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Livros
A
preferida das maduras
Com
Perdas & Ganhos, a gaúcha Lya Luft
leva seu otimismo à lista de mais vendidos

Jerônimo
Teixeira
Liane Neves
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| Lya,
em sua casa em Porto Alegre: uma avó dedicada, mas com
direito a namorado |
Recentemente,
a escritora Lya Luft foi abordada por uma desconhecida em um restaurante
em Porto Alegre. Era uma mulher de seus 60 anos, que desejava expressar
sua gratidão por Perdas & Ganhos (Record;
156 páginas; 21 reais), último lançamento da
escritora. "Graças a esse livro, eu recuperei a feminilidade
que havia perdido em um casamento sem graça", disse a leitora.
Num certo sentido, essa não foi uma surpresa. O público
da escritora é composto, em sua maioria, por mulheres entre
40 e 60 anos, que, mesmo em romances familiares soturnos como A
Asa Esquerda do Anjo, costumam ouvir um eco de suas próprias
existências. Perdas & Ganhos, no entanto, vai além:
é um livro do qual essas leitoras podem extrair lições.
Nele, a escritora gaúcha de 64 anos decidiu revelar-se como
a incorrigível otimista que é na vida cotidiana. Perdas
& Ganhos segue a linha de O Rio do Meio (1996), no
qual a autora comenta os motivos de sua ficção. São,
na definição da própria Lya, livros de "conversa
com o leitor". E o leitor realmente gostou do papo Perdas
& Ganhos já entrou para a lista de mais vendidos
de VEJA.
O otimismo não é uma descoberta recente. Lya garante
que nunca teve nada a ver com suas problemáticas personagens.
"Tenho um olho alegre que vive e um olho triste que escreve", explica.
Ela lembra, a propósito, uma brincadeira do amigo e escritor
Caio Fernando Abreu, morto em 1996. O autor de Morangos Mofados
dizia que os romances de Lya foram todos "psicografados"
com seus "cândidos olhos azuis", ela não poderia ter
nada a ver com o universo obscuro de sua ficção. De
fato, a despeito dos contornos opressivos que cercam as famílias
que inventou, Lya acredita que a felicidade doméstica é,
sim, possível. Sua filha mais velha mora com o marido e filhas
em um anexo da confortável casa da mãe, em uma rua
calma e arborizada do bairro Chácara das Pedras a
família Luft esteve entre os primeiros moradores do lugar,
ao tempo em que ainda não havia um grande shopping center
na vizinhança. Com a filha nas proximidades, a escritora
tem a oportunidade de conviver diariamente com três de seus
sete netos. E ela não esconde o quanto gosta disso.
Os três filhos de Lya são do gramático Celso
Pedro Luft, que a conheceu quando ainda era irmão marista.
Ele abandonou os votos para se casar com a ex-aluna em 1963. O casal
permaneceria unido até 1985, quando Lya foi viver com o psicanalista
e escritor Hélio Pellegrino, no Rio de Janeiro. Lya retornou
a Porto Alegre depois da morte do parceiro, em 1988, e reatou a
união com o primeiro marido em 1992. Três anos mais
tarde, a escritora sofria uma nova perda: Celso Pedro morreu após
um doído período de invalidez causado por um derrame
cerebral. Parece a história de uma mulher determinada, que
vai sempre atrás do que quer, mas Lya diz que não
é bem assim: "Tudo o que eu fiz na minha vida foi com grande
medo". A própria estréia como romancista só
se deu depois dos 40 anos, com As Parceiras (1980), pois
até então a autora que já atuava como
tradutora e publicara dois livros de poemas tinha dúvidas
sobre suas verdadeiras capacidades. Lya hoje se ressente de certo
"folclore" criado em torno de sua biografia. Não gosta, por
exemplo, quando comentam que ela teria "abandonado" Celso Pedro
para viver um novo romance com Pellegrino, como se fosse uma "Joana
D'Arc do amor". "Era um casamento que já estava terminado",
esclarece.
A morte dos dois grandes companheiros de sua vida é aludida
de forma discreta no capítulo de Perdas & Ganhos
que trata da morte. O tema central do livro é a idade madura
e a valorização da velhice (Lya não gosta de
eufemismos etariamente corretos como "terceira idade"). Perdas
& Ganhos insiste na necessidade de construir uma auto-estima
sólida para todas as idades. Mas a autora não quer
de modo algum que o livro seja colocado na seção de
auto-ajuda: "Auto-ajuda é um tipo de paraliteratura, dirigida
para fazer bem. Eu não quero fazer bem, quero inquietar as
pessoas". Lya conta que a idéia do livro surgiu há
alguns anos, quando coordenou, junto com uma amiga psicoterapeuta,
uma série de encontros com grupos de mulheres (e um grupo
de homens) de mais de 40 anos. O objetivo era discutir as aflições
e perspectivas trazidas pelo avanço do tempo. Muitas das
mulheres eram profissionais bem-sucedidas, mas ainda marcadas por
preconceitos e limitações que suas filhas já
não enfrentariam. Algumas, por exemplo, deixavam a administração
das finanças do casal a cargo exclusivo do marido. Lya não
quer limitar seu público apenas a balzaquianas ou pós-balzaquianas,
mas Perdas & Ganhos exerce mesmo maior apelo junto à
geração que ficou encurralada entre a timidez da antiga
dona-de-casa e a liberação feminina. A autora, é
verdade, relata que encontrou uma boa recepção à
obra até mesmo em encontros com estudantes secundários
mas alguns garotos reagiram com frases como "minha mãe
precisa ler esse livro!".
A despeito do sucesso de Perdas & Ganhos, por hora não
existe projeto de outra obra na mesma linha. Lya segue trabalhando
como tradutora, atividade que sempre foi sua principal fonte de
renda. Tem uma idéia ainda vaga para um novo romance, que
se chamará provavelmente O Silêncio dos Amantes.
Seu próximo livro marcará a estréia na literatura
infantil. Histórias de Bruxa Boa reunirá contos
que Lya inventou para uma neta de 4 anos. Não se imagine,
porém, que esta é uma daquelas cândidas e domésticas
vovós do passado. No meio da entrevista, Lya interrompe o
que dizia para atender ao celular. Combina um almoço com
o namorado (cujo nome ela não revela, pois a relação
está começando). "Ter um namorado legal é um
excelente elixir da juventude", diz Lya Luft.
| Em
favor da velhice |
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"Predomina
a idéia de que a ve-lhice é uma sentença
da qual se deve fugir a qualquer custo até
mesmo nos mutilando ou escondendo. No espírito
de manada que nos caracteriza, adotamos essa hipótese
sem muita discussão, ainda que seja em nosso
desfavor. Isso se manifesta até na pressa com
que acrescentamos, como desculpa: "Sim, você está,
eu estou, velho aos 80 anos, mas... jovem de espírito."
Por que ser jovem de espírito seria melhor do
que ter um espírito maduro ou velho? Ter mais
sabedoria, mais serenidade, mais elegância diante
de fatos que na juventude nos fariam arrancar os cabelos
de aflição, não me parece totalmente
indesejável. Vou detestar se, ficando velha,
alguém quiser me elogiar dizendo que tenho espírito
jovem. Acho o espírito maduro bem mais interessante
do que o jovem. Mais sereno, mais misterioso, mais sedutor.
Assim como não gostei quando certa vez pensando
me agradar um crítico escreveu que embora sendo
mulher eu escrevia 'com mão de homem'."
Trecho
de Perdas & Ganhos
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