Edição 1813 . 30 de julho de 2003

Índice
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Claudio de Moura Castro
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Arc
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Livros
De corpo e alma

O inglês Anthony Burgess traz William Shakespeare à vida num romance delicioso


Jerônimo Teixeira

William Shakespeare deixou sua segunda melhor cama como herança para a mulher. Essa curiosa disposição testamentária tem intrigado estudiosos e biógrafos. Afinal de contas, Anne Hathaway agüentou vinte anos de separação, cuidando dos filhos do casal em Stratford enquanto o marido fazia fortuna em Londres. Essa abnegada mulher não mereceria ter ficado ao menos com a melhor cama? O escritor inglês Anthony Burgess (1917-1993) tem uma explicação (ficcional, mas convincente, como uma boa fofoca) para o ressentimento póstumo do poeta: em uma cena culminante do romance Nada Como o Sol (tradução de Paulo Reis; Ediouro; 254 páginas; 32 reais), Shakespeare surpreende seu irmão Richard e Anne no quarto. Nus e agarrados como Romeu e Julieta. Esposa adúltera e irmão traidor refestelavam-se sobre a tal segunda melhor cama.

Só agora traduzido no Brasil, Nada Como o Sol foi lançado em 1964, dois anos depois do mais conhecido (graças à adaptação cinematográfica de Stanley Kubrick) Laranja Mecânica. Burgess armou uma brilhante especulação sobre as raízes criativas do teatro de Shakespeare. O romance acompanha a vida do bardo de sua adolescência em Stratford até a construção do legendário Teatro Globe, no início do século XVII. Depois, há um corte súbito para o epílogo, a morte do poeta, em 1616. Burgess não mostra o personagem nos anos em que ele compôs suas obras máximas. Mas sua formação está toda lá, e isso é mais do que suficiente para convencer o leitor de que aquele adolescente seria capaz de, anos mais tarde, escrever obras do calibre de Hamlet, Macbeth e Rei Lear.

As aventuras eróticas do jovem poeta ocupam grande parte da narrativa. A idéia de que Shakespeare foi traído pelo próprio irmão, aliás, não é original. Em Ulisses, James Joyce fez seu alter ego Stephen Dedalus expor essa escandalosa teoria biográfica para uma seleta e embasbacada platéia de intelectuais reunidos na biblioteca de Dublin. Joyciano devoto, Burgess amplia e desenvolve a idéia do autor irlandês, mas não se limita aos acontecimentos da provinciana Stratford. As aventuras londrinas de Shakespeare em Nada Como o Sol incluem uma relação homossexual com o Duque de Southampton – a quem o poeta dedicou de fato poemas como Vênus e Adônis – e a paixão por uma exótica mulher oriental de pele escura (ela seria a dama negra misteriosamente aludida em alguns sonetos).

O crítico americano Harold Bloom considera Nada Como o Sol "o único romance bem-sucedido já escrito sobre Shakespeare". Vindo de um shakespea-riano obsessivo como Bloom, esse não é um elogio ligeiro. Burgess realmente oferece ao leitor um personagem fascinante em todas as suas contradições. Seu Shakespeare (ou WS, como o narrador prefere chamá-lo) é ao mesmo tempo um artista cioso de sua poesia e um arrivista social que escreve o que lhe encomendam; um conservador que acredita no direito natural da realeza e um crítico mordaz da imoralidade dos nobres; um libertino e um marido traído. Quase um personagem shakespeariano.

 
Noites alegres do bardo

"A primavera estava quente e a coisa acontecera num campo de centeio. Fora com aquela de olhos negros, penugem corporal negra, e reluzente cabeleira negra, feito os corvos que se alimentavam da banha de toucinho jogada fora; mas também poderia ter sido com Bess, Joan, Meg, Susan ou Kate. Pois o que mais, já percebia ele, se oferecia nas noites alegres de Stratford? William Shakespeare estava se tornando um rapaz de verdade. Tinha lábios carnudos, um bom porte e fala mansa, porém floreada. Ele achou que poderia fugir quando o pai e a mãe de Alice Studley vieram, cheios de virtude furibunda, dizer a John Shakespeare que fora ele, sim, Will, que emprenhara a filha deles e devia agora, sim, casar com ela, ora essa."

Trecho de Nada Como o Sol

 

 
 
 
 
topo voltar