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Exposição
De
volta ao
passado
Pesquisadores
recriam, do tecido
aos bordados, roupas dos nobres
da Itália renascentista

Bel
Moherdaui
Fotos divulgação
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| Traje
usado por Vincenzo Gonzaga, duque de Mântua: detalhe da representação
do falo |
Fios
de ouro, pérolas e pedras preciosas. Pronta entrega, nem
sonhando. Só modelos exclusivos, feitos sob encomenda, um
trabalho que podia demorar anos. Assim eram as roupas de cerimônia
dos nobres do Renascimento na Itália: poucas, mas fabulosamente
requintadas. Embora um número reduzidíssimo de peças
tenha sobrevivido ao tempo, um perseverante grupo de pesquisadores
italianos, armados de documentos, pedaços de tecidos e pinturas
da época, enfrentou o desafio de reconstituir os suntuosos
trajes do período. "Escolhemos os mais famosos retratos de
personagens italianos com trajes que tivessem uma história
particular, que fossem capazes de mostrar aspectos interessantes
da vida da corte. Dessa forma, explicamos a história de um
novo jeito", conta Fausto Fornasari, diretor do King Studio, que
desenvolve o estudo. Em catorze anos de trabalho, já foram
reconstituídos cerca de 100 trajes. Desses, dezenove estão
expostos desde a semana passada no Centro de Design e Moda da Universidade
Anhembi Morumbi, em São Paulo, na mostra La Trama e L'Oro,
aberta até 22 de agosto. Entre eles está o fabuloso
traje de Vincenzo Gonzaga na cerimônia em que assumiu o título
de duque de Mântua. O manto original de arminho na reprodução
é de pele de coelho. A pequena peça acoplada à
cintura parece mas não é uma bainha de punhal: simboliza
o falo ducal. Aparecem também as vestimentas usadas em seu
casamento com Eleonora de Médici e ainda o vestido de noiva
da filha do casal, Eleonora Gonzaga, quando se uniu a Ferdinando
II, imperador do Sacro Império Romano do Ocidente, em 1622.
Fotos divulgação/Pedro Rubens
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| Roupa
de Eleonora de Toledo, retratada por Bronzino: seis anos de
trabalho para reproduzir os detalhes, mais dois para fazer a
boneca (no alto, à dir.), forma de divulgação
das tendências de moda daquela época |
Entre
pesquisa histórica, desenvolvimento de materiais, testes
com teares e a trabalhosa aplicação de jóias
e bordados, cada roupa demora de quatro a cinco anos para ficar
pronta. São feitas até trinta provas de tecidos por
traje, para chegar ao material mais parecido possível com
o original. Um dos mais trabalhosos, o vestido da duquesa Eleonora
de Toledo, demorou seis anos para ficar pronto: dois na pesquisa,
dois no desenvolvimento do tecido e mais dois no bordado (só
uma, das dez bordadeiras convocadas, levou o desafio adiante). Outro
destaque é a roupa da marquesa de Mântua, Isabella
d'Este Gonzaga. Importante figura política e patrocinadora
das artes, ela própria era uma lançadora de tendências,
sempre criando seus trajes e perucas. O vestido em exposição
compõe-se de duas peças sobrepostas: a de baixo, de
tecido dourado com desenhos róseos, serve para destacar a
suntuosa parte de cima, em veludo preto recortado e bordado em ouro.
Fotos Pedro Rubens
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| Luxo
no vestido de casamento de Eleonora Gonzaga com o imperador
germânico: fios de ouro e muitas jóias para representar
a riqueza da corte de Mântua |
Na
exposição, a maioria dos trajes está acompanhada
de uma reprodução da pintura em que ele aparece. O
retrato de Eleonora de Toledo foi feito pelo mestre Bronzino. Junto
com o vestido, com original e intrincada padronagem em medalhões,
vem ainda uma boneca de porcelana vestida com uma miniatura da roupa.
"Essas bonecas viajavam de corte em corte e funcionavam como uma
espécie de revista de moda do Renascimento. Era com elas
que uma princesa da França, por exemplo, tomava conhecimento
do que se usava na corte italiana", conta Fornasari. Há ainda
a reprodução de uma cena de banquete e dois trajes
que são a interpretação de vários quadros.
Um deles, em tecido vermelho, traz 3.000
pérolas e 200 pedras preciosas bordadas imitações,
na reconstituição. "Os trajes eram vistos como um
investimento. Quando aparecia em cerimônia pública,
o nobre fazia questão de mostrar com a roupa o tamanho de
sua riqueza", diz Fornasari. O conforto certamente não era
uma prioridade. A quantidade de tecidos, bordados, pedrarias, peles
e golas criava roupas sufocantes e pesadas. Mas em qualquer época
em que fossem vistas, hoje ou quinhentos anos atrás, não
deixavam dúvidas: eram roupas dignas de reis.
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