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Cinema
Arnold
não sai de cena
Com
a carreira em declínio, o astro arma
sua candidatura ao governo da Califórnia

Isabela
Boscov
A revista
New Yorker pegou bem o espírito da coisa. Eis, relembra
ela, o enredo de O Exterminador do Futuro 2 O Julgamento
Final, lançado em 1991: um exterminador vem do futuro
para proteger John Connor, que está destinado a se tornar
o líder da resistência humana contra o avanço
das máquinas inteligentes. Sua missão é quase,
mas não totalmente, frustrada pelos esforços vilanescos
de um modelo superior de robô, o T-1000. Agora, eis o enredo
de Exterminador do Futuro 3: A Rebelião das Máquinas
(Terminator 3: Rise of the Machines, Estados Unidos,
2003), que estréia no país nesta sexta-feira: um exterminador
vem do futuro para proteger John Connor, que está destinado
a se tornar o líder da resistência humana contra o
avanço das máquinas inteligentes. Sua missão
é quase, mas não totalmente, frustrada pelos esforços
vilanescos de um modelo superior de robô, o T-X. Ou seja,
doze anos se passaram e nada mudou. A acrescentar a esse resumo,
há só o fato de que o robô do mal desta vez
é uma mulher (Kristanna Loken), e que o Exterminador é
mais uma vez interpretado por Arnold Schwarzenegger agora
tentando reerguer uma carreira que guarda apenas vestígios
do sucesso estrondoso das décadas de 80 e 90.
O
declínio ainda não é visível no cachê
do astro, que bateu nos 30 milhões de dólares nesta
segunda continuação. Mas essa cifra é mais
um reflexo da força da marca Exterminador do que do
atual cacife do austríaco nas bilheterias. Seus três
filmes anteriores O Sexto Dia, Fim dos Dias e Efeito
Colateral renderam menos do que o esperado e receberam
críticas pífias. Todos foram escolhidos pelo astro
para demonstrar que uma cirurgia para substituição
de duas válvulas cardíacas, em 1997, não havia
afetado sua forma física. Mas todos os três acabaram
servindo como argumento a favor da tese de que o astro, hoje com
56 anos, passou da idade de fazer filmes de ação,
e que sua persona de grandalhão infalível já
não cativa a platéia. Schwarzenegger, que nunca fez
segredo sobre sua identificação com o ideal americano
de conquistar sempre mais, está, portanto, numa encruzilhada.
E a forma como ele pretende sair dela acaba de se misturar ao sismo
político que a Califórnia vem atravessando.
Com
altas taxas de desemprego, uma crise insolúvel de energia
e um déficit de 38 bilhões de dólares, a Califórnia
pode vir a assistir, até novembro, ao impeachment do governador
Gray Davis e a uma nova corrida pelo posto. Desde já, Schwarzenegger
desponta como candidato preferencial do Partido Republicano, que
apóia desde que se tornou cidadão americano, em 1983.
O astro preferiria esperar pela próxima eleição
regular ao governo da Califórnia, e os republicanos têm
objeções à visão social do austríaco,
que em vários pontos lembra a do rival Partido Democrata.
Há pouco, por exemplo, o ator foi ao Senado protestar contra
o plano de George W. Bush de cortar as verbas para atividades complementares
ao horário escolar. "Nossas crianças são nosso
futuro, e ele estará comprometido todos os dias, entre as
3 e as 6 da tarde, quando elas estarão vagando pelas ruas
sem supervisão. A tarefa de educar não acaba quando
toca o sinal", disse ele, com surpreendente sensatez. Em que pesem
essas diferenças, Schwarzenegger e o Partido Republicano
são a melhor esperança um do outro. O astro precisa
de uma nova carreira, e os republicanos necessitam de um candidato
capaz de emplacar na Califórnia, onde os democratas costumam
levar a melhor. Todos, claro, têm sempre um exemplo em mente:
o do também ator (e também muito limitado como tal)
e republicano Ronald Reagan, duas vezes governador da Califórnia
e duas vezes presidente.
