Edição 1813 . 30 de julho de 2003

Índice
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Claudio de Moura Castro
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Arc
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Consumo
Tempo de desconto

O comércio muda o calendário
e as liquidações agora começam
cada vez mais cedo


Bel Moherdaui


Fotos Pedro Rubens
ns
bebens

ZOOMP
Vestido de chiffon com tira de chamois de 693 reais por 312 reais

Sapato de couro de 297 reais por 208 reais

IÓDICE
Vestido de jérsei de seda de 348 reais por 148 reais

Sapato de pêlo com ilhoses de 308 reais por 202 reais

CORI
Blazer de lã de 679 reais por 407 reais

Calça de lã canelada de 499 reais por 299 reais

Sapato de couro de 399 reais por 239 reais

O inverno, como alguns talvez ainda se lembrem, começa oficialmente no dia 21 de junho. Pois, neste ano, antes disso já tinha loja anunciando o início da "liquidação de inverno". Na virada de julho, todas as principais marcas estampavam nas etiquetas descontos de no mínimo 10% – e chegando aos 70% nos casos mais radicais. O fenômeno não é novo: há já alguns anos os lojistas vêm encurtando cada vez mais o tempo de permanência nas prateleiras da "nova coleção" a preço de novidade. As promoções, que dez anos atrás esperavam agosto chegar para acontecer, começam agora em plena estação, primeiro incluindo algumas peças, depois metade do estoque, até, enfim, abrangerem a loja inteira. O fenômeno é mais evidente no Sudeste e no Sul, mas também chegou às demais regiões do país. No Praia de Belas Shopping Center, em Porto Alegre, cerca de 60% das lojas já estavam com algum tipo de promoção em julho. Em São Paulo, marcas tão diversas como Alexandre Herchcovitch, Victor Hugo, Siberian e até a Daslu, o supra-sumo do luxo, começaram julho com descontos nas araras. As dezesseis lojas da Cori em três Estados entraram em liquidação no dia 24 de junho. A Zoomp foi ainda mais precoce: preços mais baixos desde 19 de junho. Ninguém mais tem vergonha da palavra liquidação, embora ela possa vir disfarçada de sale (em inglês) ou, num caso de linguagem muito figurada registrado em São Paulo, de preços realinhados.

Um dos motivos citados por fabricantes e comerciantes para a antecipação das liquidações é o próprio cronograma de produção e venda das coleções de verão e de inverno, que agora segue um calendário mais ou menos homogêneo – marcas que antes só olhavam para o próprio alfinete prestam atenção ao ritmo do concorrente. "Estamos acertando o cronograma com o que acontece lá fora, nos profissionalizando. Fazemos as coleções, vendemos e trocamos mais cedo, como acontece na Europa e nos Estados Unidos", diz Carlos Miele, estilista e dono da M. Officer. "A virada de estação já não é determinante para o início das liquidações. O que pesa mais é o lançamento das coleções", concorda Eduardo Falcão, gerente de marketing do Shopping Recife. "Quando elas acabam de ser apresentadas, nas semanas de moda, as pessoas já estão querendo comprar o que viram na passarela. O estoque da loja fica velho e começam as promoções." Facilita muito a vida dos lojistas o fato de que, seja inverno, seja verão, toda coleção neste país tropical tem sempre decote, vestido de alça, minissaia. Esses produtos entram primeiro na fila do desconto; um casaco de lã, bem mais caro, fica para o fim.

Fotos Pedro Rubens
ens
ens

TRITON
Blusa de veludo de 179 reais por 99 reais

Minissaia jeans de 139 reais por 89 reais

Botas de couro de 549 reais por 349 reais

EMPÓRIO ARMANI
Top de lã com cristais de 1 150 reais por 690 reais

Calça jeans de 660 reais por 396 reais

Botas de couro de 2 090 reais por 1 254 reais

ALEXANDRE HERCHCOVITCH
Camiseta de malha paeteada com colete de musseline de 759 reais por 379 reais

Saia de gabardine de 205 reais por 109 reais

Nessa mistura de interesses, a Cori, por exemplo, já tem "no fundo das lojas principais" alguns modelos de primavera-verão mostrados na São Paulo Fashion Week que normalmente só chegariam ao consumidor na segunda metade de agosto. "É para quem quer se antecipar", explica o diretor da marca, Carlos Magno Gibrail. Gerentes das grifes mais sofisticadas, como ele, garantem que suas clientes não ligam para promoção – querem, isso sim, as peças mais bacanas o mais rápido possível. Uma vasta massa de consumidoras discorda. Como as liquidações acontecem mais cedo, muita gente simplesmente espera chegar a temporada de remarcações para comprar a roupa cobiçada desde o lançamento. A diferença no preço compensa a espera. "Venho para São Paulo três vezes por ano para fazer compras para minha loja de bijuterias. Procuro coincidir com o período de liquidações e aproveito para comprar roupas para mim", confessava, carregada de bolsas, a empresária Léa Paim, de Aracaju, que circulava pela Rua Oscar Freire, em São Paulo, num sábado de julho. "Não é uma neurose, mas atualmente compro bem mais na liquidação. Dá para achar coisas legais para usar agora", faz coro a arquiteta Jussara Justo. Junto com a implantação de calendário e com o novo hábito de consumo, também antecipam as liquidações dois fatores bem conhecidos dos lojistas: o inverno quente e o movimento morno. Nos cinco primeiros meses deste ano, as vendas no varejo caíram 5,57% em relação ao mesmo período do ano passado, segundo o IBGE. Nos shoppings, as vendas de maio ficaram 7,85% abaixo do alcançado no ano passado (perda de 1,57% no ano), segundo pesquisa encomendada pela Associação Brasileira de Shopping Centers. "As lojas não venderam e precisam liberar o estoque", simplifica Roberto Chadad, presidente da Associação Brasileira do Vestuário.

 
 
 
 
topo voltar