Edição 1813 . 30 de julho de 2003

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Justiça
Stedile declara guerra

Diante de um pôster de Che Guevara,
o chefăo do MST convoca seu "exército"
para "acabar" com os "latifundiários"

 

Dida Sampaio/AE
O manda-chuva João Pedro Stedile durante palestra a assentados: e o governo ainda acredita que ele quer terra para plantar


João Pedro Stedile, o manda-chuva do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, inverteu o ditado que diz que uma imagem vale mais que 1.000 palavras. As declarações que Stedile deu na semana passada traduzem seus propósitos com precisão ainda maior do que as imagens diárias de invasões de terras, prédios públicos e privados, terrenos e pedágios patrocinadas por seus seguidores. Durante palestra feita num acampamento em Canguçu, a 300 quilômetros ao sul de Porto Alegre, Stedile se referiu aos sem-terra como "nosso exército", aos agricultores e pecuaristas como "inimigos" e convocou a audiência para uma guerra. "A luta camponesa abriga hoje 23 milhões de pessoas. Do outro lado há 27000 fazendeiros. Essa é a disputa", afirmou. "Será que 1.000 perdem para um? É muito difícil. O que nos falta é nos unirmos. Para cada 1.000 pegaremos um. Não vamos dormir até acabar com eles", disse. Pela primeira vez se testemunhou o líder político admitindo que sua intenção não é conseguir terra para plantar feijão ou milho, mas "acabar" com uma fatia da sociedade. Stedile não entrou em detalhes, mas o Dicionário Aurélio informa que "acabar" é sinônimo de "extinguir", "destruir", "matar".

Eduardo Nicolau/AE
O acampamento dos sem-teto no ABC: inspiração vem do MST

O governo federal precisa sair de seu estado de delírio e parar de tratar o MST como um movimento social. Está cada vez mais claro que eles integram um movimento baderneiro que prega a violência e se alimenta de um combustível que mistura os excluídos no campo e na cidade, o complexo de culpa da elite e da classe média e a falta de firmeza das autoridades contra as ilegalidades praticadas. Segundo a lei, a reforma agrária deve ser feita por intermédio do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária. Quem quer terra deveria se inscrever no Incra e aguardar um chamado, que ocorreria quando o órgão comprasse uma propriedade improdutiva. Se fosse um movimento social de verdade, o MST organizaria as listas de inscrição e auxiliaria o governo a localizar terras. Em vez de manter sua agenda sob sigilo, Stedile teria seus compromissos divulgados diariamente e os políticos fariam fila para aparecer ao seu lado. Teria o prestígio semelhante ao de Zilda Arns ou Viviane Senna. Em vez disso, sob seu comando, os sem-terra patrocinam o caos. Na semana passada, ocuparam usinas de açúcar no Nordeste, bloquearam uma estrada em Minas Gerais e invadiram uma área de pesquisa agrícola no interior de São Paulo. Os cerca de 1 700 animais usados em vários estudos, muitos deles isolados havia anos, foram misturados.

 
Robson Ventura/Folha Imagem
Medo de invasão também nas cidades: portas cimentadas

Preocupadas em não ferir a suscetibilidade dos bravos combatentes do campo, as autoridades do governo Lula vêm se calando diante dos abusos. O procurador-geral da República, Cláudio Fonteles, destaca o que seria o lado positivo dos ataques e defende a tese de que a invasão de terra, se feita de forma "ordeira e pacífica", não atenta contra o direito de propriedade. Tradução possível: invadam, mas com calma! O presidente do Incra, Marcelo Resende, evita condenar os exageros e prefere explicar as invasões. "Lula é favorável à reforma agrária. A mim parece natural o (aumento do) contingente de famílias acampadas que nós temos hoje no Brasil", declarou. Nem mesmo o ministro Márcio Thomaz Bastos, da Justiça, escapou da opção preferencial pela cegueira temporária. Em entrevista, Bastos pediu aos sem-terra – e também aos proprietários rurais – que evitem a violência. Ora, o confronto tem sido provocado unicamente pela decisão dos soldados de Stedile de invadir terra que não lhes pertence. Os produtores rurais estão apenas defendendo seu patrimônio. A única voz a levantar-se contra o MST foi a do ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues. Na semana passada, ele divulgou uma nota dura sobre as declarações de Stedile. "Trata-se de um absurdo inconcebível, um equívoco brutal e uma ameaçadora agressão ao estado de direito e à democracia", diz a nota.

Stedile sugere em suas declarações que no campo brasileiro ainda vigora a mesma situação do período colonial e tal defeito só será corrigido por sua ação libertadora. A idéia é falsa. Num artigo recente, o agrônomo Francisco Graziano, ex-presidente do Incra no governo Fernando Henrique Cardoso, mostra que os agricultores brasileiros, aqueles que no ano passado produziram um superávit de 23 bilhões de dólares nas exportações, travam uma guerra antiga contra a improdutividade. Mostra ainda que, nos últimos vinte anos, a safra brasileira mais que dobrou. Saiu de 41 milhões de toneladas de grãos para 106 milhões. A pecuária nacional triplicou a exportação e o abastecimento interno. Nesse período, a taxa de ociosidade das terras brasileiras, o indicador maior de improdutividade, caiu de 11% para 5%. "Se a guerra dos sem-terra é contra o latifúndio, as grandes empresas agropastoris devem ser prestigiadas, não ameaçadas", escreve Graziano. "Afinal, elas trabalham com elevada produtividade, geram empregos e renda, trazem divisas que pagam a conta das importações industriais." Aparentemente, Stedile não liga para argumentos racionais. Ele quer guerra e acabou.

 
 
 
 
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