Edição 1813 . 30 de julho de 2003

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Especial
Com o coração nas mãos

Hoje é possível calcular com precisão o risco
de uma pessoa ter problemas cardíacos no
prazo de dez anos.
Isso é uma arma
poderosa de prevenção


Anna Paula Buchalla


Montagem sobre fotos de Pedro Rubens


NESTA EDIÇÃO
Melhor do que se imaginava
O futuro de seu coração
NA INTERNET
VEJA Saúde: Doenças do coração

Ok, você já sabe de cor e salteado quais são os maiores inimigos do coração – tabagismo, hipertensão, colesterol alto, diabetes. Mas há uma novidade nesse campo: dá para calcular na ponta do lápis qual é exatamente a probabilidade de uma pessoa ter um problema cardíaco num prazo de dez anos, a partir da exposição a esses fatores de risco. Até pouco tempo atrás, essa contabilidade era impossível de ser feita. Ela só se tornou possível graças aos avanços das pesquisas em cardiologia, a área da medicina que mais evoluiu nos últimos vinte anos. Quer saber o que o futuro reserva ao seu coração, mantidas as suas condições atuais? Então faça o teste. Desenvolvida por cientistas americanos, essa avaliação é capaz de determinar, por exemplo, que um homem de 41 anos, não-fumante, sem diabetes, com pressão arterial 12 por 8, LDL (o colesterol ruim) inferior a 130 e HDL (o colesterol bom) superior a 49 tem 4% de risco estatístico de sofrer um distúrbio cardíaco ao longo da próxima década. Precisar o grau da ameaça ao coração é uma tremenda conquista. Ela fornece aos médicos maior segurança na definição das estratégias para atacar ou evitar males cardiovasculares. "Hoje, a medicina é capaz de combater os riscos antes que eles causem a doença", diz Otávio Rizzi Coelho, chefe da cardiologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Para algumas pessoas, basta a combinação de dieta com exercícios físicos. Outras precisam mais do que ginástica e filé de frango grelhado. Elas só saem da zona de perigo com o uso de medicamentos. E esta é a outra boa notícia no campo da cardiologia – a descoberta de drogas que previnem, e não apenas controlam, o problema. Com a associação de aspirina, um potente anticoagulante, com anti-hipertensivos e remédios para reduzir o colesterol (as poderosas estatinas), evita-se em até 70% dos casos a morte por infarto de um paciente de alto risco.

A quantificação do perigo que corre o coração de uma pessoa, por meio de um simples teste, é fruto da mais ambiciosa pesquisa já realizada com uma grande população: o estudo de Framingham, que, aliás, continua em andamento. Desde 1948, médicos do governo americano já acompanharam quase 15.000 moradores de Framingham, uma pequena cidade próxima de Boston, na costa leste dos Estados Unidos. De dois em dois anos, homens, mulheres e crianças dessa localidade têm seu estilo de vida esmiuçado e são submetidos a exames físicos e testes laboratoriais. As pesquisas em Framingham resultaram em descobertas que mudaram os rumos da cardiologia. Foi lá, por exemplo, que os médicos identificaram o colesterol como inimigo do coração, em 1961.

Além dos fatores de risco tradicionais, há outros que começam a vir à tona. Na semana passada, o FDA, a agência americana de controle de alimentos e remédios, aprovou um novo método de medição de risco cardíaco. Batizado de Plac, em inglês, mede o nível da proteína fosfolipase A2. Em excesso, ela indica a maior suscetibilidade do organismo aos distúrbios do coração, mesmo entre as pessoas que não têm o colesterol alto. Também é recente a descoberta de que a presença de uma proteína, a C-reativa ultra-sensível, ou simplesmente PCR, pode sugerir a maior probabilidade de infartos ou derrames. A proteína é liberada pelo fígado sempre que há uma infecção aguda ou crônica no organismo. Quanto mais elevados os índices de PCR no sangue, tanto maior é a ameaça ao coração. Um outro marcador, que surgiu no ano passado, refere-se à quantidade de cálcio nas artérias coronárias – a concentração dessa substância nos vasos indica acúmulo de gordura e, assim, a possibilidade de ocorrer um entupimento. Com a tomografia computadorizada, identifica-se a concentração de cálcio nessas artérias. Há ainda a relação do aminoácido homocisteína com males cardíacos. Desconfia-se que a homocisteína altere o tecido das coronárias, facilitando o depósito de gordura na parede dos vasos.

