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Reportagem de capa de Veja São Paulo

Poder de vida e morte

Diretor de O Estado de S. Paulo contrata
a namorada e a promove. Ela lhe dá o fora
e é assassinada a tiros

Caco de Paula

 
A. Baptista/Dygna Imagem
O jornalista Pimenta Neves: paixão, ciúme doentio e dois tiros na ex-namorada 31 anos mais nova que ele

O assassinato da jornalista Sandra Gomide, 32 anos, pelo diretor de redação de O Estado de S. Paulo, Antonio Marcos Pimenta Neves, 63 anos, apresentou tantos elementos surpreendentes que acabou se transformando num crime de repercussão nacional. Em primeiro lugar, é inquietador ver o ocupante de um dos cargos mais influentes da imprensa brasileira estampado nas páginas policiais. Também ajudou a dar ao crime os contornos de uma tragédia humana de grandes proporções a constatação de que um homem com a solidez profissional de Pimenta Neves pode dormir respeitável e acordar um assassino. O protagonista do crime é um homem obcecado e mentalmente perturbado. Essa faceta capaz de matar foi brotando de dentro de uma personalidade respeitável, disciplinada e poderosa. Toda sua força interior, de repente, foi direcionada para eliminar Sandra, sua ex-namorada e ex-subordinada. Ele a contratara, promovera e demitira depois que ela tomou a iniciativa de romper o romance, recusando todos os apelos para reatar.

O crime ocorreu na tarde de domingo, num haras em Ibiúna, a 62 quilômetros de São Paulo, onde Pimenta e Sandra costumavam cavalgar nos finais de semana. A relação entre os dois andava estremecida. Depois de um dos muitos rompimentos em seu conturbado namoro, Pimenta comentava abertamente com amigos que Sandra o traíra. Ele resolveu mandá-la embora do jornal, onde ela ocupou um dos cargos mais importantes, o de editora de economia. Logo após esse desfecho, reuniu os principais editores para dizer que o motivo da demissão não era o relacionamento pessoal, mas a incompetência da jornalista. Conhecido como um homem metódico, reprimido e controlador, Pimenta não deixaria que a história entre ele e Sandra se esgotasse na demissão da namorada. Continuou a procurá-la. Ameaçou-a por e-mails, avisando que sabia da existência de um suposto amante. Na noite do último dia 5, invadiu o apartamento dela, esbofeteou-a e exigiu de volta alguns presentes que lhe dera. Já havia alugado um apartamento defronte ao de Sandra para vigiá-la. Ela era seguida por motoristas que ele contratava.


Christina Rufatto
Sandra, 32 anos: dois disparos pelas costas, no ombro e no ouvido


Pimenta agia como um pêndulo. No trabalho, apresentava oscilações súbitas de humor, mas, dono de um estilo imperial, consolidado por uma carreira longa e sólida, dirigia o jornal com correção. Só muito recentemente seus patrões e os amigos mais chegados começaram a desconfiar de que o jornalista estava, psicologicamente, num beco sem saída. Nas últimas semanas, fez de Sandra sua obsessão absoluta. Chorava ao falar dela ao telefone. Não parava de criticá-la. O fim do namoro passou a ser seu único assunto. Ligava para colegas em posição de chefia na imprensa alertando-os para não contratar Sandra. Entretanto, não conseguia ficar muito tempo sem vê-la. Cortejava sua família. Na véspera do assassinato almoçou na casa da família de Sandra e a tratou de forma cordial. No domingo, tomou café da manhã com o pai dela. Por volta das 14h30 encontrou-a no haras. Segundo Pimenta Neves declarou em seu depoimento à polícia, quinta-feira passada, ele a pegou pelo braço e pediu que entrasse em seu carro. O advogado Antônio Cláudio Mariz de Oliveira, que defende Pimenta, afirma que o cliente queria saber o motivo da falta de interesse de Sandra pelo estado de saúde de uma das filhas do jornalista, operada recentemente de um câncer. Ainda de acordo com Mariz, ela teria dito que isso não lhe interessava. Pimenta Neves deu dois tiros, pelas costas, acertando um no ombro direito e outro no ouvido esquerdo da jornalista. Não há testemunhas do diálogo nem da cena final. Tudo que os funcionários do haras ouviram foram as súplicas dela ("Não, Pimenta, não! Socorro!") e os disparos. Quando chegaram, ela estava morta. Pimenta fugira.

 
O revólver 38 de cano curto e trechos do bilhete explicando o suicídio que não houve: marcas da tragédia

Foi ele mesmo, simultaneamente na pele de jornalista e homicida, quem deu a notícia de seu crime para os dois grandes jornais de São Paulo. Eram pouco mais de 15 horas quando ligou para a redação do Estadão e disse a um editor que havia atirado em Sandra. Diante da perplexidade do interlocutor, continuou:

– Verdade, ela estava falando mal do jornal.

