Edição 1813 . 30 de julho de 2003

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Eterno retorno

FHC dá sinais de que pode, quem sabe,
estar sonhando de novo com a faixa


Maurício Lima

Alex Silva/AE
FHC dá sinais de que pode, quem sabe, estar sonhando de novo com a faixa

Quem perguntar ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso se ele tem alguma intenção, ainda que remota, de voltar à política, candidatando-se a um terceiro mandato ao Palácio do Planalto, ouvirá um desmentido peremptório. Mas, nas últimas semanas, o comportamento do ex-presidente começou a causar certo alvoroço no meio político. Tudo porque, depois de um período bastante breve de recolhimento, Fernando Henrique anda soltando o gogó outra vez. De início, deu uma entrevista ao site do PSDB dizendo que Luiz Inácio Lula da Silva não colaborou durante seu governo e que, dessa maneira, impediu a construção de um Brasil melhor. Depois, ao jornal argentino La Nación, classificou o programa Fome Zero, menina dos olhos de Lula, de "demagógico". Recentemente, afirmou que seu sucessor "tinha idéias generosas, mas pouca ação prática", acrescentou que Lula ia "demorar para notar que pode muito menos do que pensa que pode" e encerrou dizendo temer que o presidente perca "o ponto do bolo na área social". Por fim, considerou a última viagem de Lula à Europa como um "fiasco".

O curioso é que são críticas endereçadas à figura do presidente Lula, e não comentários sobre o rumo do governo ou o estilo da administração petista. A abordagem deixa a inevitável impressão de que o ex-presidente está convidando o país a fazer um exercício: comparar seu desempenho pessoal com o de Lula. Além disso, nas últimas semanas, Fernando Henrique tem feito questão de receber em almoços e jantares caravanas de políticos do PFL, do PSDB e nacos do despedaçado PMDB. Nesses encontros, o ex-presidente procura definir uma linha de atuação para seu partido e aliados, ora um tanto desorientados diante do governo petista. Tem dito, por exemplo, que a aprovação das reformas deve acontecer logo para destravar a agenda política. Também tem destacado a importância da união de forças para derrotar o PT nas próximas eleições municipais e também em 2006. Sua atuação já promoveu o retorno de um bom pedaço do PFL ao ninho tucano, consumando um matrimônio que deve gerar seu primeiro filhote na forma de uma aliança para a disputa da prefeitura de São Paulo em 2004.

Com suas intervenções, Fernando Henrique está tentando ajudar o PSDB a encontrar seu discurso de oposição, tarefa que, até agora, parece hercúlea, considerando o conteúdo do balanço que os tucanos recentemente divulgaram sobre o governo petista – em que ocupam onze páginas para acusar o PT de neoliberal. Com a eleição de Lula, o PSDB entrou em convulsão. Elegeu setenta deputados federais e hoje tem sessenta. Os governadores tucanos, puxados por Aécio Neves, de Minas Gerais, andam trocando afagos de simpatia com o governo federal. Um deles, Cássio Cunha Lima, da Paraíba, acompanhou Lula na recente viagem à Europa. Até o senador Tasso Jereissati, tucano do Ceará que saiu meio ferido na campanha presidencial, passou a dialogar com o governo do PT. Com isso, o comando paulista do tucanato, eterna vitrine e motor do partido, estava enfraquecido antes de FHC entrar em cena. Agora, com suas aparições, e com a ajuda oferecida pelos tropeços do próprio governo, a divisão tucana começa a se dissipar. Por que Fernando Henrique está aos poucos exercitando sua autoridade moral de ex-presidente, o que acaba por ofuscar estrelas ascendentes do partido, como Aécio Neves e o governador paulista Geraldo Alckmin? FHC garante que não é candidato a nada, mas... Mas esses dias disse que morria de saudade da piscina do Palácio da Alvorada e do helicóptero presidencial. Hum...

 
 
 
 
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