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Ponto
de vista: Claudio
de Moura Castro
Os pobres nos
cursos técnicos
"Comemoremos
a chegada da classe operária
às escolas técnicas. Mas nos preocupemos com
as políticas elitistas disfarçadas que, ao prometer
uma miragem, acabam não oferecendo nada"
Um
levantamento da Fundação Paula Souza, responsável
por mais de 100 escolas técnicas, mostra que os alunos dos
cursos técnicos do Estado de São Paulo são
muito mais pobres hoje que em 1995. Desastre? Será essa a
causa da Portaria nº 1732 do MEC (4 de julho de 2003), interrompendo
inexplicavelmente as autorizações para abertura de
cursos de tecnólogo?
Temos
um vício de perspectiva. Sempre pensamos que quanto mais
pobre pior. Mas em educação costuma ser o oposto.
Quanto mais pobres houver, mais bem servidas serão as metas
de eqüidade.
Ilustração Ale Setti
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Tradicionalmente, o ensino técnico sofria a distorção
do tipo "se correr o bicho pega, se ficar o bicho come". Quanto
mais esforço havia para melhorar as escolas, menos eficaz
ela se tornava em preparar profissionais e mais elitizada era a
sua clientela. Isso porque, quanto melhor é o ensino, mais
existem pimpolhos das elites buscando uma educação
gratuita e de qualidade para prepará-los para os vestibulares
mais competitivos. Uma pesquisa mostrou que havia uma escola técnica
federal dentre as dez que melhor preparavam os alunos para os cursos
mais competitivos de São Paulo, incluindo o de direito da
USP. De fato, quanto melhor o curso, menos profissionalizava, pela
presença maciça dos vestibulandos de classe alta,
competindo ferozmente pelas poucas vagas.
Com
a reforma do ensino técnico que separou a parte profissional
da acadêmica, só vai hoje para o curso técnico
quem está realmente interessado em uma profissão.
O desinteresse das elites pelo lado profissional abre vagas para
os mais pobres, que antes não conseguiam competir (em "vestibulinhos"
com mais de dez candidatos por vaga).
Dados
recentes da Paula Souza documentam de forma indisputável
a troca de perfil dos alunos. Aqueles com renda familiar de até
cinco salários mínimos passaram de 32% para 57%. Ou
seja, praticamente dobrou a proporção de alunos de
origem muito modesta, legitimamente interessados nos cursos profissionais
oferecidos. Eis um feito a ser comemorado. Acendamos foguetes e
rojões para sua entrada no ensino técnico, ainda que
tardia. Já os de onze a vinte salários caíram
de 21% para 8% e a faixa de 21 a trinta salários passou de
5% para 1%.
Mas,
infelizmente, nem todos comemoram. Ainda há escolas que preferem
os alunos de origem social mais alta, por serem mais fáceis
de lidar. Para outros, ter clientelas mais modestas é perda
de status. Houve até manobras para manter o elitismo de alguns
cursos técnicos federais.
Os
Community Colleges americanos, que oferecem cursos equivalentes
ao nosso técnico e tecnólogo, têm orgulho de
lidar com clientelas mais difíceis e com menos base acadêmica.
Seu desafio é oferecer um ensino de qualidade ao grupo mais
pobre, dentre os que cursam o nível superior. Há quem
diga que a competitividade americana tem muito a ver com seu belo
trabalho de profissionalizar alunos com base acadêmica fraca.
Também
as nossas escolas técnicas estão descobrindo serem
os alunos do novo técnico mais motivados, dando maior satisfação
aos professores. Uma diretora de escola de Porto Alegre contou que
logo após a separação os professores mais qualificados
desdenhavam os alunos dos cursos profissionais. Mas acabaram preferindo
ensinar a eles, pois eram mais maduros e mais sérios.
Infelizmente,
o ensino técnico é vítima de intermináveis
diatribes ideológicas e doutrinárias, em que se discutem
autores defuntos, alguns mortos antes da implantação
da formação profissional nos países industrializados.
Não obstante, é bom lembrar que o mundo real é
o juiz supremo. Igualdade de oportunidades e maior democratização
do ensino não se decidem por pregações e papers
acadêmicos, mas indo às escolas e contando quantos
pobres havia antes e quantos há agora. Como fez Juruna, representante
da Força Sindical no Fórum Nacional (do ex-ministro
João Paulo dos Reis Velloso), comemoremos a chegada da classe
operária às escolas técnicas. Mas nos preocupemos
com as políticas elitistas disfarçadas que, ao prometer
uma miragem, acabam não oferecendo nada.
Claudio
de Moura Castro é economista
(claudiodmc@attglobal.net.)
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