Como a medicina desvendou a maior parte das causas das doenças cardiovasculares e como elas atacam o organismo, novas formas de prevenção e de tratamento conseguiram reduzir drasticamente as mortes por problemas de coração. Dos anos 80 ao fim da década de 90, o Brasil registrou uma queda de 13% na mortalidade. Ainda assim, as doenças cardiovasculares são as que mais matam no Brasil, com 300.000 vítimas por ano. No Congresso Europeu de Cardiologia, realizado há pouco, divulgou-se que os fatores de risco clássicos têm uma agravante: um potencializa o efeito do outro. Um exemplo é o da combinação de cigarro com hipertensão. Mas a notícia boa permanece válida: é possível reverter os prejuízos causados por esses fatores. Ao controlar a pressão arterial, consegue-se reduzir em 42% a ocorrência de derrames. A diminuição do colesterol evita, por si só, 30% das mortes por doença cardiovascular.

Mesmo os fatores de risco que são velhos conhecidos da ciência continuam a ser objeto constante de estudos. Com isso, novas informações são freqüentemente agregadas às antigas, aumentando ainda mais a chance de controlar a saúde do coração. Desde 1960, já se sabe dos malefícios do cigarro – descoberta também feita em Framingham, diga-se. Na população em geral, o tabagismo ocupa o terceiro lugar no ranking dos vilões do coração. A novidade é a descoberta de que ele é a causa número 1 das mortes precoces por cardiopatias – antes dos 45 anos entre os homens e antes dos 55 entre as mulheres. Um homem entre 35 e 44 anos que fuma menos de dez cigarros por dia tem o dobro de probabilidade de morrer do coração em relação a um não-fumante. Se ele consome entre dez e vinte cigarros, seus riscos triplicam. E quadruplicam se o consumo ultrapassa vinte cigarros diários. Também é recente o endurecimento das regras contra a gordura trans, presente no salgadinho de pacote, na batatinha frita das lanchonetes fast food, na maioria das margarinas, na pipoca de microondas e nos bolos e tortas industrializados. Mais perniciosa do que a gordura saturada, a trans, além de aumentar os níveis de LDL, o mau colesterol, ainda diminui os índices do HDL, o bom colesterol. Há duas semanas, o governo americano determinou que os fabricantes de alimentos industrializados devem informar a quantidade de gordura trans no rótulo de seus produtos. O que se pretende é combater a epidemia de obesidade que tomou conta dos Estados Unidos – e que já se esboça no Brasil. As restrições à gordura trans também significam um ataque indireto contra o diabetes e a pressão alta.

Outra frente de pesquisa que tem aprimorado a prevenção e o tratamento das doenças cardíacas se dedica a estabelecer as principais diferenças entre o coração dos homens e o das mulheres. Há pouco tempo descobriu-se que baixos níveis de HDL são muito mais perigosos para o sexo feminino do que as altas taxas de LDL. No caso dos homens, é justamente o contrário. O grande problema é que as mulheres produzem naturalmente mais HDL. Uma baixa na produção dessa substância acaba, portanto, comprometendo ainda mais o bom funcionamento do organismo feminino. Por isso o tabagismo é pior para elas, já que o cigarro tende a baixar o HDL no sangue. Depois da menopausa, o quadro se agrava ainda mais, com a diminuição da produção de estrógeno, o hormônio sexual feminino por excelência. Isso porque o estrógeno ajuda a impedir o depósito de colesterol ruim nas artérias. Há que levar em conta também o diferente peso do diabetes para os dois sexos. Entre as mulheres, o diabetes quintuplica o risco de doenças do coração. Entre os homens, dobra.

