O bom senso
está on sale
Algumas
observações sobre o projeto de lei
que proíbe o uso de palavras estrangeiras
João
Gabriel de Lima
Reprodução/Keiju Kobayashi
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| Chegada
de Cabral ao Brasil: se o deputado Aldo Rebelo fizesse parte
da esquadra, o português não teria incorporado
vocábulos do tupi-guarani |
Cena
de Laços de Família, novela das 8 da Globo.
Miguel (Tony Ramos) recebe Capitu (Giovanna Antonelli) no Internet
Café de sua livraria:
Capitu
O ordenador não funciona! E eu tenho de
mandar uma mensagem urgente! Preciso entrar em contato com minha
agente de viagens para programar uma caminhada no mato.
Miguel
Calma. Deixe-me pegar o rato.
Capitu
Ufa, deu certo! Obrigada, Miguel. Preciso correr agora
porque combinei com amigos de ir a um espetáculo de canto
metralhado.
Se
você não entendeu nada, aí está a tradução:
"ordenador" é computador. "Caminhada no mato" é trekking.
"Rato" é mouse. "Canto metralhado" é rap. O diálogo
esdrúxulo entre os dois personagens do folhetim é
obviamente fictício. Não é impossível,
no entanto, que um dia o autor Manoel Carlos seja obrigado a escrever
algo parecido. Basta que o Congresso aprove o projeto de lei nº
1676, de autoria do deputado Aldo Rebelo, do PC do B de São
Paulo. Nesse caso, os brasileiros estarão proibidos de usar
termos em outras línguas na comunicação oficial,
na mídia escrita, radiofônica e televisiva, na publicidade
e no comércio. Rebelo propôs até uma multa para
quem insistir nos estrangeirismos: 1.300
a 4.000 Ufirs para pessoa física
e 4.000 a 13.000
Ufirs para pessoa jurídica. Em reais, as penas variariam
entre 1 300 e 14.000 reais, aproximadamente.
O
projeto é fruto de uma idéia fora do lugar (mais uma):
a de que o português falado no Brasil estaria ameaçado
de extinção, assim como o mico-leão-dourado
ou a arara-azul. Repete-se no terreno do idioma a mesma lengalenga
que se desenrola no campo da economia. A invasão do inglês
(o avanço do neoliberalismo) resultaria na derrocada da nossa
inculta e bela língua (a empresa nacional). Para ilustrar
essa tese, seus defensores sempre utilizam o mesmo e surrado exemplo:
cartazes de lojas de shopping centers (ops, centros comerciais).
Está certo que os abusos beiram o ridículo. Entre
eles, estampar nas vitrines "sale" e "50% off" em vez de "liquidação"
e "50% de desconto". No entanto, multar um lojista por uma caipirice
que depõe unicamente contra ele próprio é um
exagero. Seria mais ou menos como cobrar uma pena pecuniária
(gostou dessa, Rebelo?) de pagodeiros a cada erro de gramática
que cometem.
Para
os especialistas, o projeto mostra total ignorância do fenômeno
lingüístico. "Um idioma evolui quando entra em contato
com outros, e só alguém que não entende nada
do assunto pode achar que é possível bloquear esse
intercâmbio", diz o professor John Robert Schmitz, americano
naturalizado brasileiro, que leciona lingüística aplicada
na Universidade de Campinas. É normal que uma língua
se nutra de outras. Também é comum e fato antigo
que os vocábulos a atravessar fronteiras venham, em
geral, de uma cultura dominante. Até o início do século
XX, era o francês o responsável pela maior parte das
palavras ditas internacionais. Agora, essa primazia pertence ao
inglês. A tal ponto que nem os esforços da Academia
Francesa de Letras impediram que os conterrâneos de Gustave
Flaubert adotassem o termo "weekend" para fim de semana.
