Edição 1813 . 30 de julho de 2003

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Ministério
São tantas as emoções...

Palocci bate o pé nas reformas,
aconselha colegas e ensina ao mercado
que o PT é assim mesmo


Maurício Lima

Ana Araujo
O ministro da Fazenda: introduzindo os investidores nas artimanhas do petismo
Notícias diárias sobre economia


Rotina do ministro Antonio Palocci, 42 anos, na semana passada: esteve em contato permanente com o presidente, reuniu-se com cinco governadores para tratar da reforma tributária e ficou horas trocando idéias com o deputado Virgílio Guimarães (PT-MG), encarregado de relatar a proposta tributária. Além disso, fez três viagens. Esteve em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, para prestigiar a filiação do prefeito local ao PT. Assinou convênios com o governo de Mato Grosso do Sul, em Campo Grande, e participou da reunião de um conselho da Petrobras, no Rio. Em meio a isso, condenou a ameaça de greve dos magistrados e defendeu a redução dos juros em 1,5 ponto porcentual (veja reportagens nas págs. 42 e 82). Em todos os movimentos, Palocci cumpriu o papel público de ministro da Fazenda: mensagens ponderadas, palavras sensatas. O que pouca gente conhece é o papel que Palocci exerce na intimidade do governo – e essa tarefa, quase sempre silenciosa e mantida longe dos olhos do público, intensificou-se brutalmente nas últimas semanas.

Nesse campo, Palocci tem consumido metade de seu tempo para fazer e outra para desfazer, como um dublê de ministro e bombeiro, apagando focos de incêndio. Na reforma previdenciária, Palocci teve horas difíceis, quando o presidente da Câmara, João Paulo Cunha, começou uma negociação cujos termos eram tão generosos que, na prática, sepultavam o projeto. Sua batalha central foi impedir que a aposentadoria integral fosse estendida aos futuros servidores. Ao saber que tal proposta estava em pauta, Palocci disparou o alarme: ligou para o ministro José Dirceu, da Casa Civil, e disse que a reforma estava morta. Fez gestões junto a Lula e despachou seus próprios técnicos para vasculhar as contas da Previdência e municiar-se de números sobre o impacto da concessão. Ganhou a parada. Na semana passada, depois de se reunir com os governadores para discutir a reforma tributária, saiu dizendo que as coisas estavam indo muito bem, mas quem participou do encontro afirma que o ministro se limitou a repetir três coisas diante dos pedidos de concessões diversas: "Não, não e não".


Rafael Neddermeyre/AE
Os governadores, que debatem a reforma tributária: ouvindo negativas de Antonio Palocci

Na relação com colegas de ministério, Palocci também tem se destacado. A imprensa política, amante da fofoca e da intriga, adora enxergar nas conversas entre ministros sinais de trombadas, brigas e conflitos. Na prática, Palocci mantém relações amenas com seus colegas, mas parece empenhado em lhes mostrar o impacto que certas declarações produzem no mundo econômico. Por exemplo: ao desembarcar em Portugal, o ministro do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan, com a melhor das intenções, anunciou um pacote de ajuda à indústria automobilística para reduzir o preço dos veículos. Qual foi o resultado imediato? A retração das vendas de carros, pois os consumidores que ouviram a notícia preferiram ficar à espera do novo automóvel popular. Recentemente, a ministra das Minas e Energia, Dilma Rousseff, garantiu que o preço da gasolina cairia e, também com a melhor das intenções, deixou publicar uma tabela com valores de referência. Resultado? No dia seguinte, os postos subiram a gasolina em 2% para compensar eventuais perdas futuras.

Quando o ministro das Comunicações, Miro Teixeira, resolveu rebelar-se contra o reajuste das tarifas telefônicas – chegando ao ponto de anunciar que o governo iria à barra dos tribunais para impedir o aumento –, o efeito foi previsível: espalhou-se a insegurança de que o governo estava inclinado a descumprir contratos, uma sensação demolidora para a estabilidade dos negócios. Nessa ocasião, Antonio Palocci e Miro Teixeira, que se tratam como compadres, tiveram uma conversa na base do "deixa-disso". Por garantia, Palocci solicitou a Lula que telefonasse para o ministro das Comunicações reforçando o pedido de silêncio. Pronto: o assunto foi devidamente enterrado.

A postura interna de Palocci explica um fenômeno curioso do governo Lula. Trata-se de uma equipe um tanto heterogênea, em que se misturam pragmáticos do capital, reformistas moderados e utopistas da velha-guarda. No início do governo, cada vez que essa massa diversa produzia uma bolha nova, o mercado se agitava. No fim de abril, por exemplo, o senador Aloizio Mercadante, do PT paulista, disse que a cotação do dólar não poderia baixar ainda mais, sob pena de prejudicar as exportações. De imediato, o dólar subiu e rompeu a barreira dos 3 reais, pois o mercado ficou com a impressão de que o governo poderia estar planejando uma intervenção no câmbio. Agora, porém, apesar das bolhas que ainda surgem aqui e ali, o mercado reage com relativa calma. O dólar continua sob controle, a inflação não sobe e o risco Brasil permanece abaixo dos 800 pontos, com os títulos brasileiros valorizados no exterior. A explicação é que Palocci tem atuado junto ao mercado e aos investidores como um introdutor à etiqueta petista. A alguns deles, costuma dizer: "O PT é assim mesmo, cheio de emoções. Tem mais emoção que Coca-Cola. Mas, na hora de votar, vota unido". Aparentemente, o mercado tem entendido que é assim mesmo. Amém.

 
 
 
 
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