Edição 1813 . 30 de julho de 2003

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Cinema
Arnold não sai de cena

Com a carreira em declínio, o astro arma
sua candidatura ao governo da Califórnia


Isabela Boscov

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Storyboard - Seqüência do caçador
O conceito de arte das locações

A revista New Yorker pegou bem o espírito da coisa. Eis, relembra ela, o enredo de O Exterminador do Futuro 2 – O Julgamento Final, lançado em 1991: um exterminador vem do futuro para proteger John Connor, que está destinado a se tornar o líder da resistência humana contra o avanço das máquinas inteligentes. Sua missão é quase, mas não totalmente, frustrada pelos esforços vilanescos de um modelo superior de robô, o T-1000. Agora, eis o enredo de Exterminador do Futuro 3: A Rebelião das Máquinas (Terminator 3: Rise of the Machines, Estados Unidos, 2003), que estréia no país nesta sexta-feira: um exterminador vem do futuro para proteger John Connor, que está destinado a se tornar o líder da resistência humana contra o avanço das máquinas inteligentes. Sua missão é quase, mas não totalmente, frustrada pelos esforços vilanescos de um modelo superior de robô, o T-X. Ou seja, doze anos se passaram e nada mudou. A acrescentar a esse resumo, há só o fato de que o robô do mal desta vez é uma mulher (Kristanna Loken), e que o Exterminador é mais uma vez interpretado por Arnold Schwarzenegger – agora tentando reerguer uma carreira que guarda apenas vestígios do sucesso estrondoso das décadas de 80 e 90.

O declínio ainda não é visível no cachê do astro, que bateu nos 30 milhões de dólares nesta segunda continuação. Mas essa cifra é mais um reflexo da força da marca Exterminador do que do atual cacife do austríaco nas bilheterias. Seus três filmes anteriores – O Sexto Dia, Fim dos Dias e Efeito Colateral – renderam menos do que o esperado e receberam críticas pífias. Todos foram escolhidos pelo astro para demonstrar que uma cirurgia para substituição de duas válvulas cardíacas, em 1997, não havia afetado sua forma física. Mas todos os três acabaram servindo como argumento a favor da tese de que o astro, hoje com 56 anos, passou da idade de fazer filmes de ação, e que sua persona de grandalhão infalível já não cativa a platéia. Schwarzenegger, que nunca fez segredo sobre sua identificação com o ideal americano de conquistar sempre mais, está, portanto, numa encruzilhada. E a forma como ele pretende sair dela acaba de se misturar ao sismo político que a Califórnia vem atravessando.

Com altas taxas de desemprego, uma crise insolúvel de energia e um déficit de 38 bilhões de dólares, a Califórnia pode vir a assistir, até novembro, ao impeachment do governador Gray Davis e a uma nova corrida pelo posto. Desde já, Schwarzenegger desponta como candidato preferencial do Partido Republicano, que apóia desde que se tornou cidadão americano, em 1983. O astro preferiria esperar pela próxima eleição regular ao governo da Califórnia, e os republicanos têm objeções à visão social do austríaco, que em vários pontos lembra a do rival Partido Democrata. Há pouco, por exemplo, o ator foi ao Senado protestar contra o plano de George W. Bush de cortar as verbas para atividades complementares ao horário escolar. "Nossas crianças são nosso futuro, e ele estará comprometido todos os dias, entre as 3 e as 6 da tarde, quando elas estarão vagando pelas ruas sem supervisão. A tarefa de educar não acaba quando toca o sinal", disse ele, com surpreendente sensatez. Em que pesem essas diferenças, Schwarzenegger e o Partido Republicano são a melhor esperança um do outro. O astro precisa de uma nova carreira, e os republicanos necessitam de um candidato capaz de emplacar na Califórnia, onde os democratas costumam levar a melhor. Todos, claro, têm sempre um exemplo em mente: o do também ator (e também muito limitado como tal) e republicano Ronald Reagan, duas vezes governador da Califórnia e duas vezes presidente.

Restam poucas dúvidas de que a rota de Reagan é a que Schwarzenegger gostaria de seguir. Mas ele tem dois obstáculos a superar. O primeiro é que só cidadãos nascidos nos Estados Unidos podem concorrer à Presidência – e já há congressistas preparando emendas que tornariam elegíveis os naturalizados há mais de vinte anos. O segundo empecilho é que não existe campanha eleitoral sem lavação de roupa suja, e especula-se que a do astro tenha nódoas renitentes. Para todos os efeitos, ele é um cidadão exemplar. Mantém instituições de caridade, foi ao Iraque incitar as tropas e diz que adora pagar impostos. Também é casado desde 1986 com a jornalista Maria Shriver, sobrinha dos Kennedy, com quem tem quatro filhos e com quem, diz ele, as divergências políticas – ela é, claro, democrata – são resolvidas com conversa e humor.

Ocasionalmente, porém, pipocam na mídia outras versões do mito. Várias vezes já se falou sobre ligações entre o austríaco e o movimento nazista. Em todas elas, ele moveu ações judiciais e saiu vitorioso. Mais barulhenta ainda foi uma matéria publicada em 2001 pela revista Premiere, na qual se afirmava que o astro é um bárbaro com as mulheres. Além de comentários maliciosos, suas predileções incluiriam enfiar as mãos por dentro da blusa de moças com belas formas, sejam elas atrizes, produtoras ou jornalistas. Segundo a Premiere, esses relatos não vinham à tona por causa do poder de Schwarzenegger em Hollywood e das centenas de empregos diretos e indiretos gerados por seus filmes. A matéria provocou uma enxurrada de cartas assinadas por amigos ilustres do austríaco – como o diretor James Cameron e as atrizes Sharon Stone, Jamie Lee Curtis e Linda Hamilton. Todas manifestavam indignação contra o que seria um amontoado de mentiras. "Sinto-me ofendida por sua afirmação de que Arnold é algo menos que um profissional e um cavalheiro espetacular", escreveu Sharon. Resta saber se, alçado a um cargo político, ele encontraria tantos defensores.

 

PRIMEIRO E ÚNICO

Uma das muitas elucubrações da crítica sobre o primeiro O Exterminador do Futuro diz que o filme de 1984 é, na verdade, uma alegoria religiosa. Reese, o soldado que vem do futuro proteger a jovem Sarah Connor do Exterminador, seria o anjo Gabriel, trazendo a boa nova – e a concepção – a Maria. O filho dela, predestinado a ser o salvador da humanidade, se chamaria John Connor não por acaso, mas por ter as mesmas iniciais de Jesus Cristo. É até possível que o diretor James Cameron (aliás, outro J.C.) tenha tratado de reforçar essas coincidências em seu roteiro. Mas sua idéia, desde o início, era fazer o filme de robô definitivo – uma ambição e tanto para alguém que tinha apenas 4,5 milhões de dólares de orçamento e uma bomba como Piranha 2 no currículo. Passados dezenove anos, contudo, ninguém ainda superou Cameron nesse território. Nem ele próprio: com todo o brilhantismo técnico, o ritmo e a fluência de O Exterminador do Futuro 2, a continuação de 1991 perde para o original na capacidade de perturbar. O homem como agente e vítima da sua tecnologia – filmar maquinário pesado é algo que Cameron faz com inspiração sem rival – e a conseqüente impessoalidade do mal que se abate sobre ele são os grandes temas da obra do diretor. Para vê-los em seu estado mais concentrado, porém, o endereço certo ainda é o primeiro – e, a rigor, único – Exterminador, que está sendo relançado em DVD duplo.

 

 
 
 
 
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