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Iraque
Só
falta Saddam
O
cerco ao ditador fica mais apertado
com a morte de seus filhos, Udai e Qusai
AP
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Reuters
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PLAYBOY
PSICOPATA
Udai, o mais velho, nos bons tempos e fotografado morto: depois
da derrota, ele quis comandar a resistência |
Ainda
não foi a vez de Saddam Hussein, o troféu de que os
Estados Unidos precisam para demonstrar que a ocupação
do Iraque entrou nos trilhos. Mas os americanos chegaram próximo
do grande prêmio: os dois filhos do ditador. Localizados e
mortos na terça-feira da semana passada, Udai e Qusai Hussein
eram as figuras mais temidas do regime especialmente Udai,
o mais velho, um notório psicopata. De comportamento mais
discreto, mas igualmente cruel, Qusai era o herdeiro político
do pai. O desaparecimento dos dois permite aos iraquianos respirar
um pouco melhor. É um sinal de que, mais dia menos dia, os
americanos também vão capturar ou matar Saddam. Por
enquanto, ficou garantido, de forma radical, que já não
existe o risco de os irmãos Hussein retornarem, sedentos
de vingança, para reclamar a posse do feudo do pai. É
para deixar clara essa mensagem que o Exército dos Estados
Unidos está tão obsessivamente empenhado em divulgar
fotos dos corpos e outras evidências de que os herdeiros de
Saddam foram realmente mortos. Até permitiu, contrariando
a praxe americana de evitar a exibição pública
de cadáveres, que fossem filmados por emissoras de TV. Os
corpos já estavam então limpos e barbeados, para se
parecerem mais com o que foram em vida. O próximo passo pode
ser aviões americanos espalharem fotos dos irmãos
mortos, para convencer os iraquianos de que o pesadelo acabou.
A
eliminação dos irmãos Hussein ajuda a quebrar
o vínculo psicológico que a maioria dos iraquianos
ainda mantém com o antigo regime. Até agora, 37 dos
55 figurões da lista dos mais procurados no Iraque já
foram mortos ou capturados. Apesar de todos esses golpes, o Pentágono
não espera que os ataques às forças americanas
a média está entre doze e vinte por dia
cessem de uma hora para outra. Isso porque parece que apenas uma
parte deles é orquestrada diretamente pela família
de Saddam. A maioria dos ataques, de acordo com o serviço
de inteligência americano, é realizada por células
isoladas de remanescentes do Baath, o partido único da ditadura.
"A incredulidade é muito profunda lá. Chega quase
ao nível da paranóia", explicou o subsecretário
de Defesa Paul Wolfowitz, um dos mentores da política linha-dura
do governo americano, recém-chegado de uma visita ao Iraque.
"Um dos grandes efeitos da morte dos filhos de Saddam sobre os iraquianos
será demonstrar nossa seriedade." A questão mais urgente,
evidentemente, é encontrar Saddam. Pelo exemplo de seus filhos,
pode-se ter uma idéia de como o ex-ditador se esconde. Udai
e Qusai estavam havia quase um mês escondidos na casa de um
parente distante em Mosul, cidade a 380 quilômetros ao norte
de Bagdá. De acordo com o dono da casa, Nawaf al-Zaidan Nasiri,
os dois apareceram sem aviso prévio, no meio da noite, e
pediram abrigo. Estavam acompanhados pelo filho mais velho de Qusai,
Mustafá, de 14 anos, e por um guarda-costas. O carro em que
viajavam, um BMW, ainda está estacionado diante da residência,
crivado de balas.
AFP
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Reuters
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CHEFÃO
DA REPRESSÃO
Qusai, o caçula, deixou crescer a barba na clandestinidade:
o único a saber do paradeiro do pai |
Alguém
os entregou aos americanos em troca da recompensa de 15 milhões
de dólares oferecida por cada um. O delator mais provável
é o próprio dono da casa. Empreiteiro que ficou rico
com favores recebidos do governo, Nawaf tinha pelo menos uma conta
pessoal a acertar com o regime: a condenação a sete
anos de cadeia de um de seus irmãos, pelo crime de exagerar
seu grau de parentesco com o clã Saddam. É mais provável,
contudo, que não tenha resistido à tentação
representada pela recompensa de 30 milhões de dólares.
Na terça-feira, ele deixou a casa às 6 horas da manhã,
com toda a sua família, a pretexto de fazer um piquenique.
