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Juros
As
outras armas
Além
de mexer na taxa de juros, o governo tem
mais saídas para diminuir o custo do crédito
Fabio Motta/AE
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Henrique
Meirelles,
presidente do Banco Central: a queda da inflação
justificou o corte na taxa de juros
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A
obsessão nacional com os juros básicos definidos pelo
Banco Central (BC) teve outro momento de tensão na semana
passada. Na quarta-feira, o Comitê de Política Monetária
(Copom) decidiu cortar 1,5 ponto porcentual na famosa taxa anual
Selic. Pelo menos até a próxima reunião, em
agosto, a taxa é de 24,5%. Como vem acontecendo, a intensa
fuzilaria verbal contra e a favor da decisão do BC acabou
eclipsando as questões de efeito mais imediato para o bolso
dos brasileiros, a viabilidade financeira das empresas e o crescimento
da oferta de empregos. Essas questões são, em primeiro
lugar, o custo dos empréstimos nos bancos e nos departamentos
de crediário das lojas. Em segundo, é preciso analisar
a tendência da Selic nos próximos meses e calcular
os juros reais da economia. Para calculá-los, os economistas
fazem uma operação simples. Eles tomam a Selic e subtraem
dela o valor da inflação. Com isso obtêm um
valor que tem um enorme significado macroeconômico. Se o juro
real brasileiro ficar abaixo dos juros internacionais, a corrente
de investimentos estrangeiros favorável ao Brasil, já
minguante nos últimos meses, simplesmente inverterá
a mão e o capital começará a sair do país.
VEJA
ouviu na semana passada especialistas nessas questões de
interesse prático dos brasileiros. Eles foram questionados
principalmente sobre o que deve ser feito para baixar o custo dos
empréstimos bancários, da rolagem dos cartões
de crédito, do crediário das lojas e dos financiamentos
para lojistas, industriais e outros empreendedores. A taxa básica
do Banco Central, a Selic, tem impacto sobre esse custo, mas outros
fatores até mais fáceis de ser mudados sem
acarretar efeitos colaterais indesejáveis podem ter
um efeito de baixa mais expressivo e imediato. A mais evidente dessas
mexidas é a diminuição dos impostos diretos
e indiretos que encarecem os empréstimos. Um empréstimo
pessoal em banco custa hoje aos brasileiros, em média, 112%
ao ano. A Selic pesa 24,5% nesse custo. Os impostos cobrados pesam
quase 30%. Como ocorre com qualquer outra transação
no Brasil, os negócios financeiros são taxados com
o peso de uma pata de elefante.
Além
das taxas e de outras modalidades de cobrança como a CPMF,
o governo ainda obriga os bancos a manter nos cofres do BC uma quantia
enorme de dinheiro, que no jargão financeiro se chama "depósito
compulsório". Esse dinheiro fica sob custódia do governo
e não pode ser usado pelos bancos para conceder empréstimos.
No caso dos depósitos à vista, o governo fica com
quase 7 de cada 10 reais depositados pelos brasileiros a cada dia
nos bancos. Fica ainda com 30% dos depósitos em caderneta
de poupança e 23% dos depósitos a prazo. Os bancos
arcam com um custo grande para manter essa montanha de dinheiro
paralisada no Banco Central. Quando o país sofre com choques
externos de credibilidade, o governo é obrigado a diminuir
a quantidade de dinheiro em circulação para, valendo-se
da lei de oferta e procura, evitar a desvalorização
acelerada do real e diminuir os impactos da crise vinda de fora.
"A estratégia do governo até 2000 era de reduções
crescentes no compulsório, mas os choques econômicos
inverteram isso. Agora já há espaço para retomar
a trajetória de descompressão", avalia o economista
Roberto Padovani, da Consultoria Tendências.
Os
bancos embutem no preço do crédito 16%, em média,
a título de taxa de risco contra o calote. À primeira
vista é um valor alto. A inadimplência no país
mal chega a 8%. Em comparações internacionais, fica
claro que os brasileiros são bons pagadores. O problema é
que no Brasil a legislação favorece de tal forma o
tomador que ele não tem constrangimentos legais para dar
o calote. As demandas judiciais para receber empréstimos
não pagos podem levar de oito a dez anos, o que torna a cobrança
quase inútil. A redução no risco do calote
vem sendo enfrentada. A nova Lei de Falências em discussão
no Congresso dá mais garantias a quem empresta dinheiro,
mas ela ainda é incipiente para funcionar como um forte elemento
de expansão do crédito. A parte mais complexa a enfrentar
são os custos de administração e a margem de
lucro dos bancos. Somados, eles encarecem os empréstimos
em mais de 50%. Como a experiência mostra de forma dramática,
taxar lucros ou usar qualquer medida coercitiva para diminuí-los
não funciona. "O lucro só cai com concorrência,
mas hoje os bancos não precisam disputar os clientes. Têm
o governo, que sufoca o mercado de crédito", explica Miguel
de Oliveira, presidente da Associação Nacional dos
Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade
(Anefac). Para rolar a dívida pública, o governo recorre
avidamente aos bancos e fica com 8 de cada 10 reais disponíveis
de crédito.
Como
se vê, o governo tem meios mais potentes do que mexer para
baixo na taxa Selic quando se trata de diminuir o custo do dinheiro,
aumentar a oferta de crédito e turbinar o ritmo de crescimento
da economia. Usar esses meios é vital porque há um
limite mínimo para os juros básicos que, se for ultrapassado,
pode ter conseqüências graves para as finanças.
Esse valor é justamente o chamado juro real. Países
endividados no exterior, como é o caso do Brasil, com seus
compromissos externos de cerca de 20 bilhões de dólares
neste ano, não podem se dar ao luxo de ter juros reais abaixo
das taxas internacionais. Por uma feliz conjunção
de fatores, Estados Unidos, Europa e Japão estão metidos
em uma corrida para baixar seus juros. Isso abre margem para que
o Brasil possa empurrar a Selic ainda mais para baixo neste e no
próximo ano. Ainda assim, os especialistas acreditam que
muito dificilmente o Banco Central poderá, no horizonte visível
de tempo, empurrar a taxa básica de juros para menos que
16%. Como explica o economista Roberto Padovani: "Para baixar mais,
só quando tiverem efeito as reformas da Previdência
e tributária e o Brasil voltar a parecer juridicamente confiável
aos olhos dos investidores estrangeiros".


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