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Especial
Com
o coração nas mãos
Hoje
é possível calcular com
precisão o risco
de uma pessoa ter problemas cardíacos
no
prazo de dez anos. Isso é uma arma
poderosa de prevenção

Anna
Paula Buchalla
Montagem sobre fotos de Pedro Rubens
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Ok,
você já sabe de cor e salteado quais são os
maiores inimigos do coração tabagismo, hipertensão,
colesterol alto, diabetes. Mas há uma novidade nesse campo:
dá para calcular na ponta do lápis qual é exatamente
a probabilidade de uma pessoa ter um problema cardíaco num
prazo de dez anos, a partir da exposição a esses fatores
de risco. Até pouco tempo atrás, essa contabilidade
era impossível de ser feita. Ela só se tornou possível
graças aos avanços das pesquisas em cardiologia, a
área da medicina que mais evoluiu nos últimos vinte
anos. Quer saber o que o futuro reserva ao seu coração,
mantidas as suas condições atuais? Então faça
o teste.
Desenvolvida por cientistas americanos, essa avaliação
é capaz de determinar, por exemplo, que um homem de 41 anos,
não-fumante, sem diabetes, com pressão arterial 12
por 8, LDL (o colesterol ruim) inferior a 130 e HDL (o colesterol
bom) superior a 49 tem 4% de risco estatístico de sofrer
um distúrbio cardíaco ao longo da próxima década.
Precisar o grau da ameaça ao coração é
uma tremenda conquista. Ela fornece aos médicos maior segurança
na definição das estratégias para atacar ou
evitar males cardiovasculares. "Hoje, a medicina é capaz
de combater os riscos antes que eles causem a doença", diz
Otávio Rizzi Coelho, chefe da cardiologia da Universidade
Estadual de Campinas (Unicamp). Para algumas pessoas, basta a combinação
de dieta com exercícios físicos. Outras precisam mais
do que ginástica e filé de frango grelhado. Elas só
saem da zona de perigo com o uso de medicamentos. E esta é
a outra boa notícia no campo da cardiologia a descoberta
de drogas que previnem, e não apenas controlam, o problema.
Com a associação de aspirina, um potente anticoagulante,
com anti-hipertensivos e remédios para reduzir o colesterol
(as poderosas estatinas), evita-se em até 70% dos casos a
morte por infarto de um paciente de alto risco.
A
quantificação do perigo que corre o coração
de uma pessoa, por meio de um simples teste, é fruto da mais
ambiciosa pesquisa já realizada com uma grande população:
o estudo de Framingham, que, aliás, continua em andamento.
Desde 1948, médicos do governo americano já acompanharam
quase 15.000 moradores de Framingham,
uma pequena cidade próxima de Boston, na costa leste dos
Estados Unidos. De dois em dois anos, homens, mulheres e crianças
dessa localidade têm seu estilo de vida esmiuçado e
são submetidos a exames físicos e testes laboratoriais.
As pesquisas em Framingham resultaram em descobertas que mudaram
os rumos da cardiologia. Foi lá, por exemplo, que os médicos
identificaram o colesterol como inimigo do coração,
em 1961.
Além
dos fatores de risco tradicionais, há outros que começam
a vir à tona. Na semana passada, o FDA, a agência americana
de controle de alimentos e remédios, aprovou um novo método
de medição de risco cardíaco. Batizado de Plac,
em inglês, mede o nível da proteína fosfolipase
A2. Em excesso, ela indica a maior suscetibilidade do organismo
aos distúrbios do coração, mesmo entre as pessoas
que não têm o colesterol alto. Também é
recente a descoberta de que a presença de uma proteína,
a C-reativa ultra-sensível, ou simplesmente PCR, pode sugerir
a maior probabilidade de infartos ou derrames. A proteína
é liberada pelo fígado sempre que há uma infecção
aguda ou crônica no organismo. Quanto mais elevados os índices
de PCR no sangue, tanto maior é a ameaça ao coração.
Um outro marcador, que surgiu no ano passado, refere-se à
quantidade de cálcio nas artérias coronárias
a concentração dessa substância nos vasos
indica acúmulo de gordura e, assim, a possibilidade de ocorrer
um entupimento. Com a tomografia computadorizada, identifica-se
a concentração de cálcio nessas artérias.
