Revolução
minimalista
Técnicas cirúrgicas evoluem para
cortes
cada vez menores, com menos dor e
recuperação
mais rápida
Flávia Varella
Claudio Rossi

Retirada de rim de
um doador vivo por laparoscopia: órgão inteiro
sem a necessidade de um doloroso corte de 30 centímetros |
Grandes
cirurgiões, grandes incisões. Todos os médicos
que se formaram há mais de dez anos aprenderam medicina ouvindo
essa frase nas salas de aula e nos centros cirúrgicos. Hoje,
a velha máxima é citada apenas para demonstrar como
as coisas mudaram. Em 1989, foi feita a primeira videolaparoscopia
no Brasil: a retirada de um cisto de ovário sem abrir a barriga
da paciente. Bastaram quatro cortes de 1 centímetro cada.
No ano seguinte, um homem teve a vesícula extraída
pelo mesmo método quatro incisões mínimas.
Era o começo de uma revolução silenciosa que
está mudando o panorama nas mesas de operação,
ao produzir um número cada vez maior de cirurgias realizadas
com aparelhos que permitem fazer cortes cada vez menores. "Depois
da anestesia e do antibiótico, o avanço mais importante
foi o das cirurgias minimamente invasivas", diz o cirurgião
Thomas Szegö, autor da primeira extração de vesícula
sem cortes grandes no Brasil. Hoje, o mundo inteiro aceita que vesícula
se tira por laparoscopia.
Vesícula, útero, ovário, próstata, coração,
rim, joelho, cérebro. Em uma década, as técnicas
avançaram tanto que tudo isso agora pode ser operado sem
expor o interior do corpo do paciente. Há quatro meses, pela
primeira vez uma equipe do Hospital das Clínicas de São
Paulo desprendeu o rim de um doador vivo através de quatro
orifícios de 1 centímetro cada e o retirou, para ser
transplantado num doente, por um corte de 10 centímetros
acima do púbis. "A nova técnica serve como alternativa
a uma operação em que o doador uma pessoa sadia
recebe um corte de cerca de 30 centímetros da barriga
até as costas e sente dor por mais de um mês", avalia
Anuar Mitre, urologista e cirurgião do HC. Cirurgias importantes,
como a de tratamento de aneurisma cerebral, em que é preciso
cortar o couro cabeludo, serrar o crânio e manipular o cérebro,
já podem ser substituídas em determinados casos por
um método em que a única incisão necessária
é um talho na virilha (veja quadro).
Vantagem
estética O cenário de açougue das
mesas de operação diminui com as cirurgias minimamente
invasivas e o paciente acumula vantagens: sofre menos dor, tem recuperação
mais rápida e o risco de infecção hospitalar
encolhe. Qualquer pessoa que tenha feito uma cirurgia, mesmo banal,
como a retirada do apêndice, sabe o quanto o corte dói
e incomoda até a completa cicatrização. Além
disso, nas cirurgias abertas, a colocação de afastadores
de órgãos para abrir espaço ao trabalho do
cirurgião também provoca dor durante dias. Com as
novas técnicas, que implicam cortes minúsculos e anestesia
mais superficial, a alta hospitalar costuma ser antecipada. O retorno
às atividades normais e a retomada funcional do organismo
também tendem a ser mais rápidas. Existe até
a nada desprezível vantagem estética das cicatrizes
quase imperceptíveis, o que contribui muito para o bem-estar
psicológico. Um paciente que de manhã opera o menisco
por artroscopia à tarde vai para casa andando. "Se faz a
mesma coisa pelo método convencional, fica imobilizado com
gesso durante duas a três semanas", afirma Moisés Cohen,
da Escola Paulista de Medicina.
Elielze Bispo Saviano e Oneida Gonçalves dos Santos tiveram
o útero retirado no início deste mês porque
não agüentavam mais as cólicas terríveis
e os sangramentos provocados por miomas. Elielze fez a operação
pelo método da laparoscopia. Oneida passou por uma cirurgia
convencional em que o abdome foi aberto. Elielze recebeu alta no
dia seguinte à operação. À tarde, foi
ao supermercado. "Nem tomei o analgésico que o médico
sugeriu", conta. Oneida passou uma noite na UTI, ficou hospitalizada
quatro dias e uma semana depois de receber alta ainda sentia dor
ao levantar e sentar, enquanto a barriga estava inchada por causa
dos pontos. "Se eu tivesse a opção de fazer a outra
operação, faria. Só de não ficar no
hospital já vale", diz (veja nos quadros
a comparação passo a passo).
