Edição 1813 . 30 de julho de 2003

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Inglaterra
Um fantasma no
caminho de Blair

Morte de cientista que criticou o governo
causa crise na Inglaterra

AFP
Tony Blair: 39% dos ingleses querem sua renúncia


A morte dos filhos de Saddam Hussein pode salvar a carreira de Tony Blair? Talvez não, mas a repercussão do fim dos herdeiros de Saddam Hussein permitiu ao primeiro-ministro inglês tomar fôlego numa semana de inferno astral. Mas não foi o bastante para livrá-lo do peso de outra morte, a de David Kelly. Especialista em armas biológicas e consultor do Departamento de Defesa, Kelly cometeu suicídio depois de ser identificado pelo governo como a fonte de uma reportagem explosiva da BBC, o sistema público de rádio e televisão da Inglaterra. A matéria acusou o governo de ter exagerado intencionalmente as provas da existência de um arsenal de armas de destruição em massa no Iraque. Em especial, a informação de que o Iraque só precisaria de 45 minutos entre tomar a decisão e disparar essas armas, citada com grande ênfase por Blair no Parlamento. Dois dias depois de depor sobre o assunto perante uma comissão parlamentar, Kelly cortou o pulso esquerdo e sangrou até a morte num bosque perto de sua casa, no interior da Inglaterra, há duas semanas.

Em seu depoimento, o cientista admitiu ter conversado com o repórter da BBC, mas disse não acreditar que tenha sido a fonte principal da matéria. Depois de sua morte, a emissora disse que sim, ele era a fonte. Não há como saber se Kelly se matou devido à intolerável pressão do governo. Mas é essa a opinião da maioria da imprensa inglesa e de boa parte da opinião pública. De acordo com pesquisa divulgada pelo jornal Daily Telegraph, 39% dos ingleses crêem que o primeiro-ministro deve renunciar. Para 68%, ele não foi honesto na questão sobre a ameaça iraquiana. Em dificuldades para justificar o dossiê e, por extensão, a participação de tropas inglesas na invasão do Iraque, Blair agora tem contra si o peso emocional de uma morte. Kelly era um profissional dedicado e bem relacionado. Como inspetor das Nações Unidas, esteve 37 vezes no Iraque. Encontrar o arsenal secreto de Saddam Hussein era a ambição de sua vida. Como consultor da Defesa estava proibido de falar com jornalistas. Se burlava a regra, dizem seus amigos, era pelo prazer de esclarecer os detalhes técnicos. Suas declarações terão sido exageradas pela BBC?

A estatal da notícia está sendo acusada de também ter maquiado a história sobre o dossiê, pois Kelly, a única fonte da denúncia, não chegou a ter acesso ao texto final do documento. As relações entre o governo e a BBC não podiam estar em pior situação. No passado, a rede não escondia as simpatias pelo partido de Tony Blair, o Trabalhista. A preferência esfriou devido a divergências a respeito da política econômica liberal do governo e chegou ao fundo do poço com a guerra no Iraque. O primeiro-ministro reclamou bastante da cobertura crítica e cética que a rede fez do conflito. Um inquérito independente foi aberto para investigar as circunstâncias da morte do cientista. "Nem o governo nem a BBC vão passar incólumes ao escândalo", sentenciou a revista The Economist, editada em Londres.

 
Um cientista no fogo cruzado
Fotos AFP

A morte de David Kelly (à dir.) nas manchetes dos jornais ingleses: a maioria deles acusa o governo de ter transformado o principal especialista inglês em armas biológicas em bode expiatório para o fiasco do dossiê usado para justificar a invasão do Iraque

 

 

 
 
 
 
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