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Inglaterra
Um
fantasma no
caminho de Blair
Morte
de cientista que criticou o governo
causa crise na Inglaterra
AFP
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Tony Blair: 39% dos ingleses querem sua renúncia
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A
morte dos filhos de Saddam Hussein pode salvar a carreira de Tony
Blair? Talvez não, mas a repercussão do fim dos herdeiros
de Saddam Hussein permitiu ao primeiro-ministro inglês tomar
fôlego numa semana de inferno astral. Mas não foi o
bastante para livrá-lo do peso de outra morte, a de David
Kelly. Especialista em armas biológicas e consultor do Departamento
de Defesa, Kelly cometeu suicídio depois de ser identificado
pelo governo como a fonte de uma reportagem explosiva da BBC, o
sistema público de rádio e televisão da Inglaterra.
A matéria acusou o governo de ter exagerado intencionalmente
as provas da existência de um arsenal de armas de destruição
em massa no Iraque. Em especial, a informação de que
o Iraque só precisaria de 45 minutos entre tomar a decisão
e disparar essas armas, citada com grande ênfase por Blair
no Parlamento. Dois dias depois de depor sobre o assunto perante
uma comissão parlamentar, Kelly cortou o pulso esquerdo e
sangrou até a morte num bosque perto de sua casa, no interior
da Inglaterra, há duas semanas.
Em seu depoimento, o cientista admitiu ter conversado com o repórter
da BBC, mas disse não acreditar que tenha sido a fonte principal
da matéria. Depois de sua morte, a emissora disse que sim,
ele era a fonte. Não há como saber se Kelly se matou
devido à intolerável pressão do governo. Mas
é essa a opinião da maioria da imprensa inglesa e
de boa parte da opinião pública. De acordo com pesquisa
divulgada pelo jornal Daily Telegraph, 39% dos ingleses crêem
que o primeiro-ministro deve renunciar. Para 68%, ele não
foi honesto na questão sobre a ameaça iraquiana. Em
dificuldades para justificar o dossiê e, por extensão,
a participação de tropas inglesas na invasão
do Iraque, Blair agora tem contra si o peso emocional de uma morte.
Kelly era um profissional dedicado e bem relacionado. Como inspetor
das Nações Unidas, esteve 37 vezes no Iraque. Encontrar
o arsenal secreto de Saddam Hussein era a ambição
de sua vida. Como consultor da Defesa estava proibido de falar com
jornalistas. Se burlava a regra, dizem seus amigos, era pelo prazer
de esclarecer os detalhes técnicos. Suas declarações
terão sido exageradas pela BBC?
A estatal da notícia está sendo acusada de também
ter maquiado a história sobre o dossiê, pois Kelly,
a única fonte da denúncia, não chegou a ter
acesso ao texto final do documento. As relações entre
o governo e a BBC não podiam estar em pior situação.
No passado, a rede não escondia as simpatias pelo partido
de Tony Blair, o Trabalhista. A preferência esfriou devido
a divergências a respeito da política econômica
liberal do governo e chegou ao fundo do poço com a guerra
no Iraque. O primeiro-ministro reclamou bastante da cobertura crítica
e cética que a rede fez do conflito. Um inquérito
independente foi aberto para investigar as circunstâncias
da morte do cientista. "Nem o governo nem a BBC vão passar
incólumes ao escândalo", sentenciou a revista The
Economist, editada em Londres.
| Um
cientista no fogo cruzado |
Fotos AFP
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A
morte de David Kelly (à dir.) nas manchetes
dos jornais ingleses: a maioria deles acusa o governo
de ter transformado o principal especialista inglês
em armas biológicas em bode expiatório
para o fiasco do dossiê usado para justificar
a invasão do Iraque
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