Edição 1813 . 30 de julho de 2003

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A preferida das maduras

Com Perdas & Ganhos, a gaúcha Lya Luft
leva seu otimismo à lista de mais vendidos


Jerônimo Teixeira

Liane Neves
Lya, em sua casa em Porto Alegre: uma avó dedicada, mas com direito a namorado

Trechos dos livros
A Asa Esquerda do Anjo
As Parceiras
O Ponto Cego
O Rio do Meio
Perdas & Ganhos
Bibliografia
Mais informações sobre a autora

Recentemente, a escritora Lya Luft foi abordada por uma desconhecida em um restaurante em Porto Alegre. Era uma mulher de seus 60 anos, que desejava expressar sua gratidão por Perdas & Ganhos (Record; 156 páginas; 21 reais), último lançamento da escritora. "Graças a esse livro, eu recuperei a feminilidade que havia perdido em um casamento sem graça", disse a leitora. Num certo sentido, essa não foi uma surpresa. O público da escritora é composto, em sua maioria, por mulheres entre 40 e 60 anos, que, mesmo em romances familiares soturnos como A Asa Esquerda do Anjo, costumam ouvir um eco de suas próprias existências. Perdas & Ganhos, no entanto, vai além: é um livro do qual essas leitoras podem extrair lições. Nele, a escritora gaúcha de 64 anos decidiu revelar-se como a incorrigível otimista que é na vida cotidiana. Perdas & Ganhos segue a linha de O Rio do Meio (1996), no qual a autora comenta os motivos de sua ficção. São, na definição da própria Lya, livros de "conversa com o leitor". E o leitor realmente gostou do papo – Perdas & Ganhos já entrou para a lista de mais vendidos de VEJA.

O otimismo não é uma descoberta recente. Lya garante que nunca teve nada a ver com suas problemáticas personagens. "Tenho um olho alegre que vive e um olho triste que escreve", explica. Ela lembra, a propósito, uma brincadeira do amigo e escritor Caio Fernando Abreu, morto em 1996. O autor de Morangos Mofados dizia que os romances de Lya foram todos "psicografados" – com seus "cândidos olhos azuis", ela não poderia ter nada a ver com o universo obscuro de sua ficção. De fato, a despeito dos contornos opressivos que cercam as famílias que inventou, Lya acredita que a felicidade doméstica é, sim, possível. Sua filha mais velha mora com o marido e filhas em um anexo da confortável casa da mãe, em uma rua calma e arborizada do bairro Chácara das Pedras – a família Luft esteve entre os primeiros moradores do lugar, ao tempo em que ainda não havia um grande shopping center na vizinhança. Com a filha nas proximidades, a escritora tem a oportunidade de conviver diariamente com três de seus sete netos. E ela não esconde o quanto gosta disso.

Os três filhos de Lya são do gramático Celso Pedro Luft, que a conheceu quando ainda era irmão marista. Ele abandonou os votos para se casar com a ex-aluna em 1963. O casal permaneceria unido até 1985, quando Lya foi viver com o psicanalista e escritor Hélio Pellegrino, no Rio de Janeiro. Lya retornou a Porto Alegre depois da morte do parceiro, em 1988, e reatou a união com o primeiro marido em 1992. Três anos mais tarde, a escritora sofria uma nova perda: Celso Pedro morreu após um doído período de invalidez causado por um derrame cerebral. Parece a história de uma mulher determinada, que vai sempre atrás do que quer, mas Lya diz que não é bem assim: "Tudo o que eu fiz na minha vida foi com grande medo". A própria estréia como romancista só se deu depois dos 40 anos, com As Parceiras (1980), pois até então a autora – que já atuava como tradutora e publicara dois livros de poemas – tinha dúvidas sobre suas verdadeiras capacidades. Lya hoje se ressente de certo "folclore" criado em torno de sua biografia. Não gosta, por exemplo, quando comentam que ela teria "abandonado" Celso Pedro para viver um novo romance com Pellegrino, como se fosse uma "Joana D'Arc do amor". "Era um casamento que já estava terminado", esclarece.

A morte dos dois grandes companheiros de sua vida é aludida de forma discreta no capítulo de Perdas & Ganhos que trata da morte. O tema central do livro é a idade madura e a valorização da velhice (Lya não gosta de eufemismos etariamente corretos como "terceira idade"). Perdas & Ganhos insiste na necessidade de construir uma auto-estima sólida para todas as idades. Mas a autora não quer de modo algum que o livro seja colocado na seção de auto-ajuda: "Auto-ajuda é um tipo de paraliteratura, dirigida para fazer bem. Eu não quero fazer bem, quero inquietar as pessoas". Lya conta que a idéia do livro surgiu há alguns anos, quando coordenou, junto com uma amiga psicoterapeuta, uma série de encontros com grupos de mulheres (e um grupo de homens) de mais de 40 anos. O objetivo era discutir as aflições e perspectivas trazidas pelo avanço do tempo. Muitas das mulheres eram profissionais bem-sucedidas, mas ainda marcadas por preconceitos e limitações que suas filhas já não enfrentariam. Algumas, por exemplo, deixavam a administração das finanças do casal a cargo exclusivo do marido. Lya não quer limitar seu público apenas a balzaquianas ou pós-balzaquianas, mas Perdas & Ganhos exerce mesmo maior apelo junto à geração que ficou encurralada entre a timidez da antiga dona-de-casa e a liberação feminina. A autora, é verdade, relata que encontrou uma boa recepção à obra até mesmo em encontros com estudantes secundários – mas alguns garotos reagiram com frases como "minha mãe precisa ler esse livro!".

A despeito do sucesso de Perdas & Ganhos, por hora não existe projeto de outra obra na mesma linha. Lya segue trabalhando como tradutora, atividade que sempre foi sua principal fonte de renda. Tem uma idéia ainda vaga para um novo romance, que se chamará provavelmente O Silêncio dos Amantes. Seu próximo livro marcará a estréia na literatura infantil. Histórias de Bruxa Boa reunirá contos que Lya inventou para uma neta de 4 anos. Não se imagine, porém, que esta é uma daquelas cândidas e domésticas vovós do passado. No meio da entrevista, Lya interrompe o que dizia para atender ao celular. Combina um almoço com o namorado (cujo nome ela não revela, pois a relação está começando). "Ter um namorado legal é um excelente elixir da juventude", diz Lya Luft.

 
Em favor da velhice

"Predomina a idéia de que a ve-lhice é uma sentença da qual se deve fugir a qualquer custo – até mesmo nos mutilando ou escondendo. No espírito de manada que nos caracteriza, adotamos essa hipótese sem muita discussão, ainda que seja em nosso desfavor. Isso se manifesta até na pressa com que acrescentamos, como desculpa: "Sim, você está, eu estou, velho aos 80 anos, mas... jovem de espírito." Por que ser jovem de espírito seria melhor do que ter um espírito maduro ou velho? Ter mais sabedoria, mais serenidade, mais elegância diante de fatos que na juventude nos fariam arrancar os cabelos de aflição, não me parece totalmente indesejável. Vou detestar se, ficando velha, alguém quiser me elogiar dizendo que tenho espírito jovem. Acho o espírito maduro bem mais interessante do que o jovem. Mais sereno, mais misterioso, mais sedutor. Assim como não gostei quando certa vez pensando me agradar um crítico escreveu que embora sendo mulher eu escrevia 'com mão de homem'."

Trecho de Perdas & Ganhos

 

 
 
 
 
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