Quatro horas depois, a residência foi cercada por soldados
americanos. Os primeiros a entrar na casa defrontaram com barricadas
e com uma barragem de tiros de fuzis AK-47. Nas três horas
seguintes, os americanos foram aumentando seu poder de fogo. Trouxeram
200 soldados de tropas de elite, dispararam foguetes antitanques
pelas janelas. Por fim, helicópteros abriram o telhado com
uma salva de mísseis. Aparentemente, Qusai e Udai foram mortos
pelos mísseis. Quando os americanos entraram novamente na
casa, foram recebidos a tiros pelo único ainda em pé,
o menino Mustafá. Ele disparou mais de uma vez contra os
americanos, antes de ser morto.
AFP
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O
BUNKER DESTRUÍDO
Mais de 200 soldados levaram três horas para tomar a casa
em que Udai e Qusai se escondiam |
Exceto
talvez por seus pais e parentes próximos, ninguém
no Iraque lamentou a morte de Qusai e Udai. Mesmo os partidários
de Saddam devem sentir certo alívio. O comportamento violento
e imprevisível do primogênito era um perigo até
para o primeiro escalão do regime. Certa vez, ele jogou o
ministro da Saúde num canil, para ser estraçalhado
pelos cães. Numa festa de família, discutiu com um
tio e o baleou na perna, que teve de ser amputada. Era notório
que estuprava mulheres e adolescentes escolhidas a seu bel-prazer,
algumas pegas nas ruas, outras esposas ou filhas de membros do governo
ou de militares. Como chefes, respectivamente, dos serviços
de segurança e da milícia fedain, ligada ao Partido
Baath, eles eram os braços operacionais do regime de terror.
Quando Saddam Hussein se tornou presidente do Iraque, em 1979, ele
levou Udai, na época com 15 anos, e Qusai, com 13, para assistir
à execução de dúzias de desafetos políticos.
Udai contou mais tarde ter matado pessoalmente alguns deles.
Será
preciso perguntar ao próprio Saddam, se ele for capturado
com vida, que tipo de filho pretendia criar com tal experiência.
O certo é que o próprio ditador acabou perdendo a
paciência com a brutalidade desenfreada de Udai. Em 1988,
o primogênito, então com 24 anos, matou a pauladas
o guarda-costas predileto do pai durante uma festa em homenagem
à primeira-dama do Egito. Como punição, Saddam
mandou queimar quarenta carros de luxo da coleção
de Udai e o exilou na Suíça. Logo ele estava de volta
(foi expulso pelos suíços depois de tentar esfaquear
alguém numa briga de bar). Em 1996, Udai sobreviveu a um
atentado a tiros cometido, ao que parece, por parentes de
uma moça que ele estuprou e começou a andar
de bengala. Com tudo isso, o herdeiro passou a ser o irmão,
Qusai. O caçula era mais quieto e reflexivo. Mas não
menos perigoso. Depois da Guerra do Golfo, em 1991, ele comandou
o assassinato em massa dos muçulmanos xiitas, que tinham
se revoltado no sul do Iraque. Supervisionava pessoalmente sessões
de tortura e coordenou a "limpeza" das prisões a superlotação
foi resolvida com a execução dos presos. Atribui-se
a ele a idéia de jogar prisioneiros dentro de máquinas
trituradoras. Os mais afortunados eram colocados com a cabeça
para a frente e morriam logo. A agonia era mais prolongada para
aqueles que tinham os pés esmagados primeiro.
Um
guarda-costas de Udai, que foi dispensado depois da queda de Bagdá,
contou ao jornal inglês The Times que o ditador e seus
dois filhos só deixaram a capital cinco dias depois da chegada
dos americanos. Segundo ele, o mais velho mudou bastante com a guerra.
"Pela primeira vez Udai tinha um objetivo, estava fazendo algo por
seu país", contou. "Ele só pensava em comandar a resistência."
Apesar disso, como era considerado instável, não foi
informado do paradeiro do pai. Ao que parece, o único autorizado
a se comunicar com Saddam era o filho caçula. Qusai morreu
aos 37 anos. Era separado e tinha duas filhas, além de Mustafá.
Casado duas vezes, Udai era divorciado duas vezes e não tinha
filhos. A mulher de Saddam, mãe de Udai e Qusai, e suas três
filhas sobreviventes e netos não estão ameaçados
de prisão, mas se mantêm discretamente em local secreto.
Duas delas não falam com o pai desde 1996, quando o ditador
mandou matar seus maridos. A rigor, só falta Saddam para
dar por extinto o clã Hussein. Como no Iraque as lealdades
são tribais, os iraquianos só vão se sentir
seguros quando virem o chefe do clã ser capturado, vivo ou
morto.
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