Entrevista: Harrison Ford

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"Não sou vaidoso"

Astro de cifras bilionárias e modelo de beleza,
ele jura não ligar para a aparência. Mas garante estar em forma para mais um Indiana Jones

Isabela Boscov

 
"Quero que meus filmes sejam vistos por muita gente. Esse é o meu ramo: entretenimento. É um serviço de utilidade pública"

Parece coisa de Indiana Jones. No dia 31 de julho, a estudante americana Sarah George, de 20 anos, enfrentou uma barra-pesada no alto das montanhas do Estado de Idaho. Exausta e desidratada, terminou sua escalada a bordo de um helicóptero de resgate. Ela só prestou atenção ao piloto quando o enfermeiro que a atendia deixou escapar a identidade do comandante: era Harrison Ford. "Não acredito que vomitei no helicóptero dele", relembra uma consternada Sarah. É mais fácil encontrar Ford numa situação inusitada como essa que numa platéia de cinema. O astro de 58 anos, que tem mais de 5 bilhões de dólares em bilheteria atrelados ao seu nome, é avesso ao papel de espectador. Tanto que não costuma ver nem os próprios filmes. "Só serviria para duas coisas: procurar erros ou tentar repetir acertos. Nenhuma delas me interessa", diz. Ex-estudante de filosofia, ex-carpinteiro e atual piloto de aviões, helicópteros e motocicletas, Ford também encara com relutância sua condição de celebridade. Quando não está em Nova York, onde mora durante o ano letivo, refugia-se em seu rancho no Estado de Wyoming, em companhia da segunda mulher, a roteirista Melissa Mathison, e dos dois filhos menores, de 13 e 10 anos (o ator tem outros dois filhos, do primeiro casamento, o mais velho com 33 anos). "No Wyoming, ninguém lembra que sou famoso", justifica. Ford falou a VEJA por telefone, de Nova York, na única circunstância em que costuma se render a esse tipo de contato: o lançamento de um filme. No caso, o suspense Revelação, que estréia no Brasil em 7 de setembro.

Veja – O senhor decidiu estrelar o quarto episódio de Indiana Jones. Aos 58 anos, ainda dá para interpretar o papel do arqueólogo aventureiro?
Ford – Acho que você deveria preocupar-se com Sean Connery, não comigo. Ele também participará desse quarto episódio, e é mais velho do que eu. Seja como for, não costumo fazer cenas perigosas. Essa é uma tarefa para os dublês. Mas estou em boa forma o suficiente para correr, pular e rolar.

Veja – A idéia de envelhecer não o preocupa do ponto de vista profissional?
Ford – Não, porque não tenho me dedicado só a filmes de correria. Faço dramas, romances e comédias, em que a questão da idade não tem importância. Aliás, é bom esclarecer que fitas como Força Aérea Um e as da série Indiana Jones não são de ação – elas simplesmente exigem uma boa dose de interpretação física, para usar um termo mais exato. Os filmes de ação não me atraem como espectador, quanto mais como ator. E acredito que também o público está se cansando de heróis que mais parecem biônicos.

Veja – Mas o senhor freqüentemente vive papéis de heróis, se não biônicos, resistentes além da imaginação.
Ford – Sim, mas tento, digamos, complicar esses personagens. Fazer com que tenham uma dimensão emocional, com que sofram e sejam vulneráveis. Caso contrário, como alguém poderia se identificar com eles?

Veja – Em seu último filme, Revelação, o senhor interpreta um marido infiel. Por que é tão raro que o público o veja na pele de personagens marcadamente negativos?
Ford – Desde que minha carreira deslanchou, sempre tive a sorte de ser convidado a interpretar o papel principal. Acontece que no cinema americano dificilmente o vilão da história é o protagonista. Mas vários dos personagens que vivi têm traços negativos ou antipáticos, e nunca me furtei a eles. Pelo contrário. Não há pesadelo pior do que interpretar a vida toda o mesmo papel.

Veja – Quando a revista People o elegeu o homem mais sexy do mundo, o texto descrevia a cicatriz que o senhor tem no queixo como "encantadora". Como o senhor ganhou essa cicatriz?
Ford – Eu tinha uns 21 anos e trabalhava como entregador de uma loja de departamentos. Certo dia, apressado, enfiei a cara num poste e machuquei o rosto. Essa é a história da cicatriz. Quanto ao fato de a chamarem de "encantadora"... Bem, a esta altura, nada mais do que escrevem a meu respeito é capaz de me espantar. Até já aprendi a achar graça nesse tipo de coisa.

