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30 de maio de 2007
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Ambiente
Design abissal

A descoberta de novas espécies em regiões profundas dos
oceanos mostra como a evolução age para determinar as
formas de todos os seres vivos. E também aumenta nossa
responsabilidade na preservação da saúde dos mares


Duda Teixeira

 
Fotos The New York Times
POLVO-DUMBO
As estruturas semelhantes a orelhas teriam sido, no passado, tentáculos, modificados pela evolução da espécie. Elas auxiliam o polvo a nadar para cima e para baixo. Ele pode ter até 1,5 metro de comprimento. Habita regiões entre 300 e 5 000 metros de profundidade
MOVIDO A ÁGUA
Outra espécie de polvo-dumbo, esta com apenas 20 centímetros. Ele se move com a ajuda das orelhas, dos curtos tentáculos e de um jato de água que suga do oceano e expele pelo corpo para lhe dar impulso. Vive a 400 metros de profundidade

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Sempre que se aventuram nas profundezas abissais dos oceanos, em regiões onde a luz do sol não chega e a pressão esmagaria um ser da superfície, os biólogos costumam deparar com espécies desconhecidas. São peixes, polvos, lulas e águas-vivas que ao longo da evolução adquiriram aparência surpreendente ao se adaptar ao ambiente hostil em que vivem. Há hoje cinco submarinos, dois russos, um americano, um francês e um japonês, que fazem pesquisas em águas a mais de 3 000 metros de profundidade. A cada duas espécies que eles registram, uma era desconhecida da ciência. Uma coleção de 220 dessas descobertas recentes foi reunida num livro recém-lançado nos Estados Unidos, The Deep: The Extraordinary Creatures of the Abyss (As Profundezas: As Extraordinárias Criaturas do Abismo), da pesquisadora e produtora de filmes francesa Claire Nouvian. A maioria dos animais foi fotografada em seu ambiente natural por câmeras instaladas em submarinos tripulados ou em robôs mergulhadores, capazes de descer a até 6 000 metros. Outros foram fotografados no convés dos barcos após ser trazidos para a superfície em câmaras especiais que mantêm a pressão do fundo do mar. "Antigamente, imaginava-se que, quanto maior a profundidade, menos vida havia. Não é nada disso", disse Claire a VEJA. "A diversidade é impressionante."

PEIXE MONSTRO
A enorme boca do diabo-do-mar permite que, ao encontrar suas presas, ele capture o maior número possível delas, já que nem sempre é fácil conseguir alimentos em seu habitat. Os espinhos são sensores. Vive a até 3 400 metros de profundidade

Embora haja muito mais espécies nas águas profundas do que se imaginava, a densidade populacional de cada uma delas é pequena em comparação com a de espécies que vivem próximo à superfície. Por isso mesmo, a evolução favoreceu os animais capazes de enfrentar escassez de alimentos e de parceiros sexuais. Os peixes machos da espécie Ceratias holboelli, quando encontram uma fêmea, grudam nela e sofrem uma metamorfose: suas atividades vitais adormecem e eles viram um parasita cujo único órgão ativo é o reservatório de sêmen. Uma forma de facilitar os encontros na escuridão é a bioluminescência. Esse fenômeno ocorre quando peixes, polvos e outros organismos emitem luz própria ou vivem em parceria com bactérias luminosas. As luzes atraem parceiros da mesma espécie. A bioluminescência também atua como isca para os peixes carnívoros atraírem suas presas. Algumas espécies possuem um tipo de vara com uma isca luminosa na ponta que fica a apenas alguns centímetros à frente da boca. Quando uma presa se aproxima, é imediatamente engolida.

O aspecto aterrorizador dos peixes carnívoros tem sua razão de ser. A boca é enorme para que, ao encontrarem suas presas, eles consigam capturar o maior número possível delas, já que o alimento é escasso. O estômago é amplo e elástico para armazenar grandes quantidades de comida pelo máximo de tempo, até que novas presas sejam encontradas. Algumas águas-vivas, embora transparentes, possuem uma membrana colorida que cobre o aparelho digestivo. Dessa forma, despistam o inimigo em busca do alimento que está em seu interior. Apesar do aspecto medonho, alguns peixes das profundezas são um ótimo petisco. Como o orange roughy, encontrado em profundidades entre 160 e 1 600 metros. Sua pesca, feita com extensas cordas com anzóis, começou há trinta anos, na Nova Zelândia. Depois, outros trinta locais passaram a ser explorados no Mediterrâneo e em regiões de vulcões submarinos. Em mais da metade deles, a quantidade de orange roughy fisgados caiu para menos de 30% do volume original. Isso se deve à baixa capacidade das populações de se reproduzirem. A diminuição dos cardumes de orange roughy chama atenção para o risco de destruição de um ecossistema quase totalmente desconhecido, onde 1,5 milhão de espécies, segundo se calcula, ainda aguardam no escuro para um dia ser catalogadas.