Ao identificar o colesterol alto como um dos fatores de maior peso na equação que leva ao surgimento de males cardíacos, a ciência avançou a passos largos na guerra contra ele. Em meados da década de 80, surgiu uma classe de drogas revolucionária: as estatinas. Até então, a única forma de combater o colesterol alto era a associação de dieta com exercício físico – o que não funcionava para todo mundo, já que a quantidade de colesterol produzida pelo organismo tem um forte componente genético. Pois bem, as estatinas têm o poder de reduzir em 30% os níveis do LDL – em alguns casos essa redução pode chegar a 60% – e aumentar o do HDL. Em pouco tempo, elas se tornaram um dos remédios mais receitados em todo o mundo. Hoje, cerca de 100 milhões de pessoas, em diferentes latitudes, tomam algum tipo de estatina. Em 1994, ficou provado definitivamente que elas são capazes de reduzir o número de mortes por doenças cardiovasculares. "As estatinas são o melhor remédio que já inventaram depois da aspirina", afirma o cardiologista Raul Santos, do Instituto do Coração, de São Paulo. "Elas só não são melhores porque ainda são muito caras." Cada comprimido de Lípitor, nome comercial de uma das mais potentes estatinas, custa 2,50 reais.

Uma série de estudos vem mostrando que as estatinas fazem bem até a quem não tem colesterol alto. Foi comprovado que elas melhoram o funcionamento da parede das artérias coronárias e diminuem a formação de coágulos, o que pode levar à obstrução arterial. Há duas semanas, um estudo inglês que media os benefícios em diabéticos da atorvastatina, um tipo de estatina, foi encerrado antes do planejado. Motivo: a expressiva redução de ataques cardíacos e derrames no universo dos participantes que tomavam o remédio. Três mil pacientes com diabetes tipo 2, sem nenhuma história anterior de doença cardiovascular, foram divididos em dois grupos. O primeiro recebeu o medicamento. O segundo foi tratado à base de placebo. Diante dos resultados excelentes obtidos com o grupo que consumia atorvastatina, os médicos acharam que não seria justo privar o outro do uso do medicamento. O alcance das estatinas pode ir além da proteção do coração. Suspeita-se que elas auxiliam no combate à osteoporose, ao mal de Alzheimer, à esclerose múltipla e até ao câncer (veja quadro).

Dois grandes laboratórios já estudam combinar estatinas e anti-hipertensivos num único comprimido. Outra promessa, ainda um tanto distante, vem de cientistas ingleses. Com base em mais de 750 estudos envolvendo 400.000 pessoas que tomam medicamentos para o coração, eles resolveram propor a criação de uma pílula que associasse cinco medicamentos. Segundo esses cientistas, essa "polipílula" poderia evitar, sozinha, mais de 80% dos ataques cardíacos e derrames em pessoas com mais de 55 anos. O super-remédio conteria aspirina, uma estatina, dois medicamentos para reduzir a pressão alta e ácido fólico, uma vitamina que ajuda a manter os níveis normais de homocisteína no organismo.

Na busca pela diminuição ao máximo dos fatores de risco, os médicos vêm endurecendo as diretrizes de prevenção. Os parâmetros considerados ideais estão cada vez mais baixos. O colesterol total aceitável passou de 240 miligramas por decilitro de sangue para 200 miligramas por decilitro de sangue. Passou-se também a dar atenção especial à gordura abdominal, a mais danosa ao coração. Recomenda-se que a circunferência da cintura seja inferior a 94 centímetros para os homens e menor do que 80 centímetros para as mulheres. Quanto aos exercícios físicos, agora a prescrição é de meia hora, todos os dias – e não mais de três vezes por semana, como se preconizava até pouco tempo atrás. Além disso, o Instituto Nacional de Saúde americano estabeleceu, há dois meses, que a pressão arterial só pode ser considerada inofensiva se estiver abaixo de 12 por 8. A partir desse patamar, já se estaria na faixa de perigo. Trata-se de uma decisão que é motivo de controvérsias. A maioria dos médicos brasileiros considera isso um exagero. É inevitável, porém, que o parâmetro americano acabe prevalecendo, já que os Estados Unidos são o país mais adiantado em termos de prevenção e tratamento. As regras para manter a saúde do coração podem estar cada vez mais rígidas, mas sempre serão um preço baixo demais para quem deseja viver mais e melhor.

