Made in favela
Produtores
pobres do Rio
exportam roupas e bijuterias
Selmy Yassuda

Pulseiras,
biquínis, saias e tops artesanais: bem-acabados |
A apresentadora
Angélica e os cantores Carlinhos Brown e Fernanda Abreu têm
roupas confeccionadas por Terezinha da Costa Souza. Aos 65 anos,
semi-analfabeta e sem idéia de quem seja John Galliano ou
Tom Ford, os papas da Dior e da Gucci, Terezinha é uma das
vinte costureiras da Coopa-Roca, cooperativa da favela da Rocinha,
uma das maiores do Rio de Janeiro, que há seis anos vem tentando
uma chance no mercado da moda. Ela parece ter chegado: a Coopa-Roca
acaba de fechar seu maior contrato, uma encomenda de 1.500
peças para a M. Officer, que estarão nas lojas a partir
de outubro. Não é a única. Com produtos bem-feitos
e bem-acabados, que ultrapassam a fronteira da benemerência,
grupos recrutados em favelas do Rio vêm emplacando em lojas
finas e exigentes.
A
coleção da Coopa-Roca para a M. Officer segue o estilo
artesanal característico, que explora justamente a fartura
de mão-de-obra, com tops de crochê feito com tiras
finíssimas de tecido jeans e calças e saias de patchwork
do mesmo material. "O resultado foi excelente. Já estou com
mais vinte peças na cabeça para o inverno", diz Carlos
Miéle, dono da grife. O gostinho da produção
em grande escala já é conhecido das artesãs
da Zona Oeste do Rio reunidas na ONG São Cipriano, que se
tornaram peritas em pulseiras de miçanga. Da loja carioca
de sua professora, a designer Flávia Torres, as pulseiras
ganharam o mundo. Na finíssima butique Daslu, de São
Paulo, custam 45 reais. Três mil peças foram parar
nas chiquérrimas Barney's, em Nova York, e Harvey Nichols,
em Londres. A próxima escala é a vitrine da joalheria
H.Stern, que encomendou versões com pedras brasileiras, a
60 reais cada uma. Já o sucesso dos biquínis da Top
of Rio no exterior não é obra do acaso: sempre foi
intenção de Leonhard Dickers, um consultor de marketing
alemão, e sua mulher, a carioca Selma, pôr em prática
um programa de qualificação profissional para pobres
que tivesse mercado internacional. Hoje, a Top of Rio conta com
75 costureiras de quatro favelas e outras 100 crocheteiras da Baixada
Fluminense. Na última edição da Igedo, grande
feira européia de vestuário feminino, recebeu pedidos
de cerca de 30.000 peças para
o verão europeu de 2001.
|