Edição 1813 . 30 de julho de 2003

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Televisão
Improviso e riso

Um programa que mostra como os comediantes
americanos são talentosos e preparados


Marcelo Marthe

Divulgação
O elenco de Whose Line...: Drew (ao centro) joga a gasolina, os outros riscam o fósforo

O humorístico americano Whose Line Is It Anyway? – exibido pelo canal pago Sony aos sábados à meia-noite – é pautado por uma única regra: o improviso. Sem ensaio prévio, seus atores têm de criar piadas a partir das situações determinadas pelo apresentador do programa, o comediante Drew Carey, ou sugeridas pelo auditório. Eles são convocados, por exemplo, a inventar esquetes em torno de um serrote ou de um bichinho de borracha. Outra tarefa é compor músicas em homenagem a espectadores escolhidos aleatoriamente na platéia. A certa altura, Carey também pode pedir para que dois atores travem um diálogo – fajuto – em línguas como o alemão ou o chinês, enquanto uma hilariante tradução simultânea fica a cargo de um terceiro colega. Surgido em 1998, Whose Line Is It Anyway? é a versão americana de um programa inglês, que por sua vez se baseava numa atração de sucesso do rádio. Assim como o original, o cenário e os figurinos são para lá de despojados. Mas isso só realça sua maior qualidade: ser uma vitrine das habilidades de seus comediantes. Todos no elenco – os atores Wayne Brady, Ryan Stiles e Colin Mochrie, mais um convidado diferente a cada edição – são capazes de cantar, dançar, sapatear, fazer mímica e o que mais lhes for pedido.

Para fazer esse tipo de humor, é preciso antes de tudo muito talento – e isso os atores de Whose Line Is It Anyway? têm de sobra. Mas por trás desse desempenho impressionante estão também anos a fio de aperfeiçoamento técnico, em cursos voltados à formação de comediantes e treinamento prático. É uma realidade diferente daquela vivida pelos profissionais brasileiros do ramo. Por aqui, não há ensino de excelência específico para a profissão de comediante – os artistas são autodidatas, ex-integrantes de trupes circenses ou chegam à TV depois de passar, simplesmente, pelas oficinas de interpretação da Rede Globo. Nos Estados Unidos, onde existe a tradição da "stand-up comedy" – um tipo de show humorístico em que um ator enfrenta sozinho, na base do improviso, platéias nem sempre amistosas –, um comediante tem de aprender múltiplas habilidades. Tome-se o exemplo de Ryan Stiles. Ele se formou numa das mais concorridas escolas para comediantes, a Second City, com sede em Chicago e filiais em várias cidades. Mantido pela trupe teatral homônima, o curso é puxado: depois de estudar por um ano, os alunos enfrentam uma espécie de vestibular para brigar pelo direito de integrar o grupo por uma temporada. A cada ano, de cerca de 5 000 candidatos, pouco mais de uma dezena se habilita a se juntar aos experientes humoristas da Second City e aprender com eles na estrada.

É com uma formação sólida que um ator adquire repertório para encarar um programa como Whose Line Is It Anyway?. Para prender a atenção, os reis da stand-up comedy costumam disparar uma piada a cada duas frases. Só com muita técnica é possível fazer isso de improviso, sem correr o risco de dar branco diante da platéia. Por oferecer aos atores a chance de mostrar seu talento e seu repertório técnico, Whose Line Is It Anyway? tornou-se uma vitrine para artistas consagrados em busca de sua veia humorística perdida. Sempre que convidados a participar do programa, atores como Robin Williams e Whoopi Goldberg deixam de lado o que estão fazendo para voltar às raízes de comediante.

 
 
 
 
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