Há ainda a relação do aminoácido homocisteína
com males cardíacos. Desconfia-se que a homocisteína
altere o tecido das coronárias, facilitando o depósito
de gordura na parede dos vasos.
Como
a medicina desvendou a maior parte das causas das doenças
cardiovasculares e como elas atacam o organismo, novas formas de
prevenção e de tratamento conseguiram reduzir drasticamente
as mortes por problemas de coração. Dos anos 80 ao
fim da década de 90, o Brasil registrou uma queda de 13%
na mortalidade. Ainda assim, as doenças cardiovasculares
são as que mais matam no Brasil, com 300.000
vítimas por ano. No Congresso Europeu de Cardiologia, realizado
há pouco, divulgou-se que os fatores de risco clássicos
têm uma agravante: um potencializa o efeito do outro. Um exemplo
é o da combinação de cigarro com hipertensão.
Mas a notícia boa permanece válida: é possível
reverter os prejuízos causados por esses fatores. Ao controlar
a pressão arterial, consegue-se reduzir em 42% a ocorrência
de derrames. A diminuição do colesterol evita, por
si só, 30% das mortes por doença cardiovascular.
Mesmo
os fatores de risco que são velhos conhecidos da ciência
continuam a ser objeto constante de estudos. Com isso, novas informações
são freqüentemente agregadas às antigas, aumentando
ainda mais a chance de controlar a saúde do coração.
Desde 1960, já se sabe dos malefícios do cigarro
descoberta também feita em Framingham, diga-se. Na população
em geral, o tabagismo ocupa o terceiro lugar no ranking dos vilões
do coração. A novidade é a descoberta de que
ele é a causa número 1 das mortes precoces por cardiopatias
antes dos 45 anos entre os homens e antes dos 55 entre as
mulheres. Um homem entre 35 e 44 anos que fuma menos de dez cigarros
por dia tem o dobro de probabilidade de morrer do coração
em relação a um não-fumante. Se ele consome
entre dez e vinte cigarros, seus riscos triplicam. E quadruplicam
se o consumo ultrapassa vinte cigarros diários. Também
é recente o endurecimento das regras contra a gordura trans,
presente no salgadinho de pacote, na batatinha frita das lanchonetes
fast food, na maioria das margarinas, na pipoca de microondas e
nos bolos e tortas industrializados. Mais perniciosa do que a gordura
saturada, a trans, além de aumentar os níveis de LDL,
o mau colesterol, ainda diminui os índices do HDL, o bom
colesterol. Há duas semanas, o governo americano determinou
que os fabricantes de alimentos industrializados devem informar
a quantidade de gordura trans no rótulo de seus produtos.
O que se pretende é combater a epidemia de obesidade que
tomou conta dos Estados Unidos e que já se esboça
no Brasil. As restrições à gordura trans também
significam um ataque indireto contra o diabetes e a pressão
alta.
Outra
frente de pesquisa que tem aprimorado a prevenção
e o tratamento das doenças cardíacas se dedica a estabelecer
as principais diferenças entre o coração dos
homens e o das mulheres. Há pouco tempo descobriu-se que
baixos níveis de HDL são muito mais perigosos para
o sexo feminino do que as altas taxas de LDL. No caso dos homens,
é justamente o contrário. O grande problema é
que as mulheres produzem naturalmente mais HDL. Uma baixa na produção
dessa substância acaba, portanto, comprometendo ainda mais
o bom funcionamento do organismo feminino. Por isso o tabagismo
é pior para elas, já que o cigarro tende a baixar
o HDL no sangue. Depois da menopausa, o quadro se agrava ainda mais,
com a diminuição da produção de estrógeno,
o hormônio sexual feminino por excelência. Isso porque
o estrógeno ajuda a impedir o depósito de colesterol
ruim nas artérias. Há que levar em conta também
o diferente peso do diabetes para os dois sexos. Entre as mulheres,
o diabetes quintuplica o risco de doenças do coração.
Entre os homens, dobra.
Ao
identificar o colesterol alto como um dos fatores de maior peso
na equação que leva ao surgimento de males cardíacos,
a ciência avançou a passos largos na guerra contra
ele. Em meados da década de 80, surgiu uma classe de drogas
revolucionária: as estatinas. Até então, a
única forma de combater o colesterol alto era a associação
de dieta com exercício físico o que não
funcionava para todo mundo, já que a quantidade de colesterol
produzida pelo organismo tem um forte componente genético.