Terapia
ocupacional É curioso imaginar como seria a implantação
do projeto de lei nº 1676. Primeira questão: quem elaboraria
o "índex" das palavras proibidas? Em seu projeto, Aldo Rebelo
sugere que seja a Academia Brasileira de Letras. Sempre que um termo
estrangeiro fosse posto em circulação, a ABL teria
noventa dias para encontrar um equivalente em português. Seria
uma ótima terapia ocupacional para os velhinhos, mas leva
a outra questão. E se, investidos de sanha purificadora,
os imortais resolvessem banir também anglicismos, galicismos
e outras palavras originárias de outras línguas? Já
se tentou fazer isso algumas vezes no Brasil. No final do século
XIX, por exemplo, o latinista carioca Antônio de Castro Lopes
publicou o livro Neologismos Indispensáveis e Barbarismos
Dispensáveis, no qual denunciava os estrangeirismos e
propunha alternativas em português. Se suas idéias
fossem adotadas, hoje em dia Romário jogaria ludopédio,
e não futebol. No frio, as pessoas usariam focale, e não
cachecol. E, antes de dormir, acenderiam o lucivelo, nunca um abajur.
Um
cenário radical como esse daria trabalho. Para evitar graves
prejuízos financeiros, roteiristas de TV, publicitários
e até jornalistas se veriam obrigados a instalar em seus
computadores chips (ooooops!) que apitassem sempre que um estrangeirismo
fosse digitado. Façamos um teste. Não apenas repórteres
(péin! É um anglicismo) padeceriam, mas também
os empresários (péin! A palavra vem do italiano)
de comunicação, porque para estes últimos as
multas envolveriam algarismos (péin! Origem persa)
ainda mais elevados. Articulistas de grande bagagem (péin!
Galicismo) cultural (péin! Germanismo) teriam
de renegar a erudição de alfarrábio (péin!
Origem árabe), apesar de sua ojeriza (péin!
Espanholismo) a palavras de uso vulgar.
Pensando
bem, é melhor desligar o chip. Ele não pararia de
tocar. Todos os exemplos acima foram tirados do Dicionário
Etimológico da Língua Portuguesa, obra de referência
publicada pelo estudioso Antenor Nascentes em 1932. Ele teve a paciência
de contar as palavras portuguesas vindas de outros idiomas para
constatar como elas enriqueceram a língua a longo prazo.
Hoje, a última flor do Lácio tem pelo menos 20% de
termos emprestados de línguas estrangeiras (veja
quadro). Se fossem bloqueadas na origem, o português
atual seria sem dúvida mais pobre. Faça-se o seguinte
exercício: como falaríamos hoje se, na esquadra de
Cabral, houvesse um Aldo Rebelo que proibisse a utilização
de termos em tupi-guarani? Em vez de batizar bairros e cidades com
belos e sonoros nomes de origem indígena, os brasileiros
teriam de traduzi-los para o português. Os paulistanos não
iriam mais correr no Ibirapuera, e sim exercitar-se no "Parque Madeira
Podre". E o ipanemense Vinicius de Moraes teria como musa uma certa
"garota da Água Ruim".
Péin,
péin, péin O professor Schmitz lembra que
propostas xenófobas no campo dos idiomas costumam coincidir,
ao longo da História, com mentalidades autoritárias.
"Foi assim no nazismo e no fascismo. A ditadura de Franco na Espanha
tinha como arma de opressão a tentativa de impor o purismo
castelhano sobre os dialetos regionais", diz. Aldo Rebelo parece
não se incomodar muito com autoritarismos. Afinal, durante
muito tempo ele apoiou a ditadura albanesa, que era considerada
um modelo pela agremiação política à
qual pertence, o Partido Comunista do Brasil (péin! péin!
péin!). Epa! O que disparou o alarme? Ah, sim: "comunista"
vem de "comuna", palavra que Antenor Nascentes relaciona como galicismo.
Espera-se que, em nome da coerência, Rebelo concorde também
em mudar o nome do partido no qual milita.

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