A
descoberta de novas espécies em regiões profundas dos oceanos
mostra como a evolução age para determinar as formas de todos
os seres vivos. E também aumenta nossa responsabilidade na preservação
da saúde dos mares
Duda
Teixeira
Fotos
The New York Times
POLVO-DUMBO
As estruturas semelhantes a orelhas teriam
sido, no passado, tentáculos, modificados pela evolução da
espécie. Elas auxiliam o polvo a nadar para cima e para baixo. Ele pode
ter até 1,5 metro de comprimento. Habita regiões entre 300 e 5 000
metros de profundidade
MOVIDO
A ÁGUA Outra espécie de
polvo-dumbo, esta com apenas 20 centímetros. Ele se move com a ajuda das
orelhas, dos curtos tentáculos e de um jato de água que suga do
oceano e expele pelo corpo para lhe dar impulso. Vive a 400 metros de profundidade
Sempre
que se aventuram nas profundezas abissais dos oceanos, em regiões onde
a luz do sol não chega e a pressão esmagaria um ser da superfície,
os biólogos costumam deparar com espécies desconhecidas. São
peixes, polvos, lulas e águas-vivas que ao longo da evolução
adquiriram aparência surpreendente ao se adaptar ao ambiente hostil em que
vivem. Há hoje cinco submarinos, dois russos, um americano, um francês
e um japonês, que fazem pesquisas em águas a mais de 3 000 metros
de profundidade. A cada duas espécies que eles registram, uma era desconhecida
da ciência. Uma coleção de 220 dessas descobertas recentes
foi reunida num livro recém-lançado nos Estados Unidos, The Deep:
The Extraordinary Creatures of the Abyss (As Profundezas: As Extraordinárias
Criaturas do Abismo), da pesquisadora e produtora de filmes francesa Claire Nouvian.
A maioria dos animais foi fotografada em seu ambiente natural por câmeras
instaladas em submarinos tripulados ou em robôs mergulhadores, capazes de
descer a até 6 000 metros. Outros foram fotografados no convés dos
barcos após ser trazidos para a superfície em câmaras especiais
que mantêm a pressão do fundo do mar. "Antigamente, imaginava-se
que, quanto maior a profundidade, menos vida havia. Não é nada disso",
disse Claire a VEJA. "A diversidade é impressionante."
PEIXE
MONSTRO A enorme boca do diabo-do-mar
permite que, ao encontrar suas presas, ele capture o maior número possível
delas, já que nem sempre é fácil conseguir alimentos em seu
habitat. Os espinhos são sensores. Vive a até 3 400 metros de profundidade
Embora haja
muito mais espécies nas águas profundas do que se imaginava, a densidade
populacional de cada uma delas é pequena em comparação com
a de espécies que vivem próximo à superfície. Por
isso mesmo, a evolução favoreceu os animais capazes de enfrentar
escassez de alimentos e de parceiros sexuais. Os peixes machos da espécie
Ceratias holboelli, quando encontram uma fêmea, grudam nela e sofrem
uma metamorfose: suas atividades vitais adormecem e eles viram um parasita cujo
único órgão ativo é o reservatório de sêmen.
Uma forma de facilitar os encontros na escuridão é a bioluminescência.
Esse fenômeno ocorre quando peixes, polvos e outros organismos emitem luz
própria ou vivem em parceria com bactérias luminosas. As luzes atraem
parceiros da mesma espécie. A bioluminescência também atua
como isca para os peixes carnívoros atraírem suas presas. Algumas
espécies possuem um tipo de vara com uma isca luminosa na ponta que fica
a apenas alguns centímetros à frente da boca. Quando uma presa se
aproxima, é imediatamente engolida.
O
aspecto aterrorizador dos peixes carnívoros tem sua razão de ser.
A boca é enorme para que, ao encontrarem suas presas, eles consigam capturar
o maior número possível delas, já que o alimento é
escasso. O estômago é amplo e elástico para armazenar grandes
quantidades de comida pelo máximo de tempo, até que novas presas
sejam encontradas. Algumas águas-vivas, embora transparentes, possuem uma
membrana colorida que cobre o aparelho digestivo. Dessa forma, despistam o inimigo
em busca do alimento que está em seu interior. Apesar do aspecto medonho,
alguns peixes das profundezas são um ótimo petisco. Como o orange
roughy, encontrado em profundidades entre 160 e 1 600 metros. Sua pesca, feita
com extensas cordas com anzóis, começou há trinta anos, na
Nova Zelândia. Depois, outros trinta locais passaram a ser explorados no
Mediterrâneo e em regiões de vulcões submarinos. Em mais da
metade deles, a quantidade de orange roughy fisgados caiu para menos de 30% do
volume original. Isso se deve à baixa capacidade das populações
de se reproduzirem. A diminuição dos cardumes de orange roughy chama
atenção para o risco de destruição de um ecossistema
quase totalmente desconhecido, onde 1,5 milhão de espécies, segundo
se calcula, ainda aguardam no escuro para um dia ser catalogadas.