Olhar indecente O princípio das cirurgias minimamente
invasivas nome genérico que engloba várias
técnicas diferentes, como laparoscopia (ver dentro da cavidade
abdominal), artroscopia (perscrutar as articulações),
toraxcopia (dentro do peito), endoscopia (as cavidades dos órgãos
e dos vasos) é a possibilidade de enxergar o interior
do corpo sem necessidade de abri-lo. A idéia não é
nova. No início do século XIX, o médico francês
Bozzini introduziu um tubo metálico na uretra de uma mulher
e acendeu uma vela do lado de fora para enxergar sua bexiga. Foi
suspenso da academia médica porque, pelos padrões
da época, considerou-se indecente olhar dentro do corpo humano.
Mais de um século e meio depois, a questão da visualização
foi resolvida pela laparoscopia com fibras ópticas finíssimas,
que levam luz para o interior do organismo. As fibras com lentes
na ponta funcionavam como um microscópio comprido.
No início, o procedimento era usado apenas para diagnóstico,
ou seja, enxergar o estado das coisas dentro do corpo. No final
da década de 70, acoplou-se uma microcâmara à
fibra óptica. Com isso, o médico não precisava
mais segurar o tubo para olhar por ele, já que as imagens
apareciam na tela de TV. Suas mãos foram liberadas para,
finalmente, começar a fazer intervenções. Em
geral o sistema óptico é introduzido por um corte
no umbigo. Pelas outras incisões entram pinças e tesouras
com cabos compridos que o médico pilota com o olho grudado
na tela de TV.
Na endoscopia, a imagem interna é fornecida por radiografias,
que também aparecem num monitor de TV. Com a injeção
de contraste, sabe-se exatamente onde está o cateter que
anda pelo interior de vasos e pelos órgãos. Nas endoscopias,
não são usados instrumentos cirúrgicos. É
o próprio cateter que leva e solta no lugar certo o material
necessário para tratar a doença: balões que
inflam e esmagam placas de gordura nas artérias; espirais
metálicas, chamadas stents, que mantêm abertos
os vasos estreitados, ou molas também metálicas que
preenchem as dilatações dos vasos, aneurismas, impedindo
o sangramento e conseqüente derrame (veja
quadro).
A lista do que se pode tratar por meio de técnicas minimamente
invasivas cresce a cada ano. Baço, apêndice, hérnia
do hiato, esôfago, estômago, intestino, quase tudo no
aparelho digestivo pode ser mexido com essas intervenções.
No ano passado, foi feita a primeira redução do tamanho
do estômago para tratamento de obesidade por via laparoscópica.
O estômago da paulista Ashley Boniface, de 35 anos, ficou
com 1,5% do tamanho original. Apesar de ter passado por uma operação
de grande porte, no dia seguinte caminhava pelo quarto e tomava
banho sozinha. Ashley caiu de 108 quilos para 64 com apenas quatro
cortes de 1 centímetro cada um (veja
reportagem sobre a redução de estômago).
Útero
fatiado Conforme os médicos se convertem às
cirurgias minimalistas, a indústria desenvolve equipamentos
mais sofisticados. "Com a qualidade de imagem que a radioscopia
permitia dez anos atrás, tratar aneurisma cerebral por via
endoscópica seria muito arriscado", afirma o neurorradiologista
do Hospital Sírio Libanês Odon Ferreira da Costa, que
já fez cerca de cinqüenta embolizações
de aneurisma com molas metálicas. Até pouco tempo
atrás, o tamanho do mioma, um tipo de tumor benigno que dá
no útero, era um obstáculo à histerectomia
por via laparoscópica. O problema foi resolvido com o morcelador
elétrico, aparelho de nome assustador para os leigos e função
bem objetiva: ele "fatia" o útero ainda dentro do corpo para
que o órgão possa ser extraído, em tiras, por
um dos furinhos feitos na barriga da paciente. "Agora retiramos
tumores de 10 centímetros sem dificuldades, só não
operamos os muito grandes ou os malignos em estágio avançado",
diz Francesco Viscomi, um dos precursores da laparoscopia ginecológica
no Brasil.
A proposta inicial das cirurgias endoscópicas era dar mais
conforto ao paciente e mais segurança ao cirurgião.
Aos poucos, porém, as mudanças e os progressos foram
tantos que elas acabaram por alterar o conhecimento sobre as doenças
e, conseqüentemente, o modo de encará-las. Antes delas,
quando um menisco estava danificado, a opção médica
era arrancá-lo. Com a possibilidade de ver o que acontece
dentro do joelho através da artroscopia, descobriu-se que
a falta do menisco provoca um desgaste muito prejudicial nas articulações
do joelho. Hoje, preserva-se o menisco a qualquer custo. Há
alguns anos, todo paciente que tinha cálculos renais com
mais de 6 milímetros ia para a mesa de cirurgia e recebia
um corte enorme na lateral do corpo para que a pedra fosse retirada.
