Edição 1813 . 30 de julho de 2003

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Exposição
De volta ao passado

Pesquisadores recriam, do tecido
aos bordados, roupas dos nobres
da Itália renascentista


Bel Moherdaui


Fotos divulgação
Traje usado por Vincenzo Gonzaga, duque de Mântua: detalhe da representação do falo

Galeria de fotos

Fios de ouro, pérolas e pedras preciosas. Pronta entrega, nem sonhando. Só modelos exclusivos, feitos sob encomenda, um trabalho que podia demorar anos. Assim eram as roupas de cerimônia dos nobres do Renascimento na Itália: poucas, mas fabulosamente requintadas. Embora um número reduzidíssimo de peças tenha sobrevivido ao tempo, um perseverante grupo de pesquisadores italianos, armados de documentos, pedaços de tecidos e pinturas da época, enfrentou o desafio de reconstituir os suntuosos trajes do período. "Escolhemos os mais famosos retratos de personagens italianos com trajes que tivessem uma história particular, que fossem capazes de mostrar aspectos interessantes da vida da corte. Dessa forma, explicamos a história de um novo jeito", conta Fausto Fornasari, diretor do King Studio, que desenvolve o estudo. Em catorze anos de trabalho, já foram reconstituídos cerca de 100 trajes. Desses, dezenove estão expostos desde a semana passada no Centro de Design e Moda da Universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, na mostra La Trama e L'Oro, aberta até 22 de agosto. Entre eles está o fabuloso traje de Vincenzo Gonzaga na cerimônia em que assumiu o título de duque de Mântua. O manto original de arminho na reprodução é de pele de coelho. A pequena peça acoplada à cintura parece mas não é uma bainha de punhal: simboliza o falo ducal. Aparecem também as vestimentas usadas em seu casamento com Eleonora de Médici e ainda o vestido de noiva da filha do casal, Eleonora Gonzaga, quando se uniu a Ferdinando II, imperador do Sacro Império Romano do Ocidente, em 1622.


Fotos divulgação/Pedro Rubens
Roupa de Eleonora de Toledo, retratada por Bronzino: seis anos de trabalho para reproduzir os detalhes, mais dois para fazer a boneca (no alto, à dir.), forma de divulgação das tendências de moda daquela época

Entre pesquisa histórica, desenvolvimento de materiais, testes com teares e a trabalhosa aplicação de jóias e bordados, cada roupa demora de quatro a cinco anos para ficar pronta. São feitas até trinta provas de tecidos por traje, para chegar ao material mais parecido possível com o original. Um dos mais trabalhosos, o vestido da duquesa Eleonora de Toledo, demorou seis anos para ficar pronto: dois na pesquisa, dois no desenvolvimento do tecido e mais dois no bordado (só uma, das dez bordadeiras convocadas, levou o desafio adiante). Outro destaque é a roupa da marquesa de Mântua, Isabella d'Este Gonzaga. Importante figura política e patrocinadora das artes, ela própria era uma lançadora de tendências, sempre criando seus trajes e perucas. O vestido em exposição compõe-se de duas peças sobrepostas: a de baixo, de tecido dourado com desenhos róseos, serve para destacar a suntuosa parte de cima, em veludo preto recortado e bordado em ouro.


Fotos Pedro Rubens
Luxo no vestido de casamento de Eleonora Gonzaga com o imperador germânico: fios de ouro e muitas jóias para representar a riqueza da corte de Mântua

Na exposição, a maioria dos trajes está acompanhada de uma reprodução da pintura em que ele aparece. O retrato de Eleonora de Toledo foi feito pelo mestre Bronzino. Junto com o vestido, com original e intrincada padronagem em medalhões, vem ainda uma boneca de porcelana vestida com uma miniatura da roupa. "Essas bonecas viajavam de corte em corte e funcionavam como uma espécie de revista de moda do Renascimento. Era com elas que uma princesa da França, por exemplo, tomava conhecimento do que se usava na corte italiana", conta Fornasari. Há ainda a reprodução de uma cena de banquete e dois trajes que são a interpretação de vários quadros. Um deles, em tecido vermelho, traz 3.000 pérolas e 200 pedras preciosas bordadas – imitações, na reconstituição. "Os trajes eram vistos como um investimento. Quando aparecia em cerimônia pública, o nobre fazia questão de mostrar com a roupa o tamanho de sua riqueza", diz Fornasari. O conforto certamente não era uma prioridade. A quantidade de tecidos, bordados, pedrarias, peles e golas criava roupas sufocantes e pesadas. Mas em qualquer época em que fossem vistas, hoje ou quinhentos anos atrás, não deixavam dúvidas: eram roupas dignas de reis.

 
 
 
 
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