Edição 1813 . 30 de julho de 2003

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Polícia
Paris, desta vez, não foi
uma festa para Maluf

O ex-governador passa onze horas prestando
depoimento a policiais franceses especializados
na repressão à lavagem de dinheiro


Rosana Zakabi e Adriana Souza Lima

Alain Azambuja/AE
Maluf em frente do Hotel Plaza Athénée depois de liberado pelos policiais: "Eu demitiria o gerente"

Entre 10h40 da manhã e 21h20 da quinta-feira passada, Paulo Maluf fez um programa diferente dos que costuma cumprir em suas férias anuais em Paris. Acompanhado da mulher, Sylvia, passou quase onze horas prestando depoimento ao policial Richard Atlan, um dos comandantes do Escritório Central para a Repressão à Grande Delinqüência Financeira da França, que fica em Nanterre, nas cercanias da capital francesa. Maluf, de 71 anos, que foi governador e prefeito de São Paulo, foi detido pelos policiais quando estava na agência do banco Crédit Agricole da Avenida George V, a exclusivíssima via parisiense que abriga a sede de nove em cada dez grifes francesas famosas. Depois de liberado pelos policiais, Maluf deu sua versão do passeio a Nanterre, falando a repórteres em pé na frente do Hotel Plaza Athénée (diária de 700 euros), onde sempre se hospeda em Paris. "Fui verificar minha conta e o gerente chamou os agentes. Se fosse dono do banco Crédit Agricole, mandaria demiti-lo", disse Maluf, esbanjando a confiança de sempre. Ele viajou para Mônaco no dia seguinte, onde deve ficar por dez dias.

Na sexta-feira, a polícia francesa deu outra versão para o inusitado episódio. "O senhor Paulo Maluf foi colocado em liberdade depois de interrogado em um processo de investigação de lavagem de dinheiro", explicou o porta-voz do escritório policial de Nanterre. O banco Crédit Agricole também se manifestou por escrito: "O processo envolvendo o senhor Paulo Maluf está sob segredo por ordem do juiz instrutor". Os policiais interrogaram Maluf sobre suas movimentações bancárias. Os valores chamaram a atenção do gerente, que comunicou a operação ao Tracfin, o órgão do Ministério da Economia francês que monitora toda e qualquer transação bancária acima de 7 600 euros. Desde abril passado, o nome de Maluf aparece nos registros das autoridades francesas como pessoa acusada de lavagem de dinheiro no Brasil e sob investigação em diversos países europeus. Os policiais liberaram Maluf sem acusá-lo formalmente de nenhuma irregularidade. Mas o ex-governador não saiu ileso do episódio. Na sexta-feira, por ordem do juiz francês Henri Pons, o Crédit Agricole congelou os fundos de Maluf na instituição e vai mantê-los assim até a conclusão do processo em andamento na Justiça francesa.

A investigação das autoridades francesas começou logo depois que Maluf depositou cerca de 1,6 milhão de dólares na agência do Crédit Agricole. O dinheiro foi enviado pela Fundação Blackbird, registrada no principado de Liechtenstein. A fundação pertence a Flávio Maluf, filho do ex-prefeito. Segundo o monitoramento dos franceses, informado ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) do Brasil, o montante passou antes por uma agência do banco Barings, em Genebra, onde Maluf é investigado há mais de dois anos. Na semana passada, após ser liberado pela polícia francesa, Maluf se limitou a informar que depositou em Paris 500.000 dólares que lhe foram enviados do Brasil. Informou também que o dinheiro foi levantado no Brasil com a venda de imóveis da família em São Paulo e depositado na conta francesa antes do início das investigações, cuja existência ele não nega. "O dinheiro é de origem maravilhosa, herança de família", explicou Maluf na entrevista em frente do hotel.

O fato de o ex-prefeito movimentar quantia elevada no exterior não deveria ser problema. Maluf é um homem rico. Ele mora em uma mansão num dos bairros nobres de São Paulo, tem uma coleção de carros de luxo e uma adega de fazer inveja ao francês mais exigente. Só nos cassinos dos Estados Unidos, segundo documentos da Receita Federal americana enviados ao Ministério Público, de outubro de 1987 a abril de 2001 ele movimentou 1,5 milhão de dólares. Na declaração de imposto de renda entregue ao Tribunal Regional Eleitoral em 2000, ele avaliou seu patrimônio pessoal em 74,9 milhões de reais. O depoimento à polícia fazendária francesa tem relevância porque Maluf é a peça central de uma investigação do Ministério Público. Os promotores estão tentando obter provas de que recursos desviados com o superfaturamento de obras da prefeitura de São Paulo foram parar em contas de Maluf no exterior. Até agora não conseguiram essas provas. Além de Paris e Genebra, o ex-prefeito é investigado pela promotoria distrital de Nova York e pelo Departamento de Justiça da Ilha de Jersey. O aperto da polícia fazendária francesa em Maluf não é um caso isolado. As operações internacionais de transferência de dinheiro estão sendo vigiadas com muito mais rigor desde o atentado terrorista de 11 de setembro nos Estados Unidos. O presidente da Kroll no Brasil, Eduardo Sampaio, avalia: "O cerco já vinha apertando depois do World Trade Center por causa das redes de financiamento do terror, e agora a fiscalização ficou ainda maior. Não podemos dizer que os dias dos paraísos fiscais estão contados, mas a facilidade de movimentar dinheiro como víamos antes não existe mais".

 
 
 
 
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