Ponto de vista

Esta semana
Sumário
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos

Colunas
Diogo Mainardi
Luiz Felipe de Alencastro
Gustavo Franco
Roberto Pompeu de Toledo

Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA on-line
Radar
Contexto
Holofote
Veja essa
Arc
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações
Para usar
VEJA Recomenda
Os mais vendidos

Arquivos VEJA
Para pesquisar nos arquivos da revista, digite uma ou mais palavras

Busca detalhada
Arquivo 1997-2000
Busca somente texto 96|97|98|99
Os mais vendidos
 

Luiz Felipe de Alencastro é historiador (lfa@workmail.com)

A lassidão do general Cardoso

"Não se pode aceitar que um ministro anuncie, mesmo por hipótese, o abandono das responsabilidades governamentais diante das injustiças sociais e do problema da criminalidade"

 
Ilustração Ale Setti

É ponto pacífico em qualquer roda de bar, estudo sociológico ou sessão do Congresso que a violência atingiu um grau insuportável. A notícia de que um comerciante brasileiro obteve asilo político nos Estados Unidos, depois de ser ameaçado por criminosos no seu bairro de São Paulo, humilha o país inteiro. Agora, há reconhecimento oficial americano de que o governo brasileiro está inapto para garantir a segurança de seus próprios cidadãos.

Por isso, não deveria causar espécie a declaração do general Alberto Cardoso, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência, a respeito da criminalidade. Alertando que a violência se generalizava, o general afirmou que "ou se ataca com vontade" problemas como o "das injustiças sociais" ou "se chega a um ponto em que é melhor desistir". A fala do general Cardoso, guiada pelo desejo de ver melhorar a situação social, comportava sugestões de ordem prática. Entre estas figurava a do planejamento familiar: "orientação de controle da natalidade entre famílias de baixa renda tem de ser prioridade", como completou o ministro, na palestra que proferiu há duas semanas no Rio de Janeiro para metalúrgicos da Força Sindical.

Aparentemente, o ministro parece ignorar uma das mais extraordinárias transformações demográficas ocorridas no mundo nas últimas décadas: a queda acelerada da natalidade no Brasil. De 1960 a 1996, a taxa de fecundidade brasileira (número médio de filhos que uma mulher tem em seu período reprodutivo) caiu de 6,3 para 2,3. Ou seja, nesse lapso de tempo a taxa de fecundidade reduziu-se em mais da metade. Ritmo mais rápido que o registrado em países como Índia, Bangladesh e Indonésia, os quais, ao contrário do Brasil, implementaram agressivos programas governamentais de planejamento familiar.

A ausência de políticas de planejamento familiar e o desleixo na área de saúde pública no Brasil geraram, aliás, sérias deficiências. O uso irregular de anticoncepcionais orais, o recurso ao aborto clandestino, a utilização abusiva da esterilização cirúrgica feminina (laqueadura tubária) ainda ameaçam a saúde de um contingente importante de mulheres, como pode ser constatado no site da Comissão de Cidadania e Reprodução (www.ccr.org.br).

Com pouca ou nenhuma assistência dos poderes públicos, a população brasileira engendrou nas últimas três décadas uma estabilidade nos níveis de crescimento demográfico, garantindo um trunfo importante para o desenvolvimento do país. Reduzir ainda mais a taxa de fecundidade é desnecessário, a menos que se queira pôr em jogo a reprodução demográfica da população brasileira. Nesse sentido, as declarações do general Cardoso parecem despropositadas. Ainda mais quando o ministro responsabiliza a natalidade das famílias pobres pelo desequilíbrio demográfico e social que ele julga estar na origem do aumento da criminalidade brasileira. A despeito da inépcia governamental e dos riscos a que foram submetidas as mulheres, a sociedade tomou a dianteira no processo de modernização social do país. Cabe agora ao governo fazer sua parte, estimulando a criação de empregos, melhorando as condições de saúde e o ensino público. O que não se pode aceitar é que um ministro anuncie, mesmo por hipótese, o abandono das responsabilidades governamentais. Diante das injustiças sociais e do problema da criminalidade, nenhum ministro pode dar azo à renúncia governamental, aventando a eventualidade de que se possa chegar a um ponto "em que é melhor desistir".

Sobretudo num governo em que o presidente da República – eleito e reeleito no primeiro turno, sem oposição organizada, com forte apoio no Congresso, nos centros econômicos internacionais e, quase sempre, na opinião pública nacional – dispôs, e dispõe ainda, de condições inéditas na História do país para levar a cabo os objetivos de progresso social inscritos em seu programa eleitoral.

Copyright 2000
Editora Abril S.A.
  VEJA on-line | Veja São Paulo | Veja Rio | Veja Recife | Guias Regionais
Edições Especiais | Site Olímpico | Especiais on-line
Arquivos | Downloads | Próxima VEJA | Fale conosco