Restam
poucas dúvidas de que a rota de Reagan é a que Schwarzenegger
gostaria de seguir. Mas ele tem dois obstáculos a superar.
O primeiro é que só cidadãos nascidos nos Estados
Unidos podem concorrer à Presidência e já
há congressistas preparando emendas que tornariam elegíveis
os naturalizados há mais de vinte anos. O segundo empecilho
é que não existe campanha eleitoral sem lavação
de roupa suja, e especula-se que a do astro tenha nódoas
renitentes. Para todos os efeitos, ele é um cidadão
exemplar. Mantém instituições de caridade,
foi ao Iraque incitar as tropas e diz que adora pagar impostos.
Também é casado desde 1986 com a jornalista Maria
Shriver, sobrinha dos Kennedy, com quem tem quatro filhos e com
quem, diz ele, as divergências políticas ela
é, claro, democrata são resolvidas com conversa
e humor.
Ocasionalmente,
porém, pipocam na mídia outras versões do mito.
Várias vezes já se falou sobre ligações
entre o austríaco e o movimento nazista. Em todas elas, ele
moveu ações judiciais e saiu vitorioso. Mais barulhenta
ainda foi uma matéria publicada em 2001 pela revista Premiere,
na qual se afirmava que o astro é um bárbaro com
as mulheres. Além de comentários maliciosos, suas
predileções incluiriam enfiar as mãos por dentro
da blusa de moças com belas formas, sejam elas atrizes, produtoras
ou jornalistas. Segundo a Premiere, esses relatos não
vinham à tona por causa do poder de Schwarzenegger em Hollywood
e das centenas de empregos diretos e indiretos gerados por seus
filmes. A matéria provocou uma enxurrada de cartas assinadas
por amigos ilustres do austríaco como o diretor James
Cameron e as atrizes Sharon Stone, Jamie Lee Curtis e Linda Hamilton.
Todas manifestavam indignação contra o que seria um
amontoado de mentiras. "Sinto-me ofendida por sua afirmação
de que Arnold é algo menos que um profissional e um cavalheiro
espetacular", escreveu Sharon. Resta saber se, alçado a um
cargo político, ele encontraria tantos defensores.
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PRIMEIRO
E ÚNICO
Uma das muitas elucubrações da crítica
sobre o primeiro O Exterminador do Futuro diz
que o filme de 1984 é, na verdade, uma alegoria
religiosa. Reese, o soldado que vem do futuro proteger
a jovem Sarah Connor do Exterminador, seria o anjo Gabriel,
trazendo a boa nova e a concepção
a Maria. O filho dela, predestinado a ser o salvador
da humanidade, se chamaria John Connor não por
acaso, mas por ter as mesmas iniciais de Jesus Cristo.
É até possível que o diretor James
Cameron (aliás, outro J.C.) tenha tratado de
reforçar essas coincidências em seu roteiro.
Mas sua idéia, desde o início, era fazer
o filme de robô definitivo uma ambição
e tanto para alguém que tinha apenas 4,5 milhões
de dólares de orçamento e uma bomba como
Piranha 2 no currículo. Passados dezenove
anos, contudo, ninguém ainda superou Cameron
nesse território. Nem ele próprio: com
todo o brilhantismo técnico, o ritmo e a fluência
de O Exterminador do Futuro 2, a continuação
de 1991 perde para o original na capacidade de perturbar.
O homem como agente e vítima da sua tecnologia
filmar maquinário pesado é algo
que Cameron faz com inspiração sem rival
e a conseqüente impessoalidade do mal que
se abate sobre ele são os grandes temas da obra
do diretor. Para vê-los em seu estado mais concentrado,
porém, o endereço certo ainda é
o primeiro e, a rigor, único Exterminador,
que está sendo relançado em DVD duplo.
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