A
PEQUENA INCÓGNITA Esta espécie ainda
não foi identificada pelos biólogos. Sabe-se apenas que é um organismo que produz
luz própria, algo freqüente entre os seres que vivem nas regiões abissais, aonde
os raios de sol não chegam. Vive a 2 000 metros de profundidade
Como
não há luz solar nas profundezas dos oceanos, a fonte da vida nesses
locais são o calor e o gás metano liberados por fendas na crosta
terrestre ou por vulcões submarinos. Esse ambiente propicia o nascimento
de bactérias, que dão início a uma nova e ainda quase desconhecida
cadeia alimentar. Essa fauna, que inclui desde microorganismos até tubarões
de 8 metros de comprimento, é hoje uma das últimas fronteiras a
ser exploradas pela ciência. "Sabemos mais sobre a Lua do que sobre as regiões
profundas dos oceanos", comenta o oceanógrafo José Angel Alvarez
Perez, pesquisador da Universidade do Vale do Itajaí, em Santa Catarina.
O que já se sabe com certeza sobre a vida a mais de 3 000 metros de profundidade
é que ela reproduz os parâmetros que regem todos os animais conhecidos.
Embora esquisitos e até assustadores ao olhar dos humanos, os animais dos
abismos oceânicos nada têm de original em sua constituição,
o que confirma a descoberta do naturalista Charles Darwin de que todos os seres
vivos possuem um ancestral comum.
DISFARCE
NATURAL Este tipo de água-viva tem de
1 000 a 2 000 pequenos tentáculos. Ela é transparente, mas uma membrana vermelha
oculta seu sistema digestivo, despistando inimigos em busca do alimento que está
em seu interior. Vive a 900 metros de profundidade
Ao
estudarem os fósseis dos mais variados animais, os cientistas perceberam
que a evolução abusou da repetição de padrões
ao moldar os seres vivos. Um exemplo: todos os vertebrados têm em comum
uma coluna vertebral modular, o que varia são o número e o formato
das vértebras. Os desenhos da asa de uma borboleta podem parecer aleatórios.
Ao examinar detidamente o desenho, porém, nota-se que ele é formado
por motivos recorrentes. Outra característica universal da organização
dos animais é a simetria. A maioria deles, incluindo os seres humanos,
apresenta a simetria bilateral. Se traçarmos uma linha vertical imaginária
passando por nosso nariz, dividindo nosso corpo ao meio, veremos que um lado é
o espelho do outro. Assim também são os outros mamíferos,
os répteis e os insetos. Já as águas-vivas e as estrelas-do-mar
têm simetria radial, que se forma a partir do centro do corpo. "A maioria
dos animais tem simetria bilateral porque nosso ancestral comum provavelmente
apresentava esse tipo de simetria", disse a VEJA o biólogo Douglas Eernisse,
da Universidade da Califórnia.
OLHAR
PERDIDO Esta espécie é conhecida como
"lula de vidro". Possui órgãos luminosos dentro dos olhos esbugalhados. Ao contrair-se,
transforma-se numa bola. É a presa favorita de muitos peixes e baleias. Habita
regiões entre 1 600 e 2 400 metros de profundidade
As
diferentes formas dos animais que povoam o planeta são resultado de dois
processos: o desenvolvimento do embrião e a evolução desde
seus ancestrais. A biologia evolutiva já descobriu que, apesar das grandes
diferenças na aparência e na fisiologia, todos os animais complexos
compartilham um "kit de ferramentas" comum, composto de genes reguladores, que
determinam a formação dos organismos. Mas, se todos os seres têm
um kit de ferramentas praticamente idêntico, por que não são
também iguais na aparência? A resposta está na forma como
esse kit é usado em cada animal. A construção das formas
que vemos na natureza depende da ativação e da desativação
de determinados genes em diferentes momentos e locais do embrião ao longo
de seu desenvolvimento. Nos animais dos abismos oceânicos, guiado pelos
mecanismos da evolução, o kit de ferramentas determina ao embrião
que desenvolva as formas curiosas e assustadoras que se vêem nos animais
adultos.