O dilema de Ulysses Cruz, diretor
shakespeariano da novela das 6
Marcelo Marthe
Divulgação/TV Globo
Eterna Magia: quem diria, até James Joyce
foi parar na novela das 6
No ar desde o último
dia 14, a novela Eterna Magia vale-se de ingredientes
incomuns numa trama das 6. Não, não há
nada surpreendente na salada maluca da história – que
mistura uma comunidade fictícia de origem irlandesa
no interior de Minas Gerais, mitologia celta e esoterismo.
O que chama atenção são certas interpretações
marcadamente teatrais – como atestam as expressões
de Irene Ravache no papel de uma megera. Ou então as
"pílulas culturais" que pontuam a novela. No primeiro
capítulo, uma personagem apareceu num trem devorando
uma edição da peça A Tempestade, de
Shakespeare. Já se mencionou ainda a pintura de Rafael
Sanzio, a música de Villa-Lobos – e por aí afora.
Tudo isso tem a ver com uma presença nos créditos
da novela: o paulistano Ulysses Cruz. Teatrólogo que
ganhou fama com montagens das tragédias de Shakespeare,
ele passou a integrar os quadros da Globo há dez anos,
mas só com Eterna Magia ganha sua primeira incumbência
como diretor-geral de um folhetim. Um caminho natural, diz
ele: "Herdei o amor pela televisão de minha mãe,
que não perdia uma novela".
Oscar Cabral
Ulysses Cruz:
um ex-radical
do teatro que vestiu a camisa
da televisão
Antes de Cruz, a Globo já contava com diretores que dão um tempero mais experimental à teledramaturgia, como Luiz Fernando Carvalho, da minissérie Hoje É Dia de Maria, e Guel Arraes, de O Auto da Compadecida. Mas, enquanto ambos se fizeram na TV e no cinema, o diretor de Eterna Magia vinha de um currículo forjado apenas no teatro (a bem da verdade, tinha também outra experiência: dirigiu desfiles de escolas de samba nos anos 1980 e 90). Não foi uma transição sem dor. Dez anos atrás, depois de levar Hamlet ao palco, Cruz sentiu medo de se fechar num metiê estéril. "Eu já começava a me sentir amargo como meus colegas de profissão", afirma. Em crise, destruiu dois cenários. "Entrei numa obsessão de só querer fazer Shakespeare, o que é inviável no Brasil", diz. Cruz queria criar uma companhia para montar as 36 peças do autor inglês, mas desistiu depois de ouvir a reação do ator Antonio Fagundes a seu plano. "Ele ficou com os olhos cheios de lágrimas e me disse: 'Você vai se matar fazendo essa companhia'", recorda-se.
Em 1997, Cruz conseguiu
um estágio na Globo por indicação da
atriz e amiga Cássia Kiss. Depois de ficar esquecido
em seus quadros por uns tempos, caiu nas graças do
diretor decano da casa, Carlos Manga. Passou então
a dirigir infantis como o programa de Xuxa e o Sítio
do Picapau Amarelo. Antes de sua promoção
para a novela das 6, aliás, Cruz esteve à frente
da versão modernosa do Sítio que foi
um fiasco de audiência. Hoje, ele possui uma escola
de teatro em São Paulo e uma vez por ano co-dirige
uma montagem dos alunos. Mas garante que é só
passatempo. A TV virou seu ganha-pão – coisa vista
como heresia por muita gente do teatro. Entre os xiitas da
classe, quem flerta com a televisão é tido como
"vendido". "Enquanto esse pessoal ficar olhando para o próprio
umbigo, o teatro só vai perder público", afirma
Cruz. Ele não poupa de farpas seu ex-mentor, Antunes
Filho. "Ele fala bobagens contra a TV por preconceito", diz.
"Mas ela é a única manifestação
cultural digna de nota neste país."
No que depender de Cruz, as pílulas culturais em Eterna Magia estão só começando. Nos próximos tempos se verá uma discussão sobre a música erudita do francês Erik Satie entre Eva (Malu Mader), a pianista que voltou ao lugarejo para roubar o noivo da irmã, e seu pai. "Não posso fazer uma novela sobre uma pianista clássica sem falar de música", diz o diretor. Além disso, um personagem começará a circular com uma edição de Ulisses, o tijolão modernista do irlandês James Joyce. Cruz também estimula os atores a se mirar em exemplos grandiosos. Pediu a Irene Ravache que vivesse "uma mulher de Lorca", em referência ao escritor espanhol.
A questão
é que a palavra "teatral" é um tabu na TV. Associam-se
a ela cenas cheias de silêncio que podem ser fatais
para o ibope – tanto que o próprio Cruz procura evitar
o termo. Um temor que tem lá sua razão de ser.
Embora ainda seja cedo para avaliar a reação
do público, há na cúpula da Globo quem
aposte que seu estilo é uma das causas da audiência
baixa em relação à antecessora O Profeta
– sua média no ibope está abaixo do patamar
crítico para o horário, de 30 pontos. "Essas
afetações só incomodam o espectador",
diz um diretor da emissora. Cruz é um novato à
frente de novelas, mas já aprendeu o código
nessas situações: "Estou aberto para fazer qualquer
ajuste se não estiver agradando".