Artigo:
Gustavo Ioschpe O deboche dos privilegiados
da USP
"Se os estudantes uspianos não estão
satisfeitos com as medidas implementadas pelos legítimos defensores do
poder público, que dialoguem ou peçam transferência para escolas privadas"
Clayton
de Sousa/AE
Ocupação
da reitoria da USP: bem público usurpado por uma minoria
A invasão da reitoria da USP por um grupo de estudantes, que já
dura mais de vinte dias, é um dos retratos mais acabados das várias
mazelas que continuam a condenar o nosso país ao atraso.
Começa pela rendição dos interesses de estado às demandas
privadas. Os alunos da Universidade de São Paulo (USP) são os mais
afortunados do país. Estudam gratuitamente naquela que provavelmente é
a melhor universidade brasileira, mesmo quando oriundos de famílias dotadas
de amplíssimas condições de pagar por seus estudos
nos cursos concorridos, como medicina, direito, arquitetura, administração
e engenharia, a média de renda familiar do alunado que adentrou a USP em
2007 é de mais de 6 000 reais mensais, ou quatro vezes maior do que a média
da população brasileira. Não bastasse esse subsídio
direto, ainda contarão com as benesses oriundas da posse de um diploma
de ensino superior em um país de iletrados: a taxa de retorno a um ano
de estudo universitário no Brasil está entre 18% e 20%. Cada ano
que uma pessoa cursa de universidade aumenta seu salário por essa magnitude,
e aqueles que freqüentam uma boa universidade provavelmente obtêm retornos
maiores ainda. Além disso, os alunos da USP contam com todo tipo de facilidade
para que sua estada na torre de marfim, financiada pelos impostos desembolsados
por todos aqueles que pagam o ICMS paulista (o que provavelmente quer dizer toda
a população brasileira), seja o mais amena possível: contam
com subsídios para moradia, alimentação, estacionamento e
até xerox. Ademais, só precisam dividir cada professor com quinze
colegas, havendo também um funcionário técnico-administrativo
para servir a cada cinco alunos (nas universidades particulares, para se ter idéia
do desperdício, a relação de funcionários é
de um para 23 alunos).
Seria de esperar
que os recipientes de tamanhos benefícios se sentissem compungidos a procurar
maneiras de retribuir à sociedade pela generosidade dispensada em sua formação
intelectual. Ocorre o oposto. Abastecidos há tanto tempo de tamanhas mordomias,
os alunos da USP finalmente se sentem donos da instituição, a ponto
de invadir sua reitoria, como forma de protestar a busca de maior transparência
do governo de São Paulo, mantenedor da instituição. Investimos
tanto na formação de doutores, esperando que pudessem usar suas
ferramentas dialéticas para convencer-nos da justeza de sua causa pela
via da argumentação e do debate, e colhemos como resultado uma manifestação
de brucutus, que recorrem à força física e ao desrespeito
às leis para se fazer ouvir. Trata-se do braço livresco do MST,
com a agravante de que não servem nem para capinar uma roça e precisam
que a mãe lhes traga abrigos para evitar o frio. Alguém deveria
lembrar aos nossos bacharéis que a USP não é propriedade
dos alunos, nem dos professores, nem dos funcionários: é do povo
de São Paulo. Povo esse que elege democraticamente seus representantes
para fazer cumprir a sua vontade. Em um regime democrático, apenas esses
representantes é que têm a soberania para ditar os rumos da universidade.
Confundiu-se autonomia administrativa com
autarquização, como se a USP fosse isenta de prestar contas à
comunidade que a mantém e de agir na defesa dos interesses dessa coletividade.
Imaginar que os estudantes possam ditar os rumos de uma universidade pública
é como aceitar que a política carcerária seja ditada para
atender aos interesses dos presos, que a política fiscal seja conduzida
por empresários ou que o planejamento urbano seja ditado por motoristas.
O compromisso da USP não é para com seus alunos, mas para com o
bem público. Se os estudantes uspianos não estão satisfeitos
com as medidas implementadas pelos legítimos defensores desse poder público,
que dialoguem com ele. Se não ficarem satisfeitos com o resultado desse
diálogo, que transfiram sua matrícula para uma universidade privada,
em que os clientes do serviço prestado são apenas os alunos, e não
a sociedade.