No arquivo de provas
colhidas pela PF, gravadas
em um DVD a que VEJA teve acesso, desenha-se
um retrato devastador da quadrilha de Zuleido:
ousada, ativa e certa da impunidade
A Operação
Navalha, que desmontou uma quadrilha de assaltantes de verbas
públicas, trouxe à tona conexões criminosas
em quatro ministérios, revelou laços em seis
estados nordestinos, enlameou a biografia de quatro governadores
e ex-governadores, além de dois prefeitos e um deputado,
e derrubou um ministro Silas Rondeau, de Minas e Energia.
Como a quadrilha logrou criar tantas ramificações,
do governo federal a prefeituras do interior? Como conseguiu
corromper desde altas autoridades da República, como
se suspeita que tenha acontecido com Silas Rondeau, acusado
de receber propina de 100.000 reais, até burocratas
de quinto escalão de pequenos municípios, como
o funcionário da prefeitura de Camaçari que
se vendeu por uma passagem aérea de 600 reais? As respostas
podem ser encontradas no inquérito da Operação
Navalha, a cuja íntegra VEJA teve acesso. O arquivo,
em formato de DVD, ocupa 1 giga e tem 52.000 páginas.
Contém relatórios de vigilância, vídeos,
centenas de gravações de telefonemas e transcrições
de diálogos. O material revela a existência de
uma quadrilha rudimentar, dona de métodos quase toscos,
mas muito ousada e que atuava com extrema liberdade,
como se tivesse a certeza de que nunca seria flagrada na ilegalidade.
Se o DVD fosse colocado à venda, como as autoridades
que aparecem nele, poderia receber o título de "O Show
da Corrupção" e seria na certa um sucesso.
No DVD da corrupção,
há um retrato devastador do engenheiro Zuleido Soares
Veras e de sua Gautama, a empreiteira-rainha do esquema. As
gravações trazem toda sorte de conversa entre
integrantes da quadrilha. Há diálogos de deputado
cobrando propina, de lobista orientando pagamento de suborno,
de advogado plantando nota contra inimigo. Há conversas
desabridas sobre compras de sentenças judiciais, negociações
de emendas parlamentares e métodos de corromper servidores.
Há diálogos didáticos sobre como funciona
a sinergia entre corruptos e corruptores: deputado informa
que conseguiu aprovar emenda para a obra da Gautama
e é parabenizado por seus bons serviços! O que
não há, em nenhuma das 585 interceptações
feitas pela PF, é conversa de Zuleido sobre o andamento
das obras de sua empreiteira. Pudera: as obras da Gautama
nunca ficam prontas. Adepto do budismo, Zuleido homenageou
Sidarta Gautama, o Buda, ao batizar sua empresa. Entre os
ensinamentos do budismo, consta que o mundo material é
uma ilusão provocada pela imperfeição
dos sentidos humanos. O DVD das provas sugere que Zuleido
criou uma vertente nova da tradicional filosofia oriental,
o cleptobudismo. Suas construções inacabadas,
pontes que ligam o nada a coisa alguma, são isso mesmo:
ilusão. Pobre Buda. Sobreviveu 2 500 anos como símbolo
de pureza e desprendimento para acabar como sinônimo
de roubalheira no Brasil.
José Cruz/ABR
Dida Sampaio/AE
Rondeau, o ex-ministro
de Minas e Energia (à esq.) acusado de receber
100 000 reais, e Adylson Motta, ministro aposentado do
TCU (à dir.)
Para produzir suas
miragens, a Gautama usava tentáculos múltiplos.
Chegaram até o Tribunal de Contas da União,
que examina hoje mais de trinta processos sobre irregularidades
em obras da Gautama. Eis o motivo pelo qual a empreiteira
tinha tanto interesse no TCU. Ali, trabalha Guilherme Palmeira,
parente de Fátima Palmeira, diretora da Gautama. Em
um diálogo telefônico, Zuleido conta a seu interlocutor
que o ministro Augusto Nardes deverá pedir vistas de
um processo de sua empresa. Nardes pediu mesmo vistas horas
depois do telefonema. Como um ministro só pode pedir
ou não vistas de um processo, há chance de Nardes
tê-lo feito dentro da normalidade. Mas pode não
ter sido apenas mera coincidência. A investigação
vai esclarecer esse ponto. Em outro diálogo, fica evidenciada
uma relação estreita entre o ministro Adylson
Motta, que se aposentou do tribunal em agosto passado, e o
lobista Sérgio Luiz Pompeu Sá, que, antes de
ser preso, defendia a Gautama no Ministério de Minas
e Energia (veja diálogos no quadro).
A investigação ainda vai elucidar essas questões.