Logo depois, telefonou para o diretor de redação da Folha de S. Paulo, Otávio Frias Filho. Pimenta, cuja carreira incluiu a direção da Gazeta Mercantil e muitos anos como assessor do Banco Mundial, em Washington, onde era habitualmente procurado por autoridades econômicas brasileiras, tinha ocupado cargos de chefia no grupo Folha nos anos 60. "O telefonema durou pouco mais de dois minutos e foi um desabafo pessoal", diz Frias. "Ele se limitou a pedir desculpas à Folha e ao meu pai, pelo fato de que o comportamento dele talvez pudesse repercutir na imagem do jornal onde ele já trabalhou."

O publicitário Enio Mainardi, velho amigo de Pimenta Neves e um dos poucos que não se afastaram dele na semana passada, cedeu um apartamento de sua propriedade para que o jornalista ficasse escondido até terça-feira. Nesse dia, ao voltar para casa, Mainardi encontrou-o caído. Havia tomado trinta comprimidos de calmante. Deixara um bilhete de suicida, endereçado às filhas gêmeas. Mainardi levou-o ao Hospital Albert Einstein, de onde na sexta-feira Pimenta Neves foi transferido com escolta policial para uma clínica psiquiátrica. Por decisão de um desembargador, Pimenta pode ficar mais dez dias na clínica antes de se apresentar à polícia. O advogado contratado pela família de Sandra sustenta que não houve uma real tentativa de suicídio, e sim uma armação para evitar que o jornalista, com a prisão preventiva decretada, se apresentasse diretamente à polícia.

Antes de puxar o gatilho do revólver 38 que matou Sandra Gomide, Pimenta dera repetidos sinais de desequilíbrio emocional. Uma vez consumada a tragédia, todos os seus passos – mesmo a suposta tentativa de suicídio – obedecem a uma lógica. Visam, naturalmente, a tornar menos hedionda sua obsessão fatal diante da opinião pública. É um direito de todo réu, que sua defesa vem aproveitando com grande competência. Foi a suposta tentativa de suicídio que o levou ao hospital e, mais tarde, à clínica psiquiátrica.

 
Marcos Rosa
Redação de O Estado de S. Paulo: "Já não tenho as especificações técnicas para exercer a função"

Foi no hospital que Pimenta Neves deu seu depoimento à polícia, longe das delegacias e dos flashes dos fotógrafos. Alguns trechos, no entanto, foram gravados por uma minicâmara escondida da TV Globo. Ele respondeu às perguntas com seu estilo autoritário de pessoa habituada a mandar e ser obedecida. "Não é incomum pessoas assim explodirem quando não conseguem o que querem", diz o psiquiatra forense Guido Palomba. Quem conhece Pimenta há décadas lembra que ele sempre foi um soberbo. No jornal, não prestava muita atenção no que lhe diziam. Alguns editores preferiam tratar com ele pelo telefone para se assegurarem de que estavam sendo ouvidos. Às vezes, nos finais de semana, aparecia para trabalhar com roupa de montaria, botas e chapéu. Solitário, eventualmente dormia em um sofá na sua sala, de gravata e tudo. No dia seguinte, meio amarfanhado, circulava entre os jornalistas para deixar claro que passara a noite ali. Um amigo lembra-se dele contando como ensinou os jornalistas Millôr Fernandes, Ivan Lessa e Jaguar a fazer nos anos 70 o lendário semanário O Pasquim – ou de como, com seus conselhos, salvara seus patrões empresários de levar os negócios à falência.

Esse era o seu estado normal. Nos últimos meses, quando ainda namorava Sandra, mostrava-se mais irritadiço e mal-humorado. Além da doença da filha, contava que sentia freqüentes dores de cabeça e tinha dificuldade para ler desde que sofrera um ferimento no nervo do olho direito durante uma cavalgada. Submeteu-se a 62 sessões de tratamento a laser, mas continuou com um grave problema de pressão alta no globo ocular. Um dos amigos de Pimenta lembra que, em 1980, o filósofo francês Louis Althusser matou a mulher seis meses depois de realizar uma cirurgia que o deixou em estado de prostração mental, incapacitado de ler. Althusser oscilava momentos de agitação e grande produtividade com fases de depressão profunda. Como Althusser, Pimenta vinha apresentando um comportamento ciclotímico. Quando alguém ia despachar com ele, só falava de Sandra. Não aceitava a separação. No final de julho, pediu demissão ao diretor responsável do Estadão, Ruy Mesquita. Afirmou que não tinha mais "as especificações técnicas para o exercício da função". Mesquita não aceitou o pedido e sugeriu que ele fizesse um tratamento médico. Pimenta Neves acatou a sugestão e foi a dez sessões no consultório de um psiquiatra. Elas não evitaram a tragédia.

Com reportagem de Lúcia Monteiro

 

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