Veja – Naquela ocasião, o senhor disse que mantém uma relação distante com o espelho. Isso não é impossível para um ator?
Ford – Por força da profissão, sou obrigado a me manter razoavelmente em forma. Essa é toda a atenção que dou ao assunto. Sou vaidoso, mas não no que se refere à minha aparência.

Veja – O que desperta a sua vaidade?
Ford – O meu trabalho. O que me dá satisfação é sentir que consegui chegar até o público, é o envolvimento com a equipe técnica e o elenco durante as filmagens. Gosto de viver no meio de um monte de gente.

Veja – Por que o senhor não faz teatro?
Ford – Fazer a mesma coisa noite após noite? Humm... Pode até ser que isso realmente aprimore a interpretação, mas acho parecido demais com um emprego comum, daqueles em que se bate cartão.

Veja – E quanto a atuar em filmes independentes?
Ford – Em tese, a idéia me atrai. Mas veja: decidi que não faria mais de um filme por ano. Então, quando saio de casa para trabalhar, gosto de imaginar que a fita na qual estou atuando causará impacto e será vista por alguns milhões de pessoas, e não apenas por uns poucos cinéfilos. Não acho certo fazer alguém investir seu dinheiro num filme que não será visto. Nem sempre dá certo, claro, mas parto desse princípio. Por isso escolho projetos que, calculo, entreterão a platéia. Esse é o meu ramo: entretenimento. É uma espécie de serviço de utilidade pública.

Veja – Por que o senhor resolveu que não fará mais de um filme por ano?
Ford – Principalmente por causa da minha família. Tento estar disponível para os meus filhos – mesmo que eles não me queiram por perto. Sabe como é: os que ainda moram comigo têm agora 13 e 10 anos. Estão entrando na adolescência, às voltas com a escola, os amigos, seus próprios interesses. Eles não ficam exatamente loucos de felicidade em ter o pai ao alcance da vista. Mas, quer queiram, quer não, faço questão de estar a postos. Exceto quando, como qualquer mortal, eu chego àquele ponto em que também não os aturo mais.

Veja – É por causa dos filhos que o senhor mora durante parte do ano em Nova York?
Ford – É. Passamos o período escolar na cidade. No resto do tempo, nos recolhemos à tranqüilidade do interior do Estado de Wyoming.

Veja – Nova York é uma cidade mais confortável para uma pessoa famosa do que Los Angeles?
Ford – Apesar das aparências, ela é uma cidade mais complicada para as celebridades do que Los Angeles. Em Los Angeles, anda-se de carro. Em Nova York, faz-se quase tudo a pé. Eu mesmo vejo muito mais pessoas famosas em Manhattan do que na Califórnia.

Veja – O senhor não gosta de ser uma celebridade, não é?
Ford – A meu ver, a celebridade é a pústula que acompanha o sucesso.

Veja – O que o senhor faz para escapar ao assédio dos fãs e dos paparazzi?
Ford – Não há nada que adiante. Nada. Tudo o que se pode fazer é andar de cabeça baixa e evitar ao máximo chamar a atenção sobre si, seja pelas roupas, seja pelo comportamento. É o que eu faço. Cravo os olhos no chão e sigo em frente.

Veja – Como a sua família reage a essa pressão?
Ford – Para os meus filhos, é um peso ter um pai famoso. Eles têm ciúme do tempo que tenho de dedicar a pessoas estranhas, ficam irritados com o assédio e também se sentem invadidos. Acho que eles prefeririam que eu não fosse célebre.

Veja – Em Revelação, a personagem vivida por Michelle Pfeiffer se sente perdida e enfrenta sérias perturbações emocionais quando sua filha sai de casa. Até acontecer o mesmo com seus filhos mais novos, o senhor terá passado mais de quarenta anos cuidando da prole. O senhor imagina que sentirá um vazio semelhante?
Ford – Não sou candidato a sofrer da "síndrome do ninho vazio". Perdão por dizê-lo, mas acho que essa é uma condição tipicamente feminina. Me lisonjeia que pensem que sou um pai tão dedicado que me sentirei deprimido quando meus filhos forem embora. Na realidade, encarei com muita tranqüilidade a saída de meus filhos mais velhos.

Veja – É verdade que os moradores da cidade de Jackson Hole, no Wyoming, se recusam a revelar o seu endereço a forasteiros?
Ford – Creio que a maioria deles realmente jamais revelaria o meu endereço. Moro lá com minha família há vinte anos. A essa altura, já deixei de ser um astro para os vizinhos.

