5) Dotada de enorme expressividade, a italiana Anna Magnani
(1908-1973) era capaz de trafegar, numa mesma cena, da face mais
dolorosa ao sorriso arrebatador. Seu talento impressionou diretores
como Roberto Rossellini e Federico Fellini e lhe abriu as portas
de Hollywood. Dois clássicos de sua fase americana, nos
anos 50, foram reunidos neste pequeno tributo. No drama romântico
A Rosa Tatuada
(20h), escrito por Tennessee Williams, ela encarna uma viúva
apaixonada por um caminhoneiro interpretado por Burt Lancaster.
A fita rendeu-lhe um Oscar. Em A
Fúria da Carne (22h), Anna
contracena com Anthony Quinn, numa trama em que pôde exibir
toda sua versatilidade.
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LITERATURA
BRASILEIRA
Capão
Pecado
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Ferréz
Labortexto
Editorial
172 páginas;
20 reais
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À
primeira vista, um livro como Capão
Pecado é único
na ficção nacional. Ele foi escrito por Ferréz,
um jovem de 24 anos, filho de cobrador de ônibus,
que em linguagem extremamente despojada, "antiliterária",
documenta o cotidiano da violentíssima freguesia
paulistana do Capão Redondo. Mas antes de sucumbir
àquela velha armadilha a de julgar um livro com
base nos encantos ou vícios do autor é
melhor fazer uma pausa. Será que o romance é
tão inédito assim?
A
resposta é não. Dentro da literatura brasileira,
pode-se encontrar uma vertente onde encaixar o texto com
facilidade. É a vertente do romance-reportagem, que
floresceu nas décadas de 60 e 70, cujos exemplos
mais notórios são Lúcio
Flávio, de José
Louzeiro, ou Liberdade Condicional,
de Sinval Medina. Numa época em que a censura era
pesada, a finalidade desses romances era "informar", mais
que deleitar; era trazer a público acontecimentos
que não chegavam aos jornais ou à televisão.
Os romancistas, além disso, optavam deliberadamente
por uma dicção popular. Como disse certa vez
José Louzeiro, o objetivo era escrever da maneira
mais simples possível, "quase à moda de uma
literatura de cordel urbana". Não é difícil
perceber que Capão
Pecado está muito
próximo disso. A mesma intenção de
protesto está por trás dele. O mesmo desejo
de furar o bloqueio do "sistema" e informar sobre uma realidade
perversa. E até o emprego do linguajar das ruas é
semelhante com as gírias atualizadas, é
claro, e a referência musical não mais no cordel,
mas no rap da periferia. Além dos romances-reportagem,
no entanto, há um segundo livro que poderia servir
de contraponto à leitura de Capão
Pecado: Cidade de Deus, do
carioca Paulo Lins. Lançado em 1997, o livro pinta
o cotidiano de uma das maiores favelas do Rio de Janeiro.
É
comparando Capão
Pecado a esses seus precursores
que se pode chegar a uma idéia mais clara daquilo
que ele representa em termos literários. E, infelizmente,
o resultado não é dos melhores. Trinta anos
depois do auge do romance-reportagem, a ressurreição
da fórmula é um anacronismo. A brutalidade
da periferia está no noticiário. Não
é preciso o artifício da ficção
para revelá-la. Comparado a Cidade
de Deus, o romance do paulista
também sai perdendo. Não apenas o painel social
tecido por Paulo Lins é mais complexo, como seu uso
de truques ficcionais se mostra mais efetivo. Capão
Pecado pode até ser
um grito autêntico de indignação. Literatura,
no entanto, não se pode dizer que é.
Carlos
Graieb
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