"Hoje acho absurdo optar pela cirurgia aberta", afirma Anuar Mitre.
Além da opção da pulverização
da pedra por ondas de choque, pode-se chegar até o cálculo
e tentar destruí-lo ou recolhê-lo com uma cestinha
através de um aparelho endoscópico que entra pela
uretra, sem nenhum corte, ou por um nefroscópio, outro tipo
de instrumento óptico, inserido por um pequeno corte nas
costas.
Robô
cardiológico Constatados os benefícios
e os avanços das técnicas menos invasivas, abrir menos,
expor menos e manipular menos tornaram-se paradigmas para todas
as pesquisas de novos tratamentos. A cardiologia transformou-se
com a angioplastia, tratamento de entupimentos de vasos mediante
o cateter, que livrou da mesa de cirurgia milhares de pacientes.
Há cerca de cinco anos, começaram a ser usados estabilizadores
que conseguem parar apenas a artéria que vai ser mexida e
deixar o coração continuar batendo. Sem a necessidade
de recorrer ao coração artificial, os cirurgiões
já colocam pontes de safena e mamária e trocam válvulas
cardíacas através de cortes de 6 ou 7 centímetros
uma grande diferença em comparação com
a violência das cirurgias convencionais, nas quais o peito
e o osso esterno são abertos. "Quando é possível
abrir menos com a mesma segurança, fazemos assim", diz Sérgio
Almeida de Oliveira, diretor científico do Instituto do Coração,
em São Paulo. "É menos agressivo para o paciente."
Na cardiologia, a meta agora é operar com cortes tão
pequenos quanto os da laparoscopia. O que parecia impossível,
pois o tratamento do coração envolve cortar e costurar
vasos e tecidos em escala microscópica, está sendo
experimentado com as cirurgias feitas por robôs. As "mãos"
do robô, com câmara, luz e pequenos instrumentos, são
inseridas no peito do paciente por meio de furos da espessura de
um lápis. O cirurgião comanda os movimentos sentado
diante de um console de computador a 5 metros do paciente ou mesmo,
teoricamente, numa outra sala ou num outro país.
Esses avanços não representam o fim das cirurgias
convencionais. "Por um bom tempo elas continuarão a ser indicadas,
especialmente em casos mais complicados em que a visão e
o tato do cirurgião forem imprescindíveis", afirma
o obstetra Eduardo Vieira da Motta. Existe ainda a limitação
do preço. O custo hospitalar das cirurgias light é
menor, mas a aparelhagem é cara começa na casa
dos 20.000 dólares. "As cirurgias minimamente invasivas não
vieram para tomar o lugar das abertas, mas chegaram para ser as
preferidas", afirma Daher Cutait, diretor clínico do Hospital
Sírio Libanês, em São Paulo. Cirurgião
do aparelho digestivo há mais de sessenta anos, Cutait não
executa a nova técnica, mas recomenda a seus colegas mais
jovens que a aprendam. "Ou então podem fechar o consultório",
costuma dizer. No hospital que dirige, as cirurgias laparoscópicas
do aparelho digestivo já passaram para trás as convencionais.
Hoje são maioria.
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Diários
do pós-operatório
Elielze
Saviano e Oneida dos Santos tiveram de tirar o útero
por causa de miomas, um tipo de tumor benigno. A cirurgia
de Elielze foi feita com cânulas introduzidas por pequenos
cortes e a de Oneida, pelo método convencional.
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Fotos Claudio Rossi
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Oneida: cirurgia tradicional
Internação:
dezesseis horas antes da operação
Horário
da cirurgia: 9 horas
Cinco
horas depois da cirurgia: "Estou na UTI com
soro na veia e sonda urinária; sinto muita
dor no corte e lá dentro"
À
noite: "Dormi mal"
Dia
seguinte: "Fui para o quarto; as dores já não
são
tão fortes. Ando com dificuldade. À tarde,
tiraram
o soro. Comi um pouco. Dói"
Quarto
dia: "Tiraram a sonda; fui para casa, graças a Deus"
Sétimo
dia: "Passo o dia sentada, senão, dói. Minha
barriga
ainda está inchada por causa dos pontos"
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Elielze:
nova técnica
Internação:
duas horas antes da cirurgia
Horário
da cirurgia: 15 horas
Cinco
horas depois da cirurgia: "Acordei com fome, sem dor mas
com um pouco de enjôo"
À
noite: "Tomei chá, comi biscoito e queijo, depois
dormi"
Dia
seguinte: "Recebi alta às 7h30, tomei café
e fui
para casa. À tarde, fui fazer supermercado,
com
meu marido dirigindo o carro"
"Sinto certo desconforto por causa de
gases, mas não tenho dor"
Sétimo
dia: "É como se eu não tivesse passado
por
uma cirurgia"
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