Receita de
aiatolá
Religiosos
na Turquia e na Espanha aconselham o
uso da violência para manter as esposas submissas
Jorge Rosenberg

Mulher
na Turquia: conflito
entre o Estado
moderno e a
lei islâmica |
O marido pode bater na mulher? A pergunta soa absurda e a resposta
é óbvia para a maioria das pessoas. Para os muçulmanos,
no entanto, a questão ainda se coloca. Na Turquia e na Espanha
acabam de ser publicados dois livretos com a assinatura de respeitáveis
religiosos islâmicos, nos quais o "espancamento coercivo"
das mulheres é explicitamente recomendado. Se saíssem
à luz apenas em países onde o islã domina também
o aparelho de Estado, as publicações passariam despercebidas.
Como circularam em países democráticos e mais modernos,
os guias para amansar mulher despertaram forte reação.
Mesmo na Turquia, um país onde 99% da população
é muçulmana, mas Estado e religião estão
oficialmente separados, os conselhos dos aiatolás foram recebidos
com indignação. "O livro dá uma interpretação
equivocada das palavras do profeta Maomé", disse Sema Piskinsut,
deputada que preside a comissão de direitos humanos do Parlamento.
"É ultrajante que tal livro tenha sido publicado com dinheiro
público originário de impostos pagos também
pelas mulheres", esbravejou Zuhal Kilic, que preside uma ONG feminista.
O
livreto turco, intitulado Guia do Muçulmano, foi publicado
por uma fundação ligada ao governo. Na publicação,
o clérigo Kemal Guran orienta os maridos a bater nas mulheres
quando elas forem teimosas, contanto que não o façam
com muita força e que evitem machucá-las. Não
se deve atingir os seios, o estômago ou o rosto, ensina a
obra. Em caso de doença da mulher, quando ela não
puder cumprir com suas obrigações domésticas,
o homem pode arrumar uma segunda esposa se não tiver dinheiro
suficiente para pagar uma empregada. Guran fundamenta o direito
masculino à pancada com a afirmação de que
"os homens são naturalmente superiores às mulheres".
Os
conselhos de Guran chegam num momento em que a Turquia se esforça
para adotar uma interpretação moderna do islã.
O mais democrático país muçulmano, com boa
parte de seu território no oeste asiático e 3% dele
no sudeste europeu, vem pleiteando sua entrada na União Européia
para aproveitar a maré de prosperidade que já trouxe
benefícios à vizinha Grécia. Uma das exigências
para aderir ao pacto europeu é o estrito respeito aos direitos
humanos. As denúncias freqüentes de tortura nas prisões
turcas, a perseguição aos curdos e a discriminação
contra as mulheres são entraves sérios à pretensão
turca. Fundador da Turquia moderna, Mustafa Kemal, o Ataturk, em
1923, separou radicalmente a mesquita do Estado. Entre as medidas
impostas por ele para tentar arrancar o país da servidão
religiosa estava o incentivo ao uso de roupas ocidentais e do alfabeto
latino. O atual governo quer manter essas inovações
a todo o custo, embora boa parte da população prefira
seguir os costumes tradicionais. O uso do véu pelas mulheres
ressurgiu com força na última década.
O
hábito da exclusão das mulheres é tão
arraigado que intérpretes radicais do Corão
estão se sentindo à vontade para pregar seu obscurantismo
mesmo em países onde os muçulmanos são minoria.
Livreto semelhante ao do clérigo turco foi publicado pelo
imã Mohamed Kamal Mostafa, que dirige a mesquita da cidade
de Fuengirola, no sul da Espanha. Nele, o imã recomenda a
greve de sexo para castigar mulheres malcomportadas e ensina a bater
sem deixar marcas no corpo da vítima. O livro lhe rendeu
um processo por incitação à violência.
No mundo civilizado é assim, na Justiça, que se tenta
resolver problemas desse tipo.
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