Pois bem, as estatinas têm o poder de reduzir em 30% os níveis
do LDL em alguns casos essa redução pode chegar
a 60% e aumentar o do HDL. Em pouco tempo, elas se tornaram
um dos remédios mais receitados em todo o mundo. Hoje, cerca
de 100 milhões de pessoas, em diferentes latitudes, tomam
algum tipo de estatina. Em 1994, ficou provado definitivamente que
elas são capazes de reduzir o número de mortes por
doenças cardiovasculares. "As estatinas são o melhor
remédio que já inventaram depois da aspirina", afirma
o cardiologista Raul Santos, do Instituto do Coração,
de São Paulo. "Elas só não são melhores
porque ainda são muito caras." Cada comprimido de Lípitor,
nome comercial de uma das mais potentes estatinas, custa 2,50 reais.
Uma
série de estudos vem mostrando que as estatinas fazem bem
até a quem não tem colesterol alto. Foi comprovado
que elas melhoram o funcionamento da parede das artérias
coronárias e diminuem a formação de coágulos,
o que pode levar à obstrução arterial. Há
duas semanas, um estudo inglês que media os benefícios
em diabéticos da atorvastatina, um tipo de estatina, foi
encerrado antes do planejado. Motivo: a expressiva redução
de ataques cardíacos e derrames no universo dos participantes
que tomavam o remédio. Três mil pacientes com diabetes
tipo 2, sem nenhuma história anterior de doença cardiovascular,
foram divididos em dois grupos. O primeiro recebeu o medicamento.
O segundo foi tratado à base de placebo. Diante dos resultados
excelentes obtidos com o grupo que consumia atorvastatina, os médicos
acharam que não seria justo privar o outro do uso do medicamento.
O alcance das estatinas pode ir além da proteção
do coração. Suspeita-se que elas auxiliam no combate
à osteoporose, ao mal de Alzheimer, à esclerose múltipla
e até ao câncer (veja
quadro).
Dois
grandes laboratórios já estudam combinar estatinas
e anti-hipertensivos num único comprimido. Outra promessa,
ainda um tanto distante, vem de cientistas ingleses. Com base em
mais de 750 estudos envolvendo 400.000
pessoas que tomam medicamentos para o coração, eles
resolveram propor a criação de uma pílula que
associasse cinco medicamentos. Segundo esses cientistas, essa "polipílula"
poderia evitar, sozinha, mais de 80% dos ataques cardíacos
e derrames em pessoas com mais de 55 anos. O super-remédio
conteria aspirina, uma estatina, dois medicamentos para reduzir
a pressão alta e ácido fólico, uma vitamina
que ajuda a manter os níveis normais de homocisteína
no organismo.
Na
busca pela diminuição ao máximo dos fatores
de risco, os médicos vêm endurecendo as diretrizes
de prevenção. Os parâmetros considerados ideais
estão cada vez mais baixos. O colesterol total aceitável
passou de 240 miligramas por decilitro de sangue para 200 miligramas
por decilitro de sangue. Passou-se também a dar atenção
especial à gordura abdominal, a mais danosa ao coração.
Recomenda-se que a circunferência da cintura seja inferior
a 94 centímetros para os homens e menor do que 80 centímetros
para as mulheres. Quanto aos exercícios físicos, agora
a prescrição é de meia hora, todos os dias
e não mais de três vezes por semana, como se
preconizava até pouco tempo atrás. Além disso,
o Instituto Nacional de Saúde americano estabeleceu, há
dois meses, que a pressão arterial só pode ser considerada
inofensiva se estiver abaixo de 12 por 8. A partir desse patamar,
já se estaria na faixa de perigo. Trata-se de uma decisão
que é motivo de controvérsias. A maioria dos médicos
brasileiros considera isso um exagero. É inevitável,
porém, que o parâmetro americano acabe prevalecendo,
já que os Estados Unidos são o país mais adiantado
em termos de prevenção e tratamento. As regras para
manter a saúde do coração podem estar cada
vez mais rígidas, mas sempre serão um preço
baixo demais para quem deseja viver mais e melhor.
