|
|
Livros
De
corpo e alma
O
inglês Anthony Burgess traz William Shakespeare à vida num romance
delicioso

Jerônimo
Teixeira
William
Shakespeare deixou sua segunda melhor cama como herança para
a mulher. Essa curiosa disposição testamentária
tem intrigado estudiosos e biógrafos. Afinal de contas, Anne
Hathaway agüentou vinte anos de separação, cuidando
dos filhos do casal em Stratford enquanto o marido fazia fortuna
em Londres. Essa abnegada mulher não mereceria ter ficado
ao menos com a melhor cama? O escritor inglês Anthony Burgess
(1917-1993) tem uma explicação (ficcional, mas convincente,
como uma boa fofoca) para o ressentimento póstumo do poeta:
em uma cena culminante do romance Nada Como o Sol
(tradução de Paulo Reis; Ediouro; 254 páginas;
32 reais), Shakespeare surpreende seu irmão Richard e Anne
no quarto. Nus e agarrados como Romeu e Julieta. Esposa adúltera
e irmão traidor refestelavam-se sobre a tal segunda melhor
cama.
Só agora traduzido no Brasil, Nada Como o Sol foi
lançado em 1964, dois anos depois do mais conhecido (graças
à adaptação cinematográfica de Stanley
Kubrick) Laranja Mecânica. Burgess armou uma brilhante
especulação sobre as raízes criativas do teatro
de Shakespeare. O romance acompanha a vida do bardo de sua adolescência
em Stratford até a construção do legendário
Teatro Globe, no início do século XVII. Depois, há
um corte súbito para o epílogo, a morte do poeta,
em 1616. Burgess não mostra o personagem nos anos em que
ele compôs suas obras máximas. Mas sua formação
está toda lá, e isso é mais do que suficiente
para convencer o leitor de que aquele adolescente seria capaz de,
anos mais tarde, escrever obras do calibre de Hamlet, Macbeth
e Rei Lear.
As aventuras eróticas do jovem poeta ocupam grande parte
da narrativa. A idéia de que Shakespeare foi traído
pelo próprio irmão, aliás, não é
original. Em Ulisses, James Joyce fez seu alter ego Stephen
Dedalus expor essa escandalosa teoria biográfica para uma
seleta e embasbacada platéia de intelectuais reunidos na
biblioteca de Dublin. Joyciano devoto, Burgess amplia e desenvolve
a idéia do autor irlandês, mas não se limita
aos acontecimentos da provinciana Stratford. As aventuras londrinas
de Shakespeare em Nada Como o Sol incluem uma relação
homossexual com o Duque de Southampton a quem o poeta dedicou
de fato poemas como Vênus e Adônis e a
paixão por uma exótica mulher oriental de pele escura
(ela seria a dama negra misteriosamente aludida em alguns sonetos).
O crítico americano Harold Bloom considera Nada Como o
Sol "o único romance bem-sucedido já escrito sobre
Shakespeare". Vindo de um shakespea-riano obsessivo como Bloom,
esse não é um elogio ligeiro. Burgess realmente oferece
ao leitor um personagem fascinante em todas as suas contradições.
Seu Shakespeare (ou WS, como o narrador prefere chamá-lo)
é ao mesmo tempo um artista cioso de sua poesia e um arrivista
social que escreve o que lhe encomendam; um conservador que acredita
no direito natural da realeza e um crítico mordaz da imoralidade
dos nobres; um libertino e um marido traído. Quase um personagem
shakespeariano.
| Noites
alegres do bardo |
|
"A
primavera estava quente e a coisa acontecera num campo
de centeio. Fora com aquela de olhos negros, penugem
corporal negra, e reluzente cabeleira negra, feito os
corvos que se alimentavam da banha de toucinho jogada
fora; mas também poderia ter sido com Bess, Joan,
Meg, Susan ou Kate. Pois o que mais, já percebia
ele, se oferecia nas noites alegres de Stratford? William
Shakespeare estava se tornando um rapaz de verdade.
Tinha lábios carnudos, um bom porte e fala mansa,
porém floreada. Ele achou que poderia fugir quando
o pai e a mãe de Alice Studley vieram, cheios
de virtude furibunda, dizer a John Shakespeare que fora
ele, sim, Will, que emprenhara a filha deles e devia
agora, sim, casar com ela, ora essa."
Trecho
de Nada Como o Sol
|
|
|