Roberto
Pompeu de Toledo
Entre a seriedade
e a gandaia
Virou
uma tradição, no
Brasil,
o governo dividir-se entre uma
área séria e outra nem
tanto
O
fenômeno não é de hoje. Data pelo menos do regime
militar, talvez de antes. Os governos o federal principalmente,
mas também alguns estaduais , tão logo tomam
posse, tratam de dividir o território sob sua alçada
em duas partes: uma que será gerida com seriedade, e outra
nem tanto. Depende do governo a escalação de que ministério,
que autarquia ou que estatal será destinado à parte
da seriedade e qual não, mas, em geral, prevalece a regra
de que a parte séria (ou em princípio séria,
ou supostamente séria, para que desde logo não
se acate tão literalmente o qualificativo) deve obrigatoriamente
incluir a parte econômica. Quer dizer, o Ministério
da Fazenda, o do Planejamento e seus satélites. O comando
do setor é reservado para gente circunspecta, geralmente
"técnicos". Gente "responsável", numa palavra
e lá vão as aspas novamente, porque, tanto quanto
a "seriedade", a aludida "responsabilidade" merece desconto. Está
fora de questão que os cargos nesta área, ou ao menos
os cargos de topo, nesta área, sejam jogados no balcão
das barganhas políticas. Já a outra parte... A outra
parte é oferecida ao PTB.
Epa!
escapou. Não. É injusto identificar só
no PTB o apetite pelas franjas do poder oferecidas no mercado das
barganhas, mas o leitor compreenderá: na semana passada,
esse partido estava de novo no noticiário, pela enésima
vez, ameaçando romper com o governo, pleiteando, pedindo,
querendo... Daí ter subido com pressa à mente. Para
retomar o que vinha se dizendo, a outra parte é constituída
por ministérios, autarquias e estatais, ou pedaços
de ministérios, autarquias e estatais, que o governo destina
ao baixo mercado político. Não importa muito que,
ali, se aboletem pessoas de reputação duvidosa, ou
que por ali transitem, mais ou menos livremente, interesses particularistas
e propósitos escusos. É uma área que se pode
apelidar, com alguma licença, de "reserva da gandaia". Em
honra do atual governo federal registre-se que, ao contrário
de governos precedentes, manteve os ministérios da Educação
e da Saúde, até onde a vista alcança, fora
da zona da gandaia. Em sua desonra, observe-se que manteve a tradição
de reservar espaço para a gandaia. Há ministérios,
estatais e outros organismos notoriamente a serviço do clientelismo
e do fisiologismo.
Não
é bem esse, mas mais ou menos esse, o fenômeno que
o professor de filosofia política Renato Janine Ribeiro aborda
em seu novo livro*. A "seriedade", escreve ele,
"fixou residência nos ministérios econômicos,
que dentre as várias instâncias do governo são
as que prevalecem". Na verdade, Janine Ribeiro está se referindo
à prevalência da razão econômica sobre
as demais, em especial a razão social, nas decisões
de governo. "A economia é séria e moderna; o social,
perdulário e arcaico", afirma. Não será abusivo,
no entanto, aproximar o fenômeno por ele descrito do outro,
aqui referido. Há um setor de primeira e outro de segunda,
no governo. Um é sério, outro nem tanto. E se um é
sério e outro nem tanto resulta que, se um requer pessoas
sérias para geri-lo, o outro não. Isso soa tão
absurdo quanto se, numa empresa, o contador precisasse ser sério,
enquanto o chefe de pessoal não, mas é assim. A realidade
do governo, dos vários governos que vêm se sucedendo
no Brasil, é assim.
A
maneira dividida, dupla, dual, de tratar a administração
reflete-se numa comparação que o engenheiro José
Carlos Mello, um conhecedor das entranhas da burocracia governamental,
membro que já foi do governo federal e do governo de Brasília,
gosta de fazer entre dois órgãos federais, ambos donos
de vultosos orçamentos o BNDES e o DNER. O BNDES oferece
bons salários a seus profissionais, um plano de carreira
e a possibilidade de eles chegarem às diretorias e à
presidência. Já o DNER oferece salários baixos,
um arremedo de plano de carreira e tem os cargos de direção
reservados aos políticos. Um órgão não
por acaso, pertencente à área econômica
merece tratamento de primeira. O outro de segunda. Não estranha
que o caruncho do clientelismo e do fisiologismo, quando não
da corrupção, seja historicamente associado ao DNER.
Que
concluir disso tudo? Duas coisas. A primeira é que a estratégia
de reservar uma zona da administração a propósitos
menos sérios equivale à admissão de que uma
dose de clientelismo e fisiologismo, ou mesmo de corrupção,
é inevitável. É como se o governo precisasse
dessa brecha para respirar. A segunda é uma defesa do PTB.
Sabe-se, por tudo o que tem feito na vida, que a vocação
primeira desse partido é tirar suas lasquinhas. Mas o problema
não começa aí. Não começa em
quem pede. Começa em quem oferece. Ou seja, no governo. Se
existem áreas convidativamente abertas à barganha,
como não aceitar o convite? O PTB apenas joga o jogo que
lhe é proposto.
*
A Sociedade contra o Social (Companhia das Letras). Aos que se
interessam em ver alguns dos principais temas da política
brasileira tratados de maneira inteligente e reveladora, recomenda-se
este livro.
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