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30 de maio de 2007
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Saúde
Cadê o cálcio que estava aqui?

A falta do mineral na dieta dos jovens brasileiros
preocupa os médicos. Num futuro próximo, essa
carência pode aumentar a incidência de osteoporose


Adriana Dias Lopes

Fabiano Accorsi
Caso exemplar: Anne Coimbra, de 10 anos, precisa aumentar o consumo de alimentos ricos em cálcio. Mas ela só quer saber de comida japonesa e refrigerante


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Quadro: As fontes do mineral

Doença típica de mulheres na menopausa, a osteoporose entrou para o rol das preocupações dos pediatras. O motivo é que, essencial para a formação de um esqueleto forte, o cálcio praticamente desapareceu da dieta das crianças e adolescentes brasileiros. Se nada for feito para reverter esse quadro, os especialistas prevêem uma epidemia de ossos fracos num futuro bem próximo. A baixa ingestão do mineral na juventude aumenta em 20% o risco de osteoporose na idade adulta. "É urgente, portanto, mudar os hábitos alimentares de nossos jovens", diz a endocrinologista Marise Lazaretti Castro, diretora do departamento de doenças osteometabólicas da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. Alguns médicos, inclusive, já indicam a suplementação do mineral para seus pacientes, especialmente as meninas, a partir dos 10 anos.

Os cuidados tomados na juventude são cruciais para a manutenção de ossos saudáveis. Mais de 90% de todo o cálcio a ser usado ao longo da vida é estocado pelo organismo até o final da adolescência. "Depois disso, o tecido ósseo não absorve mais o mineral com a mesma eficiência", diz a médica Marise. Um dos poucos levantamentos feitos no país para medir o teor de cálcio na dieta das crianças e adolescentes foi conduzido pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. A ser apresentado em outubro durante o congresso anual da Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição, o estudo reforça a necessidade de mudanças drásticas no cardápio dos jovens. Para garantir a saúde dos ossos até a velhice, é necessário ingerir, entre os 10 e os 18 anos, 1 300 miligramas de cálcio todos os dias, o equivalente a cinco copos de leite. A média de nossos meninos e meninas atualmente é de apenas 600 miligramas -- metade do que se consumia duas décadas atrás.

A falta do mineral na dieta dos jovens é conseqüência da profunda mudança de hábitos alimentares ocorrida nos últimos anos. "Infelizmente, as crianças perderam o costume, por exemplo, de tomar um copo de leite antes de dormir", diz o pediatra Marcelo Reibscheid, do Hospital São Luiz, em São Paulo. Pode parecer bobagem, mas um copo de leite a mais por dia faz muita diferença na construção de um esqueleto vigoroso. O leite é a principal fonte de cálcio. Entre 1987 e 2003, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o consumo do alimento caiu 34%. O de refrigerante, no mesmo período, cresceu 65%. O cálcio também saiu das mesas brasileiras quando os grãos e verduras perderam espaço para os salgadinhos e lanches fast-food (veja quadro). Além disso, as refeições à mesa, com a família reunida, deram lugar, na maioria das vezes, a uma atividade solitária e apressada, diante da televisão ou do computador -- o que significa menos supervisão do que a moçada anda comendo.

Médicos do Hospital das Clínicas, de São Paulo, avaliaram os hábitos alimentares de garotas entre 10 e 20 anos. De cada 100 meninas, 75 faziam, no máximo, duas refeições por dia. "A falta de tempo e a preocupação com dietas de emagrecimento fazem com que a refeição mais sacrificada por essas jovens seja o café-da-manhã, justamente onde a oferta de cálcio é maior", diz o pediatra Mauro Fisberg, especialista em nutrição. A estudante Anne Coimbra, de 10 anos, freqüentemente vai para a escola de manhã sem colocar nada na boca. "Para que perder tempo comendo em casa? Prefiro dormir até um pouco mais tarde e comer um lanche no recreio", diz ela. A carência de cálcio na dieta de Anne alarmou o seu médico. Ele recomendou incrementar a alimentação com leite e derivados, mas a garota não se convence: "Meu sonho seria almoçar e jantar comida japonesa e só tomar refrigerante". O (pouco) cálcio que Anne consome exige que sua mãe, Adriana, se desdobre em invenções. O leite servido à menina vem sob a forma de milk-shake e o queijo, disfarçado no meio do bolinho de carne, tem de ser bem picadinho para que ela não sinta o gosto. Garantir ossos fortes para Anne é uma dureza para Adriana.

 

Tostados e perigosos

O franguinho grelhado está na berlinda – assim como o churrasco, o queijo na brasa e outros pratos que fazem a alegria dos brasileiros. O motivo não é a quantidade de calorias ou gorduras saturadas contida em tais alimentos, mas o seu modo de preparo. De acordo com uma pesquisa coordenada por médicos da Faculdade de Medicina Mount Sinai, nos Estados Unidos, recém-publicada na revista científica Journal of Gerontology: Medical Sciences, comidas assadas e grelhadas (para não falar das fritas, é claro) oferecem riscos à saúde. Quanto mais tostadas, pior. Descobriu-se que, durante o preparo, o calor excessivo a que são submetidas produz toxinas que podem levar ao envelhecimento precoce e a vários distúrbios, como diabetes, infarto, derrame, doença de Alzheimer e artrite reumatóide. Essas toxinas são chamadas de AGEs, sigla em inglês para "produto final da glicação avançada". "A população precisa ser alertada sobre os perigos dessas toxinas e controlar seu consumo, assim como já controla o de sal e de gorduras trans", diz a geriatra americana Helen Vlassara, principal autora do estudo.

Depois da ingestão de um alimento assado, grelhado ou frito, uma parte das AGEs é eliminada pelos rins e outra fica circulando no sangue. Como são estruturas muito instáveis, essas toxinas favorecem a formação de radicais livres e, em conseqüência, danificam vários órgãos e tecidos do organismo, especialmente as artérias. Ao analisar cerca de 200 homens e mulheres, os pesquisadores observaram que, entre as pessoas com 45 anos ou mais, a concentração de AGEs no sangue era, em média, 35% maior do que entre os mais jovens. Ou seja, com o passar do tempo, o organismo acumula ainda mais essas toxinas. O que fazer? Por enquanto, a única maneira de reduzir a quantidade de AGEs na comida é optar por prepará-la cozida, fervida ou no vapor, preferencialmente em temperaturas abaixo de 120ºC. Sim, você está certo: a cada dia parece que fica mais difícil ter prazer à mesa.

 

Paula Neiva

 

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