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Edição 2071

30 de julho de 2008
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Economia
Além do choro

É fácil condenar o aumento dos juros pelo Banco
Central. Difícil mesmo é cortar os gastos públicos


Giuliano Guandalini

Wilson Pedrosa/AE
"Se alguém imagina que a inflação vai voltar, como já aconteceu no Brasil, pode tirar o cavalo da chuva, porque ela não vai voltar. Tomaremos todas as medidas que forem necessárias para manter a inflação controlada"
Presidente Lula, na quarta-feira passada, dando o seu aval para o aumento dos juros

O sistema de metas de inflação, utilizado pelo Brasil desde 1999, tem como alicerce a credibilidade do Banco Central (BC). Se o BC não cumpre sua missão de manter o índice de reajuste de preços ao redor do alvo definido pelo governo, sua autoridade cai em descrédito – arriscando desencadear a onda de remarcações na economia. Para que isso não ocorra, sempre que os preços sobem acima do estabelecido, o BC utiliza o seu principal instrumento, a taxa de juro, para diminuir o dinheiro em circulação, conter a expansão do crédito e, assim, evitar que a espiral inflacionária desperte. É essa a lógica que baliza as decisões do BC – que, na semana passada, elevou a sua taxa básica, a Selic, para 13% ao ano. Como de costume, a medida motivou críticas e choro de todos os lados. Os que condenam o aumento dos juros, no entanto, nem sempre se lembram de que o estado brasileiro insiste em não caber dentro do PIB. Enquanto a torneira dos gastos públicos não for estancada, inundando a economia com mais reais do que ela é capaz de metabolizar, o BC se verá na obrigação de acionar sua única e, às vezes, perversa arma de aumentar o custo do dinheiro para esfriar a atividade econômica.

Nos últimos quatro anos, os gastos do governo federal avançaram 38%, já descontada a inflação. Para financiar esse aumento estrondoso nas despesas, a arrecadação tributária engordou ainda mais – 40% (veja o quadro). Enquanto isso, o PIB (produto interno bruto, soma de mercadorias e serviços produzidos pelo país) aumentou apenas 20% entre 2003 e 2007. Esse descompasso, em termos simples, significa que o estado brasileiro abocanhou para si uma fatia maior do bolo da economia, sugando o dinheiro que poderia ser mais bem gasto pelas famílias e pelas empresas. Em 2008 a situação deverá se manter inalterada. A contenção de gastos anunciada pelo governo é inferior ao aumento de arrecadação. Ao mesmo tempo, os bancos públicos também mantêm abertas as suas torneiras do crédito barato. Nos últimos doze meses, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) ampliou em 25% os seus desembolsos. É muito dinheiro despejado na economia em um momento em que a inflação volta a assombrar o Brasil e o mundo. O excesso de liquidez sem a contrapartida da oferta é o alimento preferido do dragão da inflação.

A boa notícia é que o presidente Lula tem reafirmado o seu compromisso em não deixar que o aumento dos preços e a indexação voltem a atormentar a vida dos brasileiros. Na semana passada, ele lembrou mais uma vez que sofreu na pele, nos tempos de sindicalista, o drama da hiperinflação e afirmou que "pode tirar o cavalo da chuva" quem imagina que o país voltará a conviver com a inflação. O discurso, porém, não basta. A iniciativa mais óbvia do governo seria aproveitar os ganhos de arrecadação tributária para aumentar a poupança do país, em vez de torrar tudo criando novas despesas. O governo poderia, por exemplo, diminuir o ritmo de contratação de funcionários públicos – desde 2003, o funcionalismo foi inchado em 200 000 servidores. Por fim, seria útil também se fosse aprovada uma lei que concedesse autonomia ao Banco Central. Protegido de ingerências políticas, o BC teria um súbito aumento de credibilidade, podendo combater a doença da inflação com doses menores e mais eficazes do veneno do juro alto.


 
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