Zodíaco
recria a caçada real a um serial killer e assume uma postura moral
perante seus crimes: a de reduzir a covardia à sua devida dimensão
Isabela
Boscov
Fotos
divulgação e Evan Agostini/Getty Images
Downey
Jr., como o repórter Paul Avery, e Gyllenhaal, como o cartunista Robert
Graysmith (no detalhe), autor do esboço acima, que recria a aparência
do Zodíaco: uma caçada que levou os caçadores ao fundo do
poço
O
diretor David Fincher tinha 7 anos quando a região da Baía de São
Francisco, onde ele morava, entrou num estado prolongado de alarme em razão
de um assassino serial autodenominado Zodíaco. Numa noite de julho de 1969,
um rapaz e uma moça casada que estavam dentro de um carro, num lugar afastado,
levaram um total de nove tiros, aparentemente sem razão nenhuma para que
fossem escolhidos como alvo. A moça morreu; o rapaz, Michael Mageau, então
com 19 anos, sobreviveu, embora com ferimentos gravíssimos. Imediatamente,
o crime foi reivindicado pelo homem que chamava a si próprio de Zodíaco,
em cartas e telefonemas a jornais, à polícia e até a familiares
das vítimas. Neles, o Zodíaco alegava ainda que um outro duplo homicídio
ocorrido meses antes, similar nas circunstâncias e na escolha das vítimas,
fora também obra sua e os detalhes que forneceu do caso convenceram
os investigadores de que ele dizia a verdade. O Zodíaco viria a matar ainda
um motorista de táxi, de noite, numa zona residencial, e um outro casal,
numa tarde ensolarada à margem do Lago Berryessa, dessa vez a facadas.
Novamente, a moça, Cecelia Shepherd, morreu, e o rapaz, Bryan Hartnell,
resistiu. Com Cecelia, foi-se a esperança de uma identificação
positiva. Ela o vira aproximando-se, antes que ele colocasse o capuz preto com
que cobria a cabeça. Hartnell nunca chegou a ver as feições
de seu agressor, e até sentir a faca entrando nas suas costas achou que
perderia tão-somente a carteira e as chaves do carro. Na volumosa correspondência
que continuou a enviar aos jornais, sempre acompanhada de criptogramas e charadas,
o Zodíaco reclamou para si outros crimes (há sérias dúvidas
de que ele tenha sido seu autor) e fez diversas ameaças. Dizia, por exemplo,
que seguiria ônibus escolares e abateria as crianças a tiros no momento
em que fossem deixadas em sua parada. A essa altura, todo o Norte da Califórnia
estava em alerta e em pânico. O pai de David Fincher, contudo, decidiu que
ele continuaria a tomar a condução de sempre para a escola
e essa impressão de algo vivido e vividamente lembrado está por
toda parte em Zodíaco (Zodiac, Estados Unidos, 2007),
o filme que o diretor fez sobre o caso e que estréia nesta sexta-feira
no país.
O Zodíaco mandou
sua última carta aos jornais em 1974, e nunca foi capturado. Nem sequer
foi identificado. Um dos suspeitos mais prováveis morreu de infarto antes
que pudesse ser reinterrogado, em 1992. Até hoje, uma multidão de
detetives amadores se debruça sobre o caso sem chegar a um consenso sobre
quem ele teria sido e por que agia como agiu. Não é esse enigma,
porém, o que de fato preocupa Fincher. O que o fisgou foi a sedução
da caçada, e a intensidade com que um punhado de homens respondeu a ela.
Conhecido pela sensibilidade hiperbólica e pelo virtuosismo técnico
demonstrados em filmes como Se7en e Clube da Luta, o diretor parte
aqui numa direção radicalmente diferente: seu Zodíaco
é todo sobre o trabalho meticuloso e cansativo de levantar fragmentos de
informação, de conferir e repisar provas, de imaginar e reimaginar
um mesmo cenário. É, enfim, um filme fascinado por um tema que até
aqui parecia ausente da agenda de Fincher o dia-a-dia das pessoas que batem
cartão, e quanto essa rotina pode conter de drama.
