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A fábrica de ouro

Americanos encontram na Turquia os restos
da primeira casa da moeda da História

Bia Barbosa


Os lídios, povo que habitava a costa mediterrânea da Turquia há 2.600 anos, sempre foram um mito para os arqueólogos e historiadores. Acredita-se que eram donos de tesouros incalculáveis, formados principalmente por moedas e jóias de ouro de uma qualidade excepcional. Até agora nenhum pesquisador conseguiu encontrar vestígio algum desses grandes acúmulos de riqueza, mas já se sabe com certeza que eles de fato existiram. Pesquisadores das universidades americard e Cornell conseguiram reconstituir a maneira como os lídios produziram o mais puro ouro de seu tempo. A capital do reino, Sardis, tinha uma fábrica onde eram aplicadas inovadoras técnicas de separação de metais que permitiram aos lídios, durante o governo do rei Creso, no século VI antes de Cristo, cunhar pela primeira vez moedas de prata e ouro. É um segredo que levou trinta anos para ser totalmente desvendado e que acaba de ser divulgado nos Estados Unidos, em obra assinada pelo arqueólogo Andrew Ramage e pelo especialista em metalurgia Paul Craddock, do British Museum.

Desde 1968, os pesquisadores procuravam entender como os lídios produziam suas moedas. As respostas só foram encontradas depois de contínuas escavações em uma região que foi habitada sucessivamente pelos persas, gregos, romanos e bizantinos. O processo foi reconstituído com base nos instrumentos encontrados no local e nos vestígios de resíduos químicos que eles guardavam. Os lídios retiravam das margens de um rio próximo a Sardis pepitas de uma liga metálica composta de ouro, prata e ainda um pouco de cobre. Para separar os metais e produzir a creseida, a moeda criada pelo rei Creso, esse composto era triturado e fundido com chumbo, metal que absorvia o cobre e permitia sua retirada da liga. Para separar o ouro da prata, umedecia-se a mistura, adicionava-se sal e tudo era posto para ferver em potes de barro por vários dias. Essa estranha combinação ficava ali cozinhando até que uma reação química era desencadeada e gerava um vapor corrosivo que agia sobre a prata, isolando-a. Ambos os metais estavam prontos então para ser usados nas fôrmas. "É impressionante como esse povo conseguia transformar a matéria bruta em um material puro e bem acabado", diz Ramage.

Pela posição geográfica do reino, as moedas lídias se espalharam rapidamente e exerceram grande influência em todo o comércio do Mediterrâneo. O uso de moeda era sinal de alto grau de civilização. Entre os caldeus, assírios, hebreus e outros povos, as transações comerciais se faziam por meio de pequenas barras e placas de metais preciosos. A creseida, com seu leão estilizado em uma das faces, inspirou todo o dinheiro produzido posteriormente. Sardis, segundo as mais recentes descobertas arqueológicas, era uma cidade muito segura cercada por dois imensos muros, com 20 metros de espessura e pelo menos 6 de altura. A mesma equipe americana que decifrou o enigma da fábrica de moedas encontrou também uma casa dessa época. Lá acharam até um aparelho de jantar e vários utensílios domésticos de uso diário. Tudo quase intacto, coisa bastante rara na arqueologia. Provavelmente foram esquecidos pelos moradores afoitos que abandonaram a cidade quando ela foi invadida pelos persas e o império lídio destruído para sempre no final do século VI a.C.

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