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"AS
CÉLULAS-TRONCO SÃO UMA BÊNÇÃO
DE DEUS"

Karina Pastore
Oscar Cabral
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| José
Carlos da Rosa: vitalidade recuperada depois do
transplante de células-tronco |
Uma das grandes esperanças no tratamento das
doenças cardíacas são as células-tronco.
Essas células não têm uma função
específica e, por isso, podem se transformar
em partes de qualquer tecido do corpo. Injetadas no
coração, assumem a característica
de células cardíacas e regeneram áreas
deterioradas por causa de um infarto ou uma insuficiência
coronariana, entre outros problemas. Iniciados em 1998,
os estudos com células-tronco avançam
num ritmo impressionante. E, nessa corrida, o Brasil
tem posição de destaque. Dos cerca de
sessenta transplantes de células-tronco realizados
no mundo, dezoito foram feitos no Brasil catorze
deles no Hospital Pró-Cardíaco, no Rio
de Janeiro. Vítimas de infartos graves, os pacientes
tinham, em média, 63 anos. "Nosso primeiro objetivo
era avaliar a segurança da técnica", diz
o cardiologista Hans Dohmann, do hospital carioca. A
primeira cirurgia ocorreu em 16 de dezembro de 2001.
Até hoje, segundo o médico, nenhum paciente
apresentou efeito adverso algum. Ao contrário,
eles recuperaram a vitalidade e a qualidade de vida.
O transplante de células-tronco é relativamente
simples e seus resultados são espantosos. Nas
cirurgias brasileiras, as células foram retiradas
da medula óssea da bacia dos pacientes. Por intermédio
de um cateter, introduzido na virilha, elas foram implantadas
na região do coração a ser recuperada.
As operações não duraram mais de
quatro horas e os pacientes receberam alta em dois dias.
Entre três e sete semanas depois, já era
possível notar a formação de um
novo sistema de artérias coronárias, que
acabaram por fazer com que o músculo cardíaco
dos transplantados voltasse a funcionar a contento.
Hoje é possível transformar células-tronco
em cerca de 150 tipos de célula, o que abre caminho
para o tratamento de diabetes, mal de Alzheimer, mal
de Parkinson, tetraplegia e vários tipos de câncer,
entre outras doenças. A princípio, acreditava-se
que células-tronco existiam apenas em embriões
que se encontravam nos primeiros dias de gestação.
Mais tarde, constatou-se que elas estavam presentes
também no cordão umbilical e na medula
óssea de um adulto. A melhor fonte de células-tronco
são os embriões. Mas, como eles precisam
ser destruídos para que a coleta seja feita,
a Igreja Católica e governos de países
com forte lobby cristão, como o dos Estados Unidos,
erguem obstáculos à continuação
das pesquisas. A resistência começa a ser
vencida. Na sexta-feira passada, a Espanha, país
predominantemente católico, autorizou experiências
com células-tronco embrionárias, desde
que os embriões sejam fruto de fertilização
artificial.
Não fosse o estudo com embriões humanos,
que inauguraram as pesquisas nesse campo e continuam
a alimentá-las, o aposentado carioca José
Carlos da Rosa, de 55 anos, talvez não estivesse
vivo e, o que é melhor, com boa saúde.
Para ele, "as células-tronco são uma bênção
de Deus". No fim de 2000, quatro anos depois de um infarto,
o seu coração começou a dar sinais
de que estava falhando. Com muita falta de ar e dores
fortes no peito, Rosa não tinha fôlego
para nada. "Se eu dava três passos, já
me cansava", conta. Tomar banho e até comer exigia
dele um esforço descomunal. Uma consulta com
um cardiologista trouxe a notícia de que o seu
músculo cardíaco estava dilatado demais
e que a única saída seria o transplante
de coração. Foi então que ele foi
convidado a receber um outro transplante o de
células-tronco. Operado em 21 de dezembro de
2001, no Hospital Pró-Cardíaco, Rosa começou
a sentir que seu coração retornava ao
normal uma semana depois da cirurgia. Hoje, ele voltou
a fazer suas caminhadas diárias, a andar de bicicleta
e o que é melhor, na sua opinião
a acompanhar os jogos do Flamengo. Torcedor fanático,
na época do coração enfraquecido,
ele nem se atrevia a escutar uma partida pelo rádio,
tamanho era o receio de infartar. "Hoje, eu torço,
me emociono e comemoro sem medo algum."
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