Divulgação
Ruffalo
e Edwards, como os investigadores do caso: em vez de acrobacias com a câmera,
o máximo de realismo
Zodíaco
é também um filme sobre onde ficaria a linha que separa o perfeccionismo
da obsessão. De um lado dela estão os dois principais investigadores
do caso, os policiais David Toschi e William Armstrong (respectivamente, Mark
Ruffalo e Anthony Edwards). Ambos devotam anos de sua carreira ao caso, mas, ao
fim e ao cabo, têm o preparo necessário para desligar-se dele e não
o levar para dentro de casa. Do outro lado dessa linha ficam o repórter
policial Paul Avery (Robert Downey Jr.) e o cartunista Robert Graysmith (Jake
Gyllenhaal), ambos do jornal San Francisco Chronicle, que não souberam
como separar a busca de sua vida pessoal e foram bater no fundo do poço
por causa dela Avery, mais precisamente, no fundo da garrafa, e Graysmith
num divórcio provocado por sua total e completa absorção
nesse quebra-cabeça. É nos dois livros que ele escreveu sobre sua
investigação particular, aliás, que o filme em boa parte
se baseia (o primeiro deles está sendo lançado aqui, pela Novo Conceito).
Na ocasião, o cartunista, que se envolveu na busca porque adorava charadas,
passou meses trancado com suas notas, quase sem ver a mulher e os filhos pequenos
que hoje estão crescidos, mas com os quais ele faz questão
de falar todos os dias. "Não sei desistir de nada", brincou ele em entrevista
a VEJA, para a qual cedeu ainda um dos desenhos em que recriou a aparência
provável do Zodíaco.
Para
melhor servir a essa história de minúcias, Fincher adota uma narrativa
límpida e direta. Em vez de ostentar sua excelência técnica,
como é seu hábito, ele a submete aqui aos detalhes. Seu perfeccionismo
está nos diálogos escritos como conversas realistas, nos figurinos
que parecem roupa de gente de verdade, na edição de som soberba,
que recria a atmosfera dos ambientes com o máximo de naturalismo, e nas
interpretações eficientes e contidas (Mark Ruffalo, em especial,
está excelente). Nenhum desses aspectos técnicos, porém,
chama a atenção para si. Para quem espera um trabalho com a assinatura
de Fincher, pode ser um banho de água fria. Para quem aprecia a idéia
de ver um cineasta crescer e amadurecer, é um espetáculo. Em vez
do grand guignol de Se7en e Clube da Luta, o que destaca
Zodíaco é exatamente a maneira como ele rejeita qualquer
tipo de exploração sensacionalista ou de valorização
de seu personagem-título. "A última coisa que eu queria era que
o filme gratificasse a ânsia por notoriedade de um assassino serial ou que
servisse de inspiração masturbatória a psicopatas", diz Fincher.
O raciocínio que ele expõe na construção do filme
é, nesse sentido, impecável. Matar para existir aos olhos alheios
é uma confissão de insignificância, e é na insignificância
que Zodíaco firmemente mantém a personalidade do assassino.
A única esfera em que ele existe, nos 158 minutos de projeção,
é a das pessoas que ele anulou, e a das pessoas que buscam anulá-lo.
Trata-se, de certa forma, de uma postura moral diante da covardia a de
tirar do covarde a dimensão épica ou heróica que ele pretende
para si.
Hulton
Archive/Getty Images
SEM
SOLUÇÃO Crimes como o da "Dália Negra" (acima),
esquartejada na Los Angeles de 1947, ou os de Jack, o Estripador, que trucidou
sete prostitutas na Londres dos anos 1880, ficam eternizados não apenas
pela brutalidade, mas principalmente por permanecer sem solução.
Assim como os homicídios cometidos pelo Zodíaco, esses dois casos
clássicos estampam a marca que a criminologia viria a considerar típica
dos assassinos compulsivos: a intensa ritualização do ato de matar