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30 de maio de 2007
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Cinema
Autópsia de um assassino

Zodíaco recria a caçada real a um serial killer e assume
uma postura moral perante seus crimes: a de reduzir
a covardia à sua devida dimensão


Isabela Boscov

 

Fotos divulgação e Evan Agostini/Getty Images
Downey Jr., como o repórter Paul Avery, e Gyllenhaal, como o cartunista Robert Graysmith (no detalhe), autor do esboço acima, que recria a aparência do Zodíaco: uma caçada que levou os caçadores ao fundo do poço

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O diretor David Fincher tinha 7 anos quando a região da Baía de São Francisco, onde ele morava, entrou num estado prolongado de alarme em razão de um assassino serial autodenominado Zodíaco. Numa noite de julho de 1969, um rapaz e uma moça casada que estavam dentro de um carro, num lugar afastado, levaram um total de nove tiros, aparentemente sem razão nenhuma para que fossem escolhidos como alvo. A moça morreu; o rapaz, Michael Mageau, então com 19 anos, sobreviveu, embora com ferimentos gravíssimos. Imediatamente, o crime foi reivindicado pelo homem que chamava a si próprio de Zodíaco, em cartas e telefonemas a jornais, à polícia e até a familiares das vítimas. Neles, o Zodíaco alegava ainda que um outro duplo homicídio ocorrido meses antes, similar nas circunstâncias e na escolha das vítimas, fora também obra sua – e os detalhes que forneceu do caso convenceram os investigadores de que ele dizia a verdade. O Zodíaco viria a matar ainda um motorista de táxi, de noite, numa zona residencial, e um outro casal, numa tarde ensolarada à margem do Lago Berryessa, dessa vez a facadas. Novamente, a moça, Cecelia Shepherd, morreu, e o rapaz, Bryan Hartnell, resistiu. Com Cecelia, foi-se a esperança de uma identificação positiva. Ela o vira aproximando-se, antes que ele colocasse o capuz preto com que cobria a cabeça. Hartnell nunca chegou a ver as feições de seu agressor, e até sentir a faca entrando nas suas costas achou que perderia tão-somente a carteira e as chaves do carro. Na volumosa correspondência que continuou a enviar aos jornais, sempre acompanhada de criptogramas e charadas, o Zodíaco reclamou para si outros crimes (há sérias dúvidas de que ele tenha sido seu autor) e fez diversas ameaças. Dizia, por exemplo, que seguiria ônibus escolares e abateria as crianças a tiros no momento em que fossem deixadas em sua parada. A essa altura, todo o Norte da Califórnia estava em alerta e em pânico. O pai de David Fincher, contudo, decidiu que ele continuaria a tomar a condução de sempre para a escola – e essa impressão de algo vivido e vividamente lembrado está por toda parte em Zodíaco (Zodiac, Estados Unidos, 2007), o filme que o diretor fez sobre o caso e que estréia nesta sexta-feira no país.

O Zodíaco mandou sua última carta aos jornais em 1974, e nunca foi capturado. Nem sequer foi identificado. Um dos suspeitos mais prováveis morreu de infarto antes que pudesse ser reinterrogado, em 1992. Até hoje, uma multidão de detetives amadores se debruça sobre o caso sem chegar a um consenso sobre quem ele teria sido e por que agia como agiu. Não é esse enigma, porém, o que de fato preocupa Fincher. O que o fisgou foi a sedução da caçada, e a intensidade com que um punhado de homens respondeu a ela. Conhecido pela sensibilidade hiperbólica e pelo virtuosismo técnico demonstrados em filmes como Se7en e Clube da Luta, o diretor parte aqui numa direção radicalmente diferente: seu Zodíaco é todo sobre o trabalho meticuloso e cansativo de levantar fragmentos de informação, de conferir e repisar provas, de imaginar e reimaginar um mesmo cenário. É, enfim, um filme fascinado por um tema que até aqui parecia ausente da agenda de Fincher – o dia-a-dia das pessoas que batem cartão, e quanto essa rotina pode conter de drama.

