A falta do mineral
na dieta dos jovens brasileiros
preocupa os médicos. Num futuro próximo, essa
carência pode aumentar a incidência de osteoporose
Adriana Dias Lopes
Fabiano Accorsi
Caso exemplar: Anne Coimbra,
de 10 anos, precisa aumentar o consumo de alimentos ricos
em cálcio. Mas ela só quer saber de comida japonesa e
refrigerante
Doença típica de
mulheres na menopausa, a osteoporose entrou para o rol das
preocupações dos pediatras. O motivo é
que, essencial para a formação de um esqueleto
forte, o cálcio praticamente desapareceu da dieta das
crianças e adolescentes brasileiros. Se nada for feito
para reverter esse quadro, os especialistas prevêem
uma epidemia de ossos fracos num futuro bem próximo.
A baixa ingestão do mineral na juventude aumenta em
20% o risco de osteoporose na idade adulta. "É urgente,
portanto, mudar os hábitos alimentares de nossos jovens",
diz a endocrinologista Marise Lazaretti Castro, diretora do
departamento de doenças osteometabólicas da
Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. Alguns
médicos, inclusive, já indicam a suplementação
do mineral para seus pacientes, especialmente as meninas,
a partir dos 10 anos.
Os cuidados tomados na juventude
são cruciais para a manutenção de ossos
saudáveis. Mais de 90% de todo o cálcio a ser
usado ao longo da vida é estocado pelo organismo até
o final da adolescência. "Depois disso, o tecido ósseo
não absorve mais o mineral com a mesma eficiência",
diz a médica Marise. Um dos poucos levantamentos feitos
no país para medir o teor de cálcio na dieta
das crianças e adolescentes foi conduzido pela Faculdade
de Saúde Pública da Universidade de São
Paulo. A ser apresentado em outubro durante o congresso anual
da Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição,
o estudo reforça a necessidade de mudanças drásticas
no cardápio dos jovens. Para garantir a saúde
dos ossos até a velhice, é necessário
ingerir, entre os 10 e os 18 anos, 1 300 miligramas de cálcio
todos os dias, o equivalente a cinco copos de leite. A média
de nossos meninos e meninas atualmente é de apenas
600 miligramas -- metade do que se consumia duas décadas
atrás.
A falta do mineral na dieta
dos jovens é conseqüência da profunda mudança
de hábitos alimentares ocorrida nos últimos
anos. "Infelizmente, as crianças perderam o costume,
por exemplo, de tomar um copo de leite antes de dormir", diz
o pediatra Marcelo Reibscheid, do Hospital São Luiz,
em São Paulo. Pode parecer bobagem, mas um copo de
leite a mais por dia faz muita diferença na construção
de um esqueleto vigoroso. O leite é a principal fonte
de cálcio. Entre 1987 e 2003, segundo o Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística (IBGE), o consumo do alimento
caiu 34%. O de refrigerante, no mesmo período, cresceu
65%. O cálcio também saiu das mesas brasileiras
quando os grãos e verduras perderam espaço para
os salgadinhos e lanches fast-food (veja
quadro). Além disso, as refeições
à mesa, com a família reunida, deram lugar,
na maioria das vezes, a uma atividade solitária e apressada,
diante da televisão ou do computador -- o que significa
menos supervisão do que a moçada anda comendo.
Médicos do Hospital das
Clínicas, de São Paulo, avaliaram os hábitos
alimentares de garotas entre 10 e 20 anos. De cada 100 meninas,
75 faziam, no máximo, duas refeições
por dia. "A falta de tempo e a preocupação com
dietas de emagrecimento fazem com que a refeição
mais sacrificada por essas jovens seja o café-da-manhã,
justamente onde a oferta de cálcio é maior",
diz o pediatra Mauro Fisberg, especialista em nutrição.
A estudante Anne Coimbra, de 10 anos, freqüentemente
vai para a escola de manhã sem colocar nada na boca.
"Para que perder tempo comendo em casa? Prefiro dormir até
um pouco mais tarde e comer um lanche no recreio", diz ela.
A carência de cálcio na dieta de Anne alarmou
o seu médico. Ele recomendou incrementar a alimentação
com leite e derivados, mas a garota não se convence:
"Meu sonho seria almoçar e jantar comida japonesa e
só tomar refrigerante". O (pouco) cálcio que
Anne consome exige que sua mãe, Adriana, se desdobre
em invenções. O leite servido à menina
vem sob a forma de milk-shake e o queijo, disfarçado
no meio do bolinho de carne, tem de ser bem picadinho para
que ela não sinta o gosto. Garantir ossos fortes para
Anne é uma dureza para Adriana.
Tostados e perigosos
O franguinho grelhado está
na berlinda assim como o churrasco, o queijo
na brasa e outros pratos que fazem a alegria dos brasileiros.
O motivo não é a quantidade de calorias
ou gorduras saturadas contida em tais alimentos, mas
o seu modo de preparo. De acordo com uma pesquisa coordenada
por médicos da Faculdade de Medicina Mount Sinai,
nos Estados Unidos, recém-publicada na revista
científica Journal of Gerontology: Medical
Sciences, comidas assadas e grelhadas (para não
falar das fritas, é claro) oferecem riscos à
saúde. Quanto mais tostadas, pior. Descobriu-se
que, durante o preparo, o calor excessivo a que são
submetidas produz toxinas que podem levar ao envelhecimento
precoce e a vários distúrbios, como diabetes,
infarto, derrame, doença de Alzheimer e artrite
reumatóide. Essas toxinas são chamadas
de AGEs, sigla em inglês para "produto final da
glicação avançada". "A população
precisa ser alertada sobre os perigos dessas toxinas
e controlar seu consumo, assim como já controla
o de sal e de gorduras trans", diz a geriatra americana
Helen Vlassara, principal autora do estudo.
Depois da ingestão
de um alimento assado, grelhado ou frito, uma parte
das AGEs é eliminada pelos rins e outra fica
circulando no sangue. Como são estruturas muito
instáveis, essas toxinas favorecem a formação
de radicais livres e, em conseqüência, danificam
vários órgãos e tecidos do organismo,
especialmente as artérias. Ao analisar cerca
de 200 homens e mulheres, os pesquisadores observaram
que, entre as pessoas com 45 anos ou mais, a concentração
de AGEs no sangue era, em média, 35% maior do
que entre os mais jovens. Ou seja, com o passar do tempo,
o organismo acumula ainda mais essas toxinas. O que
fazer? Por enquanto, a única maneira de reduzir
a quantidade de AGEs na comida é optar por prepará-la
cozida, fervida ou no vapor, preferencialmente em temperaturas
abaixo de 120ºC. Sim, você está certo:
a cada dia parece que fica mais difícil ter prazer
à mesa.