Edição 1813 . 30 de julho de 2003

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Iraque
Só falta Saddam

O cerco ao ditador fica mais apertado
com a morte de seus filhos, Udai e Qusai


AP
Reuters
PLAYBOY PSICOPATA
Udai, o mais velho, nos bons tempos e fotografado morto: depois da derrota, ele quis comandar a resistência

Em Profundidade: A Era Saddam

Ainda não foi a vez de Saddam Hussein, o troféu de que os Estados Unidos precisam para demonstrar que a ocupação do Iraque entrou nos trilhos. Mas os americanos chegaram próximo do grande prêmio: os dois filhos do ditador. Localizados e mortos na terça-feira da semana passada, Udai e Qusai Hussein eram as figuras mais temidas do regime – especialmente Udai, o mais velho, um notório psicopata. De comportamento mais discreto, mas igualmente cruel, Qusai era o herdeiro político do pai. O desaparecimento dos dois permite aos iraquianos respirar um pouco melhor. É um sinal de que, mais dia menos dia, os americanos também vão capturar ou matar Saddam. Por enquanto, ficou garantido, de forma radical, que já não existe o risco de os irmãos Hussein retornarem, sedentos de vingança, para reclamar a posse do feudo do pai. É para deixar clara essa mensagem que o Exército dos Estados Unidos está tão obsessivamente empenhado em divulgar fotos dos corpos e outras evidências de que os herdeiros de Saddam foram realmente mortos. Até permitiu, contrariando a praxe americana de evitar a exibição pública de cadáveres, que fossem filmados por emissoras de TV. Os corpos já estavam então limpos e barbeados, para se parecerem mais com o que foram em vida. O próximo passo pode ser aviões americanos espalharem fotos dos irmãos mortos, para convencer os iraquianos de que o pesadelo acabou.

A eliminação dos irmãos Hussein ajuda a quebrar o vínculo psicológico que a maioria dos iraquianos ainda mantém com o antigo regime. Até agora, 37 dos 55 figurões da lista dos mais procurados no Iraque já foram mortos ou capturados. Apesar de todos esses golpes, o Pentágono não espera que os ataques às forças americanas – a média está entre doze e vinte por dia – cessem de uma hora para outra. Isso porque parece que apenas uma parte deles é orquestrada diretamente pela família de Saddam. A maioria dos ataques, de acordo com o serviço de inteligência americano, é realizada por células isoladas de remanescentes do Baath, o partido único da ditadura. "A incredulidade é muito profunda lá. Chega quase ao nível da paranóia", explicou o subsecretário de Defesa Paul Wolfowitz, um dos mentores da política linha-dura do governo americano, recém-chegado de uma visita ao Iraque. "Um dos grandes efeitos da morte dos filhos de Saddam sobre os iraquianos será demonstrar nossa seriedade." A questão mais urgente, evidentemente, é encontrar Saddam. Pelo exemplo de seus filhos, pode-se ter uma idéia de como o ex-ditador se esconde. Udai e Qusai estavam havia quase um mês escondidos na casa de um parente distante em Mosul, cidade a 380 quilômetros ao norte de Bagdá. De acordo com o dono da casa, Nawaf al-Zaidan Nasiri, os dois apareceram sem aviso prévio, no meio da noite, e pediram abrigo. Estavam acompanhados pelo filho mais velho de Qusai, Mustafá, de 14 anos, e por um guarda-costas. O carro em que viajavam, um BMW, ainda está estacionado diante da residência, crivado de balas.


AFP
Reuters
CHEFÃO DA REPRESSÃO
Qusai, o caçula, deixou crescer a barba na clandestinidade: o único a saber do paradeiro do pai

Alguém os entregou aos americanos em troca da recompensa de 15 milhões de dólares oferecida por cada um. O delator mais provável é o próprio dono da casa. Empreiteiro que ficou rico com favores recebidos do governo, Nawaf tinha pelo menos uma conta pessoal a acertar com o regime: a condenação a sete anos de cadeia de um de seus irmãos, pelo crime de exagerar seu grau de parentesco com o clã Saddam. É mais provável, contudo, que não tenha resistido à tentação representada pela recompensa de 30 milhões de dólares. Na terça-feira, ele deixou a casa às 6 horas da manhã, com toda a sua família, a pretexto de fazer um piquenique. Quatro horas depois, a residência foi cercada por soldados americanos. Os primeiros a entrar na casa defrontaram com barricadas e com uma barragem de tiros de fuzis AK-47. Nas três horas seguintes, os americanos foram aumentando seu poder de fogo. Trouxeram 200 soldados de tropas de elite, dispararam foguetes antitanques pelas janelas. Por fim, helicópteros abriram o telhado com uma salva de mísseis. Aparentemente, Qusai e Udai foram mortos pelos mísseis. Quando os americanos entraram novamente na casa, foram recebidos a tiros pelo único ainda em pé, o menino Mustafá. Ele disparou mais de uma vez contra os americanos, antes de ser morto.


