Aprovada nos Estados
Unidos uma pílula que suspende
a menstruação. Mas há quem ache isso
um absurdo
Paula Neiva
Montagem Sobre fotos de
Puzant Apkrian/Masterfile/Other images e Steve Mcalister/Getty
Images
A agência
americana de controle de medicamentos, a FDA, aprovou a primeira
pílula anticoncepcional indicada para a suspensão
da menstruação. Vendido sob o nome comercial
de Lybrel, o novo contraceptivo é fabricado pelo laboratório
Wyeth. Os dois principais estudos clínicos realizados
com o medicamento acompanharam 2.400 mulheres, entre 18 e
49 anos, por um ano. Ao fim desse período, 60% delas
pararam de menstruar. Outras 20% também tiveram a menstruação
interrompida, mas apresentaram sangramentos leves e esporádicos.
Uma parcela semelhante relatou a ocorrência de perdas
sanguíneas mais intensas. "As mulheres e os médicos
devem pesar os benefícios de não menstruar e
o inconveniente de sofrer sangramentos imprevisíveis",
lê-se no comunicado da FDA sobre a aprovação
do Lybrel. Uma vez interrompido o tratamento, a menstruação
volta, em média, três meses depois. A pílula
deve chegar às farmácias dos Estados Unidos
em julho. Não há previsão para sua comercialização
no Brasil.
O Lybrel difere
muito pouco dos contraceptivos tradicionais. Seus princípios
ativos já são encontrados em diversas pílulas
disponíveis no mercado os hormônios levonorgestrel
e etinilestradiol, combinados em doses baixíssimas.
Ao contrário da maioria dos outros anticoncepcionais,
no entanto, o Lybrel deve ser tomado ininterruptamente. É
essa característica que permite a suspensão
dos ciclos menstruais. Nos Estados Unidos, um anticoncepcional
oral com esse perfil é uma grande novidade. No Brasil,
já existem pílulas de uso contínuo. Ainda
que não tenham indicação formal para
a interrupção da menstruação,
elas são usadas rotineiramente para esse fim. "Além
disso, a suspensão da menstruação pode
ser obtida com os contraceptivos convencionais se a mulher
não der o descanso previsto pelos medicamentos", diz
o ginecologista Luis Bahamondes, professor da Universidade
Estadual de Campinas. Essa também é uma prática
à qual as brasileiras recorrem com bastante freqüência.
A discussão
sobre a segurança de suspender os ciclos menstruais
é antiga na medicina. Nos últimos vinte anos,
esse debate tornou-se mais acirrado, com o desenvolvimento
de métodos contraceptivos com baixas doses hormonais,
que permitiram, dessa forma, o seu uso contínuo. Muitos
médicos, no entanto, defendem que a utilização
de remédios para suspender a menstruação
pode oferecer riscos à saúde. Para eles, é
bastante temerário lançar mão de compostos
sintéticos para alterar um evento biológico
natural, como é a menstruação. Segundo
essa corrente, não há estudos de longo prazo
que atestem a segurança do uso ininterrupto de anticoncepcionais.
A principal preocupação é referente ao
risco de formação de coágulos sanguíneos,
o que pode levar a quadros de trombose, infartos e derrames.
No caso do Lybrel, a FDA exigiu que o laboratório Wyeth
dê continuidade aos estudos com a pílula mesmo
depois de seu lançamento.
Outra linha de
médicos, por sua vez, defende que antinatural é
a mulher moderna menstruar durante tanto tempo. Por causa
de exigências sociais e profissionais, elas atualmente
engravidam mais tarde, menos vezes e, não raro, deixam
de amamentar os filhos. Com isso, passam, em média,
por 400 menstruações ao longo da vida
ao passo que, antigamente, esse processo não ultrapassava
sessenta vezes. O problema é que, durante o período
menstrual, os ovários produzem o hormônio estrógeno,
que facilita a reprodução das células
cancerosas. Mais menstruações significam, portanto,
mais risco.
A pílula
anticoncepcional chegou ao mercado no início da década
de 60 e foi uma das principais responsáveis
pela emancipação feminina. Com eficácia
que beira os 100%, o remédio permitiu à mulher
fazer sexo apenas por prazer, sem os riscos de uma gravidez
indesejada. Ainda hoje, ela está entre os métodos
contraceptivos mais utilizados pelas brasileiras. Calcula-se
que 8 milhões de mulheres usem pílula no país.
Número que deverá aumentar com a publicidade
em torno da capacidade desses medicamentos de dar um fim à
menstruação. Segundo uma pesquisa da Universidade
de Estadual Campinas, metade das brasileiras simplesmente
detesta aqueles dias.
Mecanismo de ação
1. A composição
hormonal da nova pílula é comum à
de outros contraceptivos orais. A diferença está
no modo como o medicamento deve ser usado. A Lybrel
tem de ser tomada ininterruptamente. A maioria das pílulas
prevê uma interrupção de quatro
a sete dias por mês
2. O uso contínuo
de hormônios inibe o espessamento e, conseqüentemente,
a descamação da perede interna do útero.
Com isso, a menstruação é interrompida
3. Ao longo de
um ano de tratamento, 65% das mulheres apresentaram
sangramentos leves e esporádicos. Essas ocorrências
tendem a passar com o tempo. Mesmo assim, por causa
desses sangramentos, 10% das 2 400 mulheres que
participaram dos estudos com a Lybrel abandonaram a
pílula