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30 de maio de 2007
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Saúde
Elas podem se livrar
daqueles dias

Aprovada nos Estados Unidos uma pílula que suspende
a menstruação. Mas há quem ache isso um absurdo


Paula Neiva

Montagem Sobre fotos de Puzant Apkrian/Masterfile/Other images e Steve Mcalister/Getty Images

A agência americana de controle de medicamentos, a FDA, aprovou a primeira pílula anticoncepcional indicada para a suspensão da menstruação. Vendido sob o nome comercial de Lybrel, o novo contraceptivo é fabricado pelo laboratório Wyeth. Os dois principais estudos clínicos realizados com o medicamento acompanharam 2.400 mulheres, entre 18 e 49 anos, por um ano. Ao fim desse período, 60% delas pararam de menstruar. Outras 20% também tiveram a menstruação interrompida, mas apresentaram sangramentos leves e esporádicos. Uma parcela semelhante relatou a ocorrência de perdas sanguíneas mais intensas. "As mulheres e os médicos devem pesar os benefícios de não menstruar e o inconveniente de sofrer sangramentos imprevisíveis", lê-se no comunicado da FDA sobre a aprovação do Lybrel. Uma vez interrompido o tratamento, a menstruação volta, em média, três meses depois. A pílula deve chegar às farmácias dos Estados Unidos em julho. Não há previsão para sua comercialização no Brasil.

O Lybrel difere muito pouco dos contraceptivos tradicionais. Seus princípios ativos já são encontrados em diversas pílulas disponíveis no mercado – os hormônios levonorgestrel e etinilestradiol, combinados em doses baixíssimas. Ao contrário da maioria dos outros anticoncepcionais, no entanto, o Lybrel deve ser tomado ininterruptamente. É essa característica que permite a suspensão dos ciclos menstruais. Nos Estados Unidos, um anticoncepcional oral com esse perfil é uma grande novidade. No Brasil, já existem pílulas de uso contínuo. Ainda que não tenham indicação formal para a interrupção da menstruação, elas são usadas rotineiramente para esse fim. "Além disso, a suspensão da menstruação pode ser obtida com os contraceptivos convencionais se a mulher não der o descanso previsto pelos medicamentos", diz o ginecologista Luis Bahamondes, professor da Universidade Estadual de Campinas. Essa também é uma prática à qual as brasileiras recorrem com bastante freqüência.

A discussão sobre a segurança de suspender os ciclos menstruais é antiga na medicina. Nos últimos vinte anos, esse debate tornou-se mais acirrado, com o desenvolvimento de métodos contraceptivos com baixas doses hormonais, que permitiram, dessa forma, o seu uso contínuo. Muitos médicos, no entanto, defendem que a utilização de remédios para suspender a menstruação pode oferecer riscos à saúde. Para eles, é bastante temerário lançar mão de compostos sintéticos para alterar um evento biológico natural, como é a menstruação. Segundo essa corrente, não há estudos de longo prazo que atestem a segurança do uso ininterrupto de anticoncepcionais. A principal preocupação é referente ao risco de formação de coágulos sanguíneos, o que pode levar a quadros de trombose, infartos e derrames. No caso do Lybrel, a FDA exigiu que o laboratório Wyeth dê continuidade aos estudos com a pílula mesmo depois de seu lançamento.

Outra linha de médicos, por sua vez, defende que antinatural é a mulher moderna menstruar durante tanto tempo. Por causa de exigências sociais e profissionais, elas atualmente engravidam mais tarde, menos vezes e, não raro, deixam de amamentar os filhos. Com isso, passam, em média, por 400 menstruações ao longo da vida – ao passo que, antigamente, esse processo não ultrapassava sessenta vezes. O problema é que, durante o período menstrual, os ovários produzem o hormônio estrógeno, que facilita a reprodução das células cancerosas. Mais menstruações significam, portanto, mais risco.

A pílula anticoncepcional chegou ao mercado no início da década de 60 – e foi uma das principais responsáveis pela emancipação feminina. Com eficácia que beira os 100%, o remédio permitiu à mulher fazer sexo apenas por prazer, sem os riscos de uma gravidez indesejada. Ainda hoje, ela está entre os métodos contraceptivos mais utilizados pelas brasileiras. Calcula-se que 8 milhões de mulheres usem pílula no país. Número que deverá aumentar com a publicidade em torno da capacidade desses medicamentos de dar um fim à menstruação. Segundo uma pesquisa da Universidade de Estadual Campinas, metade das brasileiras simplesmente detesta aqueles dias.

 

Mecanismo de ação

1. A composição hormonal da nova pílula é comum à de outros contraceptivos orais. A diferença está no modo como o medicamento deve ser usado. A Lybrel tem de ser tomada ininterruptamente. A maioria das pílulas prevê uma interrupção de quatro a sete dias por mês

2. O uso contínuo de hormônios inibe o espessamento e, conseqüentemente, a descamação da perede interna do útero. Com isso, a menstruação é interrompida

3. Ao longo de um ano de tratamento, 65% das mulheres apresentaram sangramentos leves e esporádicos. Essas ocorrências tendem a passar com o tempo. Mesmo assim, por causa desses sangramentos, 10% das 2 400 mulheres que participaram dos estudos com a Lybrel abandonaram a pílula

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