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O punk da periferia fica pop

Escrachado e desbocado, cheio de piercings
e tatuagens, João Gordo se dá bem no papel
de João Gordo

Bel Moherdaui

 
Antonio Milena
Álbum de família
Álbum de família
João em três tempos: o Gordo, na MTV, e o Francisco, aos 3 anos e na primeira comunhão

Por trás dos quase 180 quilos, das tatuagens, dos cinco piercings, da cara de mau e do jeito rebelde, João Francisco Benedam, o João Gordo, 36 anos, é exatamente o que diz ser: um punk escrachado. Mas um punk que subiu – ou está subindo – na vida. Mora em um bairro chique de São Paulo (em quarto-e-sala alugado, é verdade), faz terapia três vezes por semana, só anda de táxi e até pouco tempo atrás tinha personal trainer. A última semana, passou em um spa freqüentadíssimo por ricos e famosos. A convite da dona, mas passou. Caso algum fã inadvertido da banda Ratos de Porão, da qual é vocalista há dezessete anos, ainda esteja lendo até aqui, um esclarecimento: o conjunto nunca fez sucesso ("De propósito; somos anticomerciais"), mas o programa que ele comanda está entre os campeões de audiência da MTV. O talk-show Gordo a Go-Go, que estreou em julho e vai ao ar às 22h30 nas segundas-feiras, alcança média de 2 e picos de 3 pontos (240.000 espectadores) no ibope, num segmento em que a maior parte dos programas fica abaixo de 1 ponto. Não chega a ser um primor de jornalismo nem o programa ideal para assistir com a família. As chances de ouvir palavrões (que em hipótese alguma serão reproduzidos nesta revista) são absolutas. Mas diverte um público que espera exatamente isso dele. "Sou sincero, falo o que penso. Não quero ser nenhum Jô Soares", esculacha.

Durante a gravação, João Gordo faz o que bem (ou mal) entende. Escolhe a música que vai tocar ao fundo, pergunta o que quer aos dois convidados – um famoso e um nem tanto –, exibe filmes. Enfim, dedica-se a sua principal atividade: ser João Gordo. O programa não é ao vivo, mas é como se fosse, pois não há edição. Todas as irreverências vão ao ar na íntegra – na semana passada, a Igreja Católica protestou contra a exibição do curta Deus É Pai. Na estréia, João, "supernervoso e com frio na barriga", enfrentou a jornalista Marília Gabriela. No programa seguinte, já totalmente à vontade, interrompeu a entrevista com Wando quando o cantor se desmanchava em romantismos. "Acho que vou vomitar. Posso tirar a música de fundo? Você falando de amor aqui, e eu ouvindo você cantando do outro lado... tô passando mal", comentou, com cara de nojo. Diante da socialite Narcisa Tamborindeguy, não resistiu quando ela disse que tinha feito plástica nos seios e deu uma apalpada, para checar o resultado. Aprovou com veemência.

Sua cultivadíssima figura, digamos, pública, de sujeito durão, sujo e drogado, sofreu um arranhão no início do ano, quando uma infecção pulmonar o deixou três dias em coma e 22 na UTI. João, que sempre acreditou que morreria cedo, tomou um susto e começou a se tratar. "Continuo o mesmo (palavrão) de sempre. Mas agora tenho consciência de que preciso me cuidar, senão vou bater as botas. E essa consciência eu não tinha antes", admite. Emagreceu 40 quilos, deixou de fumar cigarro (chegava a tragar dois maços e meio por dia) e parou com as drogas ("só dou umas escorregadelas"). Dieta, segue mais ou menos. "Acordo às 10h30 e ligo o som. Bate meio-dia, eu vou ao quilo comer. Como saladinha e filé de frango – até aí eu ainda estou no regime. De tarde já começa a larica. À noite eu já virei glutão: como comida chinesa, pão de lingüiça, faço altas orgias alimentares", descreve. A certa altura, chegou ao extremo de fazer ginástica, por influência da fotógrafa Fabiana Figueiredo, uma amiga "quase mãe" com quem João morou durante oito anos. "No início eu fazia sozinha, depois ele começou a se contaminar, gostou da professora e fazia de tudo. Andávamos pelo bairro de manhã e fazíamos ginástica ou hidro aqui em casa", lembra Fabiana.

A separação da amiga trouxe uma dura transformação para a vida do roqueiro. "Eu saí da adolescência há uns dois meses, quando fui morar sozinho. A Fabiana meio que cuidava de tudo, eu só dava a grana", diz. Hoje, divide o apartamento apenas com sua coleção de CDs (cerca de 2.000) e seus videogames, outra paixão. A limpeza fica a cargo de uma faxineira, duas vezes por semana. Ele não tem sofá nem fogão – culpa da "merreca" que diz ganhar da MTV, uns 5.000 reais por mês. "No final do ano peço aumento. Vou só esperar meu contrato acabar", avisa. Conta que já recusou oferta de outra emissora, de mirabolantes 120.000 reais, e resistiu firmemente. "Mas, se eles pagassem mais, estariam mais seguros", insinua.

João inaugurou o estilo João de apresentar há seis anos, na própria MTV, quando foi "repórter especial" em um evento de moda a convite de Astrid Fontenelle, na época gerente de jornalismo da emissora. Ganhou um programa próprio, Garganta e Torcicolo, o Paraíso das Ovelhinhas, no qual contracenava com dois monstrinhos. Deslanchou. "Uma vez deu um crepe e a câmara travou na minha cara. Eu falei que, se não voltasse ao normal, contaria até dez e mostraria a (palavrão). Contei até dez, levantei e, ao vivo e em cores, mostrei", ri. Não levou bronca de seu compreensivo empregador, que o tem no cargo para isso mesmo. "São coisas folclóricas dele. Aqui pode e aqui deve ter o João", justifica o diretor de programação e produção da emissora, Zico Goes. Se extrapola e é advertido, entrega Goes, João Gordo vira um anjo. "Ele fica mal, traz presente, pede desculpa. Ele vai odiar isso, mas é fofo. É um punk fofo", brinca.

João Gordo é assim, ciclotímico. Tem crises de mau humor e simplesmente odeia piadas de gordo. Fica uma fera e é capaz de partir para cima do engraçadinho que disser que com ele o pneu do carro abaixa, a piscina esvazia. A revolta vem desde a época de colégio, quando já era gorducho e alvo de gozações. Filho de pai militar e de mãe cabeleireira, estudou em um semi-internato dirigido por padres, o Instituto Dom Bosco, em Itaquera, Zona Leste de São Paulo. Foi batizado e crismado, fez primeira comunhão e declara ódio eterno à Igreja Católica. Aos 13 anos, resolveu ser punk. "Meus pais me levaram para o interior, para ver se me tiravam do mundo do rock, com medo de eu me drogar. Mas foi pior. Lá aprendi a fumar maconha, a beber, tudo", diz, com ar de vingança. A lembrança da mãe, Laura, é outra: "Ele ensinava novidades às professoras, era muito inteligente e querido". Pior ainda, para quem se declara inimigo mortal de tudo que cheire a MPB: "Foi mestre da bateria infantil da escola de samba". João, o punk, quem diria, já teve seu momento de cuíca e tamborim.

 

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