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Polícia
Paris,
desta vez, não foi
uma festa para Maluf
O
ex-governador passa onze horas prestando
depoimento a policiais franceses especializados
na repressão à lavagem de dinheiro

Rosana
Zakabi e Adriana Souza Lima
Alain Azambuja/AE
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Maluf em frente do Hotel Plaza Athénée
depois de liberado pelos policiais: "Eu demitiria o gerente" |
Entre
10h40 da manhã e 21h20 da quinta-feira passada, Paulo Maluf
fez um programa diferente dos que costuma cumprir em suas férias
anuais em Paris. Acompanhado da mulher, Sylvia, passou quase onze
horas prestando depoimento ao policial Richard Atlan, um dos comandantes
do Escritório Central para a Repressão à Grande
Delinqüência Financeira da França, que fica em
Nanterre, nas cercanias da capital francesa. Maluf, de 71 anos,
que foi governador e prefeito de São Paulo, foi detido pelos
policiais quando estava na agência do banco Crédit
Agricole da Avenida George V, a exclusivíssima via parisiense
que abriga a sede de nove em cada dez grifes francesas famosas.
Depois de liberado pelos policiais, Maluf deu sua versão
do passeio a Nanterre, falando a repórteres em pé
na frente do Hotel Plaza Athénée (diária de
700 euros), onde sempre se hospeda em Paris. "Fui verificar minha
conta e o gerente chamou os agentes. Se fosse dono do banco Crédit
Agricole, mandaria demiti-lo", disse Maluf, esbanjando a confiança
de sempre. Ele viajou para Mônaco no dia seguinte, onde deve
ficar por dez dias.
Na
sexta-feira, a polícia francesa deu outra versão para
o inusitado episódio. "O senhor Paulo Maluf foi colocado
em liberdade depois de interrogado em um processo de investigação
de lavagem de dinheiro", explicou o porta-voz do escritório
policial de Nanterre. O banco Crédit Agricole também
se manifestou por escrito: "O processo envolvendo o senhor Paulo
Maluf está sob segredo por ordem do juiz instrutor". Os policiais
interrogaram Maluf sobre suas movimentações bancárias.
Os valores chamaram a atenção do gerente, que comunicou
a operação ao Tracfin, o órgão do Ministério
da Economia francês que monitora toda e qualquer transação
bancária acima de 7 600 euros. Desde abril passado, o nome
de Maluf aparece nos registros das autoridades francesas como pessoa
acusada de lavagem de dinheiro no Brasil e sob investigação
em diversos países europeus. Os policiais liberaram Maluf
sem acusá-lo formalmente de nenhuma irregularidade. Mas o
ex-governador não saiu ileso do episódio. Na sexta-feira,
por ordem do juiz francês Henri Pons, o Crédit Agricole
congelou os fundos de Maluf na instituição e vai mantê-los
assim até a conclusão do processo em andamento na
Justiça francesa.
A
investigação das autoridades francesas começou
logo depois que Maluf depositou cerca de 1,6 milhão de dólares
na agência do Crédit Agricole. O dinheiro foi enviado
pela Fundação Blackbird, registrada no principado
de Liechtenstein. A fundação pertence a Flávio
Maluf, filho do ex-prefeito. Segundo o monitoramento dos franceses,
informado ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf)
do Brasil, o montante passou antes por uma agência do banco
Barings, em Genebra, onde Maluf é investigado há mais
de dois anos. Na semana passada, após ser liberado pela polícia
francesa, Maluf se limitou a informar que depositou em Paris 500.000
dólares que lhe foram enviados do Brasil. Informou também
que o dinheiro foi levantado no Brasil com a venda de imóveis
da família em São Paulo e depositado na conta francesa
antes do início das investigações, cuja existência
ele não nega. "O dinheiro é de origem maravilhosa,
herança de família", explicou Maluf na entrevista
em frente do hotel.
O
fato de o ex-prefeito movimentar quantia elevada no exterior não
deveria ser problema. Maluf é um homem rico. Ele mora em
uma mansão num dos bairros nobres de São Paulo, tem
uma coleção de carros de luxo e uma adega de fazer
inveja ao francês mais exigente. Só nos cassinos dos
Estados Unidos, segundo documentos da Receita Federal americana
enviados ao Ministério Público, de outubro de 1987
a abril de 2001 ele movimentou 1,5 milhão de dólares.
Na declaração de imposto de renda entregue ao Tribunal
Regional Eleitoral em 2000, ele avaliou seu patrimônio pessoal
em 74,9 milhões de reais. O depoimento à polícia
fazendária francesa tem relevância porque Maluf é
a peça central de uma investigação do Ministério
Público. Os promotores estão tentando obter provas
de que recursos desviados com o superfaturamento de obras da prefeitura
de São Paulo foram parar em contas de Maluf no exterior.
Até agora não conseguiram essas provas. Além
de Paris e Genebra, o ex-prefeito é investigado pela promotoria
distrital de Nova York e pelo Departamento de Justiça da
Ilha de Jersey. O aperto da polícia fazendária francesa
em Maluf não é um caso isolado. As operações
internacionais de transferência de dinheiro estão sendo
vigiadas com muito mais rigor desde o atentado terrorista de 11
de setembro nos Estados Unidos. O presidente da Kroll no Brasil,
Eduardo Sampaio, avalia: "O cerco já vinha apertando depois
do World Trade Center por causa das redes de financiamento do terror,
e agora a fiscalização ficou ainda maior. Não
podemos dizer que os dias dos paraísos fiscais estão
contados, mas a facilidade de movimentar dinheiro como víamos
antes não existe mais".
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