 

"AS CÉLULAS-TRONCO SÃO UMA BÊNÇÃO DE DEUS"


Karina Pastore

Oscar Cabral
José Carlos da Rosa: vitalidade recuperada depois do transplante de células-tronco


Uma das grandes esperanças no tratamento das doenças cardíacas são as células-tronco. Essas células não têm uma função específica e, por isso, podem se transformar em partes de qualquer tecido do corpo. Injetadas no coração, assumem a característica de células cardíacas e regeneram áreas deterioradas por causa de um infarto ou uma insuficiência coronariana, entre outros problemas. Iniciados em 1998, os estudos com células-tronco avançam num ritmo impressionante. E, nessa corrida, o Brasil tem posição de destaque. Dos cerca de sessenta transplantes de células-tronco realizados no mundo, dezoito foram feitos no Brasil – catorze deles no Hospital Pró-Cardíaco, no Rio de Janeiro. Vítimas de infartos graves, os pacientes tinham, em média, 63 anos. "Nosso primeiro objetivo era avaliar a segurança da técnica", diz o cardiologista Hans Dohmann, do hospital carioca. A primeira cirurgia ocorreu em 16 de dezembro de 2001. Até hoje, segundo o médico, nenhum paciente apresentou efeito adverso algum. Ao contrário, eles recuperaram a vitalidade e a qualidade de vida.

O transplante de células-tronco é relativamente simples e seus resultados são espantosos. Nas cirurgias brasileiras, as células foram retiradas da medula óssea da bacia dos pacientes. Por intermédio de um cateter, introduzido na virilha, elas foram implantadas na região do coração a ser recuperada. As operações não duraram mais de quatro horas e os pacientes receberam alta em dois dias. Entre três e sete semanas depois, já era possível notar a formação de um novo sistema de artérias coronárias, que acabaram por fazer com que o músculo cardíaco dos transplantados voltasse a funcionar a contento.

Hoje é possível transformar células-tronco em cerca de 150 tipos de célula, o que abre caminho para o tratamento de diabetes, mal de Alzheimer, mal de Parkinson, tetraplegia e vários tipos de câncer, entre outras doenças. A princípio, acreditava-se que células-tronco existiam apenas em embriões que se encontravam nos primeiros dias de gestação. Mais tarde, constatou-se que elas estavam presentes também no cordão umbilical e na medula óssea de um adulto. A melhor fonte de células-tronco são os embriões. Mas, como eles precisam ser destruídos para que a coleta seja feita, a Igreja Católica e governos de países com forte lobby cristão, como o dos Estados Unidos, erguem obstáculos à continuação das pesquisas. A resistência começa a ser vencida. Na sexta-feira passada, a Espanha, país predominantemente católico, autorizou experiências com células-tronco embrionárias, desde que os embriões sejam fruto de fertilização artificial.

Não fosse o estudo com embriões humanos, que inauguraram as pesquisas nesse campo e continuam a alimentá-las, o aposentado carioca José Carlos da Rosa, de 55 anos, talvez não estivesse vivo – e, o que é melhor, com boa saúde. Para ele, "as células-tronco são uma bênção de Deus". No fim de 2000, quatro anos depois de um infarto, o seu coração começou a dar sinais de que estava falhando. Com muita falta de ar e dores fortes no peito, Rosa não tinha fôlego para nada. "Se eu dava três passos, já me cansava", conta. Tomar banho e até comer exigia dele um esforço descomunal. Uma consulta com um cardiologista trouxe a notícia de que o seu músculo cardíaco estava dilatado demais e que a única saída seria o transplante de coração. Foi então que ele foi convidado a receber um outro transplante – o de células-tronco. Operado em 21 de dezembro de 2001, no Hospital Pró-Cardíaco, Rosa começou a sentir que seu coração retornava ao normal uma semana depois da cirurgia. Hoje, ele voltou a fazer suas caminhadas diárias, a andar de bicicleta e – o que é melhor, na sua opinião – a acompanhar os jogos do Flamengo. Torcedor fanático, na época do coração enfraquecido, ele nem se atrevia a escutar uma partida pelo rádio, tamanho era o receio de infartar. "Hoje, eu torço, me emociono e comemoro sem medo algum."

 
 
 
 
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