Veja – O senhor considera esses períodos de anonimato um alívio?
Ford – Justiça seja feita, não é o único lugar onde tenho a chance de me sentir um cidadão comum. O mesmo ocorre na cabine de um avião. Por isso gosto tanto de voar: entre os outros pilotos, nos aeroclubes, sou um sujeito como outro qualquer.

Veja – O senhor fez duas aterrissagens forçadas em menos de um ano. Isso não o deixa com medo de seguir pilotando seus aviões?
Ford – Não, de forma alguma. No primeiro caso, eu estava pilotando um helicóptero com meu instrutor e tivemos um problema técnico. Destruí o aparelho, ao aterrissar, mas em nenhum momento perdemos o controle sobre ele. Saímos ilesos. No segundo caso, há poucas semanas, fui pego por uma forte corrente de vento lateral quando me aproximava da pista com meu avião. Uma das asas ficou danificada, mas, novamente, não tive um arranhão. Para se ter uma idéia, o conserto ficou em 9.000 dólares. Na escala de custos de um avião, não é nada, embora seja uma quantia vultosa por qualquer outro padrão. Pelas normas das autoridades de aviação dos Estados Unidos, o termo correto para o que aconteceu nas duas ocasiões é "incidente", e não "acidente". Ou seja, não merece nem registro oficial. Se eu não fosse uma pessoa conhecida, ninguém além da minha família teria ficado sabendo.

Veja – O senhor pilotaria um avião num filme?
Ford – Já fiz isso, em Seis Dias, Sete Noites – só para desmentir a afirmação de que sempre recorro a dublês. Isso deixa meu seguro de vida bem mais caro do que o habitual, mas vale a pena. Também gostei muito de pilotar um aviãozinho sobre o Pantanal Mato-Grossense, em minha última visita ao Brasil. Gosto de aviões pequenos e de pistas de terra. Condições mais difíceis são bons desafios.

Veja – O senhor é um ambientalista engajado, mas nunca concordou em atuar como porta-voz de uma organização. Por quê?
Ford – Vivemos numa sociedade que já se preocupa demais com as celebridades. Portanto, não acho saudável que um cidadão escolha apoiar ou combater uma causa baseado no fato de que uma pessoa famosa faz alarde dela. Pode até ser a escolha certa, mas será pelas razões erradas. A não ser que eu tenha algo a vender, como um filme, não estou disponível para a imprensa. Por isso, em questões ambientais, prefiro trabalhar nos bastidores. Tenho muito orgulho do meu trabalho com a Conservation International. Acabamos de formar, juntamente com o Banco Mundial, o maior fundo já destinado à preservação ambiental. Ao todo, ele soma 150 milhões de dólares, a ser distribuídos por 25 regiões de grande biodiversidade no planeta. E entre essas regiões contam-se áreas no Brasil, naturalmente.

Veja – Há mais de duas décadas, o senhor é um dos atores mais populares junto ao público jovem. Com tantos nomes surgindo a cada ano, a que o senhor atribui esse fato?
Ford – Pura sorte.

Veja – Só?
Ford – Só.

Veja – De Steven Spielberg a Roman Polanski, o senhor já colaborou com muitos dos grandes diretores. Três ausências, no entanto, chamam a atenção: Francis Ford Coppola – para quem o senhor fez apenas um minúsculo papel, em Apocalypse Now –, Martin Scorsese e Woody Allen. O senhor não ambiciona trabalhar com eles?
Ford – Certa vez recebi um convite para trabalhar com Woody Allen, mas, para dizer a verdade, nem me lembro por que não deu certo. Também já estive em negociações com Scorsese, anos atrás, quando ele se preparava para rodar Cabo do Medo. Como nessa época ainda não nos conhecíamos pessoalmente, ele pediu a Robert De Niro que me ligasse. Mas eu disse a De Niro que o único personagem que me interessava era o que ele próprio iria interpretar, o do ex-presidiário que quer se vingar a qualquer custo de seu advogado. Aí, como se pode imaginar, não havia solução mesmo. E, quanto a Apocalypse Now, preferi ficar com o menor papel que havia no roteiro. A razão é simples: Coppola convocava os atores para filmar nas Filipinas durante duas semanas e eles simplesmente não conseguiam mais se desvencilhar do trabalho. Houve gente que ficou por lá seis meses além do previsto. Pessoalmente, eu não estava a fim de embarcar numa loucura dessas.

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