De barco, pelo Rio
Ienissei, um punhado de turistas segue para o Círculo
Ártico, onde visitará o que sobrou das instalações
de um gulag, um campo de concentração para dissidentes
da antiga União Soviética. Entre os viajantes
segue um russo octogenário que, nos anos 40 e 50, foi
um interno do campo – é ele o narrador de Casa
de Encontros (tradução de Rubens Figueiredo;
Companhia das Letras; 240 páginas; 39,50 reais), de
Martin Amis, 57 anos. Com amargura, o personagem constata
que os visitantes do campo são "deploravelmente poucos".
O comissário de bordo confirma que o turismo para o
gulag sempre deu prejuízo. Esse episódio dá
uma noção da ironia devastadora que marca o
novo livro de Amis: a Rússia pós-comunista se
arrisca em transformar seus monumentos de infâmia em
pontos turísticos, mas até esse empreendimento
duvidoso se revela um fracasso econômico. Casa de
Encontros nasceu das pesquisas que Amis fez sobre o comunismo
para escrever Koba the Dread (Koba o Terrível,
sem tradução no Brasil), ensaio sobre Stalin.
Rompendo uma série de obras de ficção
recebidas com frieza pela crítica, como Trem Noturno
e Yellow Dog, o novo romance foi saudado como uma
reflexão sobre a natureza dos regimes totalitários.
Sim, em grande parte, ele cumpre esse propósito. Mas
sua crítica ácida não se limita à
extinta União Soviética. Também atinge
a Rússia pré e pós-comunista. Amis, o
inglês, dedicou-se a retratar a "alma eslava". E não
pintou um quadro lisonjeiro.
Reprodução
Cena desenhada por um militar
do gulag: campos de concentração
transformados em pontos turísticos que dão
prejuízo
A narrativa de Casa
de Encontros toma a forma de uma carta escrita pelo protagonista,
em 2004, para a sua filha, nos Estados Unidos. Ele retorna
à Rússia depois de décadas de ausência
– para morrer. Figura pouco exemplar, o narrador não
tenta conquistar a simpatia do leitor. Soldado na II Guerra,
estuprou várias mulheres na marcha Alemanha adentro
(era a prática corriqueira do Exército Vermelho).
As razões de sua prisão, depois da guerra, não
ficam muito claras. Os motivos mais fúteis serviam
para aprisionar alguém como "fascista": elogiar o Ocidente,
por exemplo, era crime. Depois do gulag, o narrador acaba
se tornando negociante de armas para o mesmo estado que o
havia submetido à fome, à tortura, à
escravidão.
A história
se articula em torno de um triângulo amoroso formado
pelo narrador, seu irmão mais novo, Liev – também
prisioneiro do mesmo campo de trabalhos forçados –,
e Zóia, uma intelectual judia bela e liberal, dotada
de "nádegas brasileiras" e "peitos californianos".
A casa de encontros do título refere-se a uma cabana
na qual os prisioneiros do gulag eram eventualmente autorizados
a receber visitas conjugais. É lá que Liev recebe
Zóia, sua mulher, para uma noite de sexo que mudará
para sempre sua vida – para pior. O amor fica contaminado,
sujo pelo ambiente do gulag: uma vez em liberdade, Liev não
conseguirá dar continuidade à relação
com Zóia. Fará de tudo para sabotar o casamento,
até precipitar o divórcio. E é só
depois da morte de Liev que seu irmão mais velho tentará
um avanço amoroso sobre Zóia. Será um
momento patético, marcado pela violência.
O entrecho amoroso
é um tanto falho. O triângulo se desfaz pelo
vértice: a figura de Zóia é vaga, difusa
demais para justificar a obsessão dos dois irmãos.
Mas Amis quase convence seu leitor de que é um russo,
tal a familiaridade com que trata as misérias cotidianas
da vida soviética, dentro e fora do campo de prisioneiros.
O horror do gulag está magnificamente sintetizado na
cena em que Uglik, um guarda que perdeu os dedos por causa
do frio glacial, tenta acender um cigarro com as mãos
recentemente mutiladas. E a miséria – moral, econômica,
política – da Rússia pós-comunista ganha
uma representação alegórica inquietante
na descrição igualmente magistral de um bando
de cachorros selvagens que vagueia pelas ruas de uma desolada
cidade do Ártico.
A "repugnante proximidade
do estado" que estava no cerne da experiência totalitária
só não foi representada com perfeição
por um detalhe curioso: os comunistas de Amis são estranhamente
silenciosos. As palavras de ordem marxistas, as dissidências
internas do partido, a propaganda oficial figuram de forma
muito discreta no livro. A própria palavra "comunista"
surge pouco. Amis parece sugerir que, embora só pudesse
ter florescido plenamente na Rússia, o comunismo foi
uma contingência passageira: o autoritarismo da "mão
pesada russa" o precedia, e continua em vigor depois da queda
do regime marxista. Trata-se de uma tese controversa. É
uma lástima que a Rússia de Putin, com seus
ex-espiões e dissidentes assassinados, não possa
lhe oferecer uma contestação cabal.
Menos que zero
"Falei
para Liev que suas chances de sobrevivência eram
boas. No gulag, não se pode dizer que as pessoas
morriam feito moscas. Em vez disso, eram as moscas que
morriam feito pessoas. (...) Ali era o Ártico.
O que o corpo faz, no campo, é consumir a si
mesmo lentamente; meu irmão agora estava mais
grosso nos ombros e no peito, mas, com um metro e sessenta
de altura, ele continuava a ser uma refeição
parca. Faça as contas e as perspectivas dele
eram exatamente zero. Não, eram menos que zero."
Trecho
de Casa de Encontros
Igualmente ruim
Harlingue/Roger-Viollet/AFP
Trotski: combate aos "fermentos
desagregadores"
da arte
Liev, um dos personagens de Casa de Encontros,
é um poeta moderno frustrado, silenciado pelo
contexto político. O comunismo, tal como o nazismo,
foi hostil ao modernismo, considerado sintoma da decadência
burguesa. Saudável era a arte realista soviética,
com seus operários musculosos e camponeses corados.
Em alguns meios de esquerda, ainda vigora a idéia
de que a situação teria sido diferente
se Leon Trotski, o bolchevique intelectual, houvesse
subido ao poder no lugar do tosco Stalin. Literatura
e Revolução (tradução
de Luiz Alberto Moniz Bandeira; Jorge Zahar; 256 páginas;
32 reais), coletânea de Trotski recentemente relançada,
desmente essa visão. Trotski tinha, sim, mais
sensibilidade artística do que Stalin. Mas sua
aparente defesa da liberdade artística vem sempre
acompanhada de cláusulas de exceção.
Ele diz, por exemplo, que não cabe ao Partido
Comunista ditar os rumos da arte. Mas também
adverte que o PC deve combater as tendências artísticas
"venenosas" que introduzem "fermentos desagregadores
nos meios revolucionários". Exercícios
de história alternativa são sempre temerários:
nada indica que a União Soviética teria
sido menos opressiva com Trotski no poder.