 

A PEQUENA INCÓGNITA
Esta espécie ainda não foi identificada pelos biólogos. Sabe-se apenas que é um organismo que produz luz própria, algo freqüente entre os seres que vivem nas regiões abissais, aonde os raios de sol não chegam. Vive a 2 000 metros de profundidade

Como não há luz solar nas profundezas dos oceanos, a fonte da vida nesses locais são o calor e o gás metano liberados por fendas na crosta terrestre ou por vulcões submarinos. Esse ambiente propicia o nascimento de bactérias, que dão início a uma nova e ainda quase desconhecida cadeia alimentar. Essa fauna, que inclui desde microorganismos até tubarões de 8 metros de comprimento, é hoje uma das últimas fronteiras a ser exploradas pela ciência. "Sabemos mais sobre a Lua do que sobre as regiões profundas dos oceanos", comenta o oceanógrafo José Angel Alvarez Perez, pesquisador da Universidade do Vale do Itajaí, em Santa Catarina. O que já se sabe com certeza sobre a vida a mais de 3 000 metros de profundidade é que ela reproduz os parâmetros que regem todos os animais conhecidos. Embora esquisitos e até assustadores ao olhar dos humanos, os animais dos abismos oceânicos nada têm de original em sua constituição, o que confirma a descoberta do naturalista Charles Darwin de que todos os seres vivos possuem um ancestral comum.

 

DISFARCE NATURAL
Este tipo de água-viva tem de 1 000 a 2 000 pequenos tentáculos. Ela é transparente, mas uma membrana vermelha oculta seu sistema digestivo, despistando inimigos em busca do alimento que está em seu interior. Vive a 900 metros de profundidade

Ao estudarem os fósseis dos mais variados animais, os cientistas perceberam que a evolução abusou da repetição de padrões ao moldar os seres vivos. Um exemplo: todos os vertebrados têm em comum uma coluna vertebral modular, o que varia são o número e o formato das vértebras. Os desenhos da asa de uma borboleta podem parecer aleatórios. Ao examinar detidamente o desenho, porém, nota-se que ele é formado por motivos recorrentes. Outra característica universal da organização dos animais é a simetria. A maioria deles, incluindo os seres humanos, apresenta a simetria bilateral. Se traçarmos uma linha vertical imaginária passando por nosso nariz, dividindo nosso corpo ao meio, veremos que um lado é o espelho do outro. Assim também são os outros mamíferos, os répteis e os insetos. Já as águas-vivas e as estrelas-do-mar têm simetria radial, que se forma a partir do centro do corpo. "A maioria dos animais tem simetria bilateral porque nosso ancestral comum provavelmente apresentava esse tipo de simetria", disse a VEJA o biólogo Douglas Eernisse, da Universidade da Califórnia.

 

OLHAR PERDIDO
Esta espécie é conhecida como "lula de vidro". Possui órgãos luminosos dentro dos olhos esbugalhados. Ao contrair-se, transforma-se numa bola. É a presa favorita de muitos peixes e baleias. Habita regiões entre 1 600 e 2 400 metros de profundidade

As diferentes formas dos animais que povoam o planeta são resultado de dois processos: o desenvolvimento do embrião e a evolução desde seus ancestrais. A biologia evolutiva já descobriu que, apesar das grandes diferenças na aparência e na fisiologia, todos os animais complexos compartilham um "kit de ferramentas" comum, composto de genes reguladores, que determinam a formação dos organismos. Mas, se todos os seres têm um kit de ferramentas praticamente idêntico, por que não são também iguais na aparência? A resposta está na forma como esse kit é usado em cada animal. A construção das formas que vemos na natureza depende da ativação e da desativação de determinados genes em diferentes momentos e locais do embrião ao longo de seu desenvolvimento. Nos animais dos abismos oceânicos, guiado pelos mecanismos da evolução, o kit de ferramentas determina ao embrião que desenvolva as formas curiosas e assustadoras que se vêem nos animais adultos.

 

Com reportagem de Leoleli Camargo e Denise Dweck

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