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30 de maio de 2007
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Televisão
Ser ou não ser teatral

O dilema de Ulysses Cruz, diretor
shakespeariano da novela das 6


Marcelo Marthe

Divulgação/TV Globo
Eterna Magia: quem diria, até James Joyce foi parar na novela das 6

No ar desde o último dia 14, a novela Eterna Magia vale-se de ingredientes incomuns numa trama das 6. Não, não há nada surpreendente na salada maluca da história – que mistura uma comunidade fictícia de origem irlandesa no interior de Minas Gerais, mitologia celta e esoterismo. O que chama atenção são certas interpretações marcadamente teatrais – como atestam as expressões de Irene Ravache no papel de uma megera. Ou então as "pílulas culturais" que pontuam a novela. No primeiro capítulo, uma personagem apareceu num trem devorando uma edição da peça A Tempestade, de Shakespeare. Já se mencionou ainda a pintura de Rafael Sanzio, a música de Villa-Lobos – e por aí afora. Tudo isso tem a ver com uma presença nos créditos da novela: o paulistano Ulysses Cruz. Teatrólogo que ganhou fama com montagens das tragédias de Shakespeare, ele passou a integrar os quadros da Globo há dez anos, mas só com Eterna Magia ganha sua primeira incumbência como diretor-geral de um folhetim. Um caminho natural, diz ele: "Herdei o amor pela televisão de minha mãe, que não perdia uma novela".

Oscar Cabral

Ulysses Cruz: um ex-radical
do teatro que vestiu a camisa
da televisão


Antes de Cruz, a Globo já contava com diretores que dão um tempero mais experimental à teledramaturgia, como Luiz Fernando Carvalho, da minissérie Hoje É Dia de Maria, e Guel Arraes, de O Auto da Compadecida. Mas, enquanto ambos se fizeram na TV e no cinema, o diretor de Eterna Magia vinha de um currículo forjado apenas no teatro (a bem da verdade, tinha também outra experiência: dirigiu desfiles de escolas de samba nos anos 1980 e 90). Não foi uma transição sem dor. Dez anos atrás, depois de levar Hamlet ao palco, Cruz sentiu medo de se fechar num metiê estéril. "Eu já começava a me sentir amargo como meus colegas de profissão", afirma. Em crise, destruiu dois cenários. "Entrei numa obsessão de só querer fazer Shakespeare, o que é inviável no Brasil", diz. Cruz queria criar uma companhia para montar as 36 peças do autor inglês, mas desistiu depois de ouvir a reação do ator Antonio Fagundes a seu plano. "Ele ficou com os olhos cheios de lágrimas e me disse: 'Você vai se matar fazendo essa companhia'", recorda-se.

Em 1997, Cruz conseguiu um estágio na Globo por indicação da atriz e amiga Cássia Kiss. Depois de ficar esquecido em seus quadros por uns tempos, caiu nas graças do diretor decano da casa, Carlos Manga. Passou então a dirigir infantis como o programa de Xuxa e o Sítio do Picapau Amarelo. Antes de sua promoção para a novela das 6, aliás, Cruz esteve à frente da versão modernosa do Sítio que foi um fiasco de audiência. Hoje, ele possui uma escola de teatro em São Paulo e uma vez por ano co-dirige uma montagem dos alunos. Mas garante que é só passatempo. A TV virou seu ganha-pão – coisa vista como heresia por muita gente do teatro. Entre os xiitas da classe, quem flerta com a televisão é tido como "vendido". "Enquanto esse pessoal ficar olhando para o próprio umbigo, o teatro só vai perder público", afirma Cruz. Ele não poupa de farpas seu ex-mentor, Antunes Filho. "Ele fala bobagens contra a TV por preconceito", diz. "Mas ela é a única manifestação cultural digna de nota neste país."

No que depender de Cruz, as pílulas culturais em Eterna Magia estão só começando. Nos próximos tempos se verá uma discussão sobre a música erudita do francês Erik Satie entre Eva (Malu Mader), a pianista que voltou ao lugarejo para roubar o noivo da irmã, e seu pai. "Não posso fazer uma novela sobre uma pianista clássica sem falar de música", diz o diretor. Além disso, um personagem começará a circular com uma edição de Ulisses, o tijolão modernista do irlandês James Joyce. Cruz também estimula os atores a se mirar em exemplos grandiosos. Pediu a Irene Ravache que vivesse "uma mulher de Lorca", em referência ao escritor espanhol.

A questão é que a palavra "teatral" é um tabu na TV. Associam-se a ela cenas cheias de silêncio que podem ser fatais para o ibope – tanto que o próprio Cruz procura evitar o termo. Um temor que tem lá sua razão de ser. Embora ainda seja cedo para avaliar a reação do público, há na cúpula da Globo quem aposte que seu estilo é uma das causas da audiência baixa em relação à antecessora O Profeta – sua média no ibope está abaixo do patamar crítico para o horário, de 30 pontos. "Essas afetações só incomodam o espectador", diz um diretor da emissora. Cruz é um novato à frente de novelas, mas já aprendeu o código nessas situações: "Estou aberto para fazer qualquer ajuste se não estiver agradando".

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