Aspirina
de plástico
Pesquisadores testam uma outra versão do
analgésico
que todo mundo tem na gaveta
Anna
Paula Buchalla
Não
há analgésico mais antigo e popular do que a Aspirina.
Inventada em 1897, pelo químico alemão Felix Hoffmann,
a droga é indicada para combater dores e febre. "O mais prático
dos sóis", como definiu o poeta João Cabral de Melo
Neto, também ajuda na prevenção de infartos
e derrames. Trata-se de um remédio que não conta com
consumidores, e sim com verdadeiros seguidores o mundo engole
12,5 bilhões de comprimidos por ano. É quase uma religião.
Uma pesquisa da revista americana Newsweek a incluiu entre
as cinco maiores conquistas da humanidade no século XX. Vem
depois da televisão e do telefone. Porém, como nada
é perfeito, a Aspirina tem lá seus efeitos colaterais.
Usada por longos períodos, pode causar hemorragias e úlceras
gástricas. Daí a recomendação caseira
de tomá-la com leite, o que em tese protegeria o tecido estomacal.
Na semana passada, pesquisadores da Universidade Rutgers, nos Estados
Unidos, levaram uma boa notícia ao encontro anual da Sociedade
Química Americana. Eles parecem ter acertado na criação
de uma Aspirina com menos reações adversas
a PolyAspirin.
O analgésico continua o mesmo. Só que os pesquisadores
o combinaram quimicamente ao plástico do qual são
feitas as drágeas dos medicamentos mais modernos. Com isso,
o remédio passa intacto pelo estômago e vai direto
para o intestino, onde só então é liberado
e começa a fazer efeito. Em sua versão tradicional,
ao bater no estômago, o comprimido é bombardeado pelo
suco gástrico e absorvido pelo organismo em quinze minutos.
O problema é que seu princípio ativo, o ácido
acetilsalicílico, tende a irritar o órgão,
desencadeando sangramentos e infecções. Isso não
acontece no intestino porque ali o meio é alcalino, o que
neutraliza a acidez da droga. "Com essa tecnologia, a droga torna-se
mais segura", diz Newton Lindolfo Pereira, professor da Universidade
de São Paulo e especialista em tecnologia farmacêutica.
Além disso, como o tempo de ação da PolyAspirin
é mais duradouro vinte horas, contra as duas horas
do comprimido tradicional , ela pode ser administrada em doses
menores. Os testes revelaram-se um sucesso. Ao menos em ratos (sempre
eles). As experiências com seres humanos estão previstas
para começar somente daqui a dois anos. Mas, ainda que tudo
dê certo, os pesquisadores não terão eliminado
uma limitação típica do analgésico.
"Tal como a Aspirina comum, a PolyAspirin continua a ser um poderoso
anticoagulante", adverte o toxicologista Anthony Wong, do Hospital
das Clínicas, de São Paulo. Traduzindo: a droga deixa
o sangue mais ralo, o que representa um risco para pacientes com
problemas de cicatrização.
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