A Record cancela
novelinha e recorre
a curingas para
segurar o ibope
Marcelo Marthe
Nesta semana, a
Rede Record sepultará um programa em que apostou muitas
fichas. A novelinha Alta Estação custou
11 milhões de reais e deveria cumprir um papel semelhante
ao de Malhação, da concorrente Globo:
ser a primeira atração em sua grade de folhetins.
Mas ela acabou se revelando um tiro n'água. Em seu
lugar, a emissora passará a transmitir uma série
estrangeira com um personagem manjado, o Zorro. Essa mudança
revela duas coisas. Uma delas é que séries estrangeiras
continuam sendo um tapa-buraco providencial para quase todas
as emissoras. Ela também diz muito sobre o momento
por que passa a Record. A rede vem desbancando o SBT do segundo
lugar no horário nobre com a proposta de construir
uma grade de programação sólida, à
maneira do que faz a Globo. Investiu pesado em jornalismo,
nas novelas e numa grade relativamente estável – ainda
mais se comparada com a do canal de Silvio Santos, na qual
os horários mudam conforme o humor do patrão.
O episódio mostra que ainda falta chão para
a Record chegar lá.
A permanência
de velhos seriados é um fenômeno curioso da TV
brasileira. O SBT sempre recorreu a curingas – como são
chamadas essas atrações que cobrem qualquer
cratera. O mais conhecido deles é o humorístico
mexicano Chaves. Seus 150 episódios são
reprisados pelo SBT há 23 anos – e ficam invariavelmente
entre as maiores audiências da rede. A Record tira vantagem
de outro curinga: o desenho do Pica-Pau. O personagem, surgido
nos anos 1940, já rodou pelo SBT, pela Globo e pela
própria Record em outros tempos. Desde novembro passado,
vinha sendo usado para recuperar o fôlego da emissora
depois de Alta Estação. Exibido logo
em seguida, ele ostentava até a semana passada 11 pontos
de média mensal de ibope – o dobro da alcançada
pela novelinha. Detalhe: seu custo por capítulo não
chega a um décimo do investimento nela. Além
do Pica-Pau, a emissora não dispensa um enlatado trash
no começo da tarde: Xena, a Princesa Guerreira neste
momento tem sua primeira temporada reprisada pela quarta
vez. Produção americana filmada na Colômbia,
o seriado do Zorro é o mais novo curinga do pedaço.
Resta saber se a Record se aferra a ele – ou tenta reviver
o seu genérico de Malhação.