Divulgação
Ruffalo e Edwards, como os investigadores do caso: em vez de acrobacias com a câmera, o máximo de realismo


Zodíaco
é também um filme sobre onde ficaria a linha que separa o perfeccionismo da obsessão. De um lado dela estão os dois principais investigadores do caso, os policiais David Toschi e William Armstrong (respectivamente, Mark Ruffalo e Anthony Edwards). Ambos devotam anos de sua carreira ao caso, mas, ao fim e ao cabo, têm o preparo necessário para desligar-se dele e não o levar para dentro de casa. Do outro lado dessa linha ficam o repórter policial Paul Avery (Robert Downey Jr.) e o cartunista Robert Graysmith (Jake Gyllenhaal), ambos do jornal San Francisco Chronicle, que não souberam como separar a busca de sua vida pessoal e foram bater no fundo do poço por causa dela – Avery, mais precisamente, no fundo da garrafa, e Graysmith num divórcio provocado por sua total e completa absorção nesse quebra-cabeça. É nos dois livros que ele escreveu sobre sua investigação particular, aliás, que o filme em boa parte se baseia (o primeiro deles está sendo lançado aqui, pela Novo Conceito). Na ocasião, o cartunista, que se envolveu na busca porque adorava charadas, passou meses trancado com suas notas, quase sem ver a mulher e os filhos pequenos – que hoje estão crescidos, mas com os quais ele faz questão de falar todos os dias. "Não sei desistir de nada", brincou ele em entrevista a VEJA, para a qual cedeu ainda um dos desenhos em que recriou a aparência provável do Zodíaco.

Para melhor servir a essa história de minúcias, Fincher adota uma narrativa límpida e direta. Em vez de ostentar sua excelência técnica, como é seu hábito, ele a submete aqui aos detalhes. Seu perfeccionismo está nos diálogos escritos como conversas realistas, nos figurinos que parecem roupa de gente de verdade, na edição de som soberba, que recria a atmosfera dos ambientes com o máximo de naturalismo, e nas interpretações eficientes e contidas (Mark Ruffalo, em especial, está excelente). Nenhum desses aspectos técnicos, porém, chama a atenção para si. Para quem espera um trabalho com a assinatura de Fincher, pode ser um banho de água fria. Para quem aprecia a idéia de ver um cineasta crescer e amadurecer, é um espetáculo. Em vez do grand guignol de Se7en e Clube da Luta, o que destaca Zodíaco é exatamente a maneira como ele rejeita qualquer tipo de exploração sensacionalista ou de valorização de seu personagem-título. "A última coisa que eu queria era que o filme gratificasse a ânsia por notoriedade de um assassino serial ou que servisse de inspiração masturbatória a psicopatas", diz Fincher. O raciocínio que ele expõe na construção do filme é, nesse sentido, impecável. Matar para existir aos olhos alheios é uma confissão de insignificância, e é na insignificância que Zodíaco firmemente mantém a personalidade do assassino. A única esfera em que ele existe, nos 158 minutos de projeção, é a das pessoas que ele anulou, e a das pessoas que buscam anulá-lo. Trata-se, de certa forma, de uma postura moral diante da covardia – a de tirar do covarde a dimensão épica ou heróica que ele pretende para si.

 
Hulton Archive/Getty Images

SEM SOLUÇÃO – Crimes como o da "Dália Negra" (acima), esquartejada na Los Angeles de 1947, ou os de Jack, o Estripador, que trucidou sete prostitutas na Londres dos anos 1880, ficam eternizados não apenas pela brutalidade, mas principalmente por permanecer sem solução. Assim como os homicídios cometidos pelo Zodíaco, esses dois casos clássicos estampam a marca que a criminologia viria a considerar típica dos assassinos compulsivos: a intensa ritualização do ato de matar

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