AFP
O BUNKER DESTRUÍDO
Mais de 200 soldados levaram três horas para tomar a casa em que Udai e Qusai se escondiam

Exceto talvez por seus pais e parentes próximos, ninguém no Iraque lamentou a morte de Qusai e Udai. Mesmo os partidários de Saddam devem sentir certo alívio. O comportamento violento e imprevisível do primogênito era um perigo até para o primeiro escalão do regime. Certa vez, ele jogou o ministro da Saúde num canil, para ser estraçalhado pelos cães. Numa festa de família, discutiu com um tio e o baleou na perna, que teve de ser amputada. Era notório que estuprava mulheres e adolescentes escolhidas a seu bel-prazer, algumas pegas nas ruas, outras esposas ou filhas de membros do governo ou de militares. Como chefes, respectivamente, dos serviços de segurança e da milícia fedain, ligada ao Partido Baath, eles eram os braços operacionais do regime de terror. Quando Saddam Hussein se tornou presidente do Iraque, em 1979, ele levou Udai, na época com 15 anos, e Qusai, com 13, para assistir à execução de dúzias de desafetos políticos. Udai contou mais tarde ter matado pessoalmente alguns deles.

Será preciso perguntar ao próprio Saddam, se ele for capturado com vida, que tipo de filho pretendia criar com tal experiência. O certo é que o próprio ditador acabou perdendo a paciência com a brutalidade desenfreada de Udai. Em 1988, o primogênito, então com 24 anos, matou a pauladas o guarda-costas predileto do pai durante uma festa em homenagem à primeira-dama do Egito. Como punição, Saddam mandou queimar quarenta carros de luxo da coleção de Udai e o exilou na Suíça. Logo ele estava de volta (foi expulso pelos suíços depois de tentar esfaquear alguém numa briga de bar). Em 1996, Udai sobreviveu a um atentado a tiros – cometido, ao que parece, por parentes de uma moça que ele estuprou – e começou a andar de bengala. Com tudo isso, o herdeiro passou a ser o irmão, Qusai. O caçula era mais quieto e reflexivo. Mas não menos perigoso. Depois da Guerra do Golfo, em 1991, ele comandou o assassinato em massa dos muçulmanos xiitas, que tinham se revoltado no sul do Iraque. Supervisionava pessoalmente sessões de tortura e coordenou a "limpeza" das prisões – a superlotação foi resolvida com a execução dos presos. Atribui-se a ele a idéia de jogar prisioneiros dentro de máquinas trituradoras. Os mais afortunados eram colocados com a cabeça para a frente e morriam logo. A agonia era mais prolongada para aqueles que tinham os pés esmagados primeiro.

Um guarda-costas de Udai, que foi dispensado depois da queda de Bagdá, contou ao jornal inglês The Times que o ditador e seus dois filhos só deixaram a capital cinco dias depois da chegada dos americanos. Segundo ele, o mais velho mudou bastante com a guerra. "Pela primeira vez Udai tinha um objetivo, estava fazendo algo por seu país", contou. "Ele só pensava em comandar a resistência." Apesar disso, como era considerado instável, não foi informado do paradeiro do pai. Ao que parece, o único autorizado a se comunicar com Saddam era o filho caçula. Qusai morreu aos 37 anos. Era separado e tinha duas filhas, além de Mustafá. Casado duas vezes, Udai era divorciado duas vezes e não tinha filhos. A mulher de Saddam, mãe de Udai e Qusai, e suas três filhas sobreviventes e netos não estão ameaçados de prisão, mas se mantêm discretamente em local secreto. Duas delas não falam com o pai desde 1996, quando o ditador mandou matar seus maridos. A rigor, só falta Saddam para dar por extinto o clã Hussein. Como no Iraque as lealdades são tribais, os iraquianos só vão se sentir seguros quando virem o chefe do clã ser capturado, vivo ou morto.

 
 
 
 
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