A desenvoltura
da quadrilha da Gautama deve-se ao ambiente em que atuava.
Afinal, a empreiteira comprava políticos (que apresentam
emendas ao Orçamento para as obras), subornava servidores
públicos (que decidem sobre a liberação
de verbas para as obras) e tinha influência junto ao
TCU (que fiscaliza a lisura com que são feitas as obras
com verbas federais). Estava fechado o círculo, ainda
que o esquema nem sempre funcionasse como o desejado. Nos
diálogos, constata-se que, numa ocasião, alguém
embolsou uma propina prometendo que o TCU tomaria uma decisão
favorável à Gautama, mas deu-se o contrário.
Prospera então uma cômica revolta na quadrilha.
Em uma conversa com Fátima Palmeira, da Gautama, uma
lobista identificada apenas como Ivanise, apelidada de "Oncinha",
desconsola-se: "A pessoa que fez vai ter que me devolver o
dinheiro para eu devolver para você". Replica a diretora
da Gautama: "Só quero o dinheiro na minha conta". Em
outra conversa, com Zuleido, ela relata com amargura o tombo
da propina: "Botaram para roubar em cima da gente".
Fabio Motta/AE
Fernando Sarney: ele recebia
com freqüência o ex-ministro Rondeau em seu escritório
As 585 gravações abrangem o período que
vai de junho do ano passado a abril deste ano. Sempre aparecem
menções explícitas a dinheiro e referências
claras a autoridades. Podem ser só bravatas de gente
querendo se passar por influente, mas são sempre inequívocas.
O governador de Sergipe, Marcelo Déda, do PT, aparece
de forma pouco comprometedora, apenas porque seu vice teria
facilitado uma obra da Gautama. O governador de Alagoas, Teotonio
Vilela Filho, do PSDB, também surge sem referência
consistente, mas sua situação é mais
delicada devido à devastação que a Operação
Navalha causou em seu governo. Cinco de seus auxiliares foram
presos pela PF e o governador, como que inspirado pelos
melhores momentos do petismo, disse que não sabia de
nada. Há, por fim, conversas que entregam abertamente
os servidores da quadrilha. Um citado é Mauro Barbosa,
presidente do Dnit. Ele nega qualquer envolvimento. Outro
é Rodrigo Figueiredo, segundo homem do Ministério
das Cidades, apontado pela PF como um dos servidores que ajudavam
a liberar verba pública para os cleptobudistas.
Nas gravações,
há uma profusão de apelidos, a começar
por Zuleido, que, com seu ar de pistoleiro do Velho Oeste,
é chamado ora de "Charles Bronson", ora de "Mexicano",
ora de "Bigode". Há "Cabeça Branca", "Indiozinho"
e "Ferrugem". No reino animal, além da impagável
Oncinha, aparecem "Sapinho" e "Calango". Mas os apelidos não
são um meio para despistar um grampo. São apelidos
reais, que todos conhecem. Nenhum é tão freqüente
nas gravações quanto "Kibe". Kibe é Latif
Abud, ex-sócio da Gautama e desafeto de Charles Bronson,
ou Mexicano, ou Bigode. Em 2002, Kibe saiu da Gautama e nunca
deixou de azucrinar os ex-sócios. Nas gravações,
só dá Kibe. É Kibe para cá, Kibe
para lá. A quadrilha detesta Kibe. Certa ocasião,
exasperada com a interminável cruzada de Kibe, que
àquela altura já abastecera inclusive a PF sobre
a roubalheira da Gautama, a quadrilha debateu possíveis
ações jurídicas contra Kibe. Reclamou
da "passividade" de Zuleido. Diz o lobista Sérgio Sá:
"Zuleido é muito mole. Não sei como ele agüenta.
Tem de encerrar logo isso".
As ações
da quadrilha eram tão abertas quanto seus diálogos.
Seus integrantes foram filmados e fotografados em situações
suspeitas. A polícia filmou a diretora Fátima
Palmeira levando um envelope a uma sala contígua ao
gabinete do agora ex-ministro Silas Rondeau. Segundo a polícia,
o envelope continha 100 000 reais. Rondeau é a mais
alta autoridade abatida pelo escândalo até agora.
Antes de pedir demissão, fez questão de consultar
seus padrinhos políticos os senadores José
Sarney e Renan Calheiros. Faz sentido. O ex-ministro tem laços
sólidos com a família Sarney. Quando era ministro,
Rondeau tinha o hábito de aparecer no escritório
de Fernando Sarney, filho do senador, em Brasília.
Eles costumavam ir a um restaurante próximo, o Cielo,
onde comiam numa sala reservada no subsolo. O ex-ministro
deixou o cargo abalado, mas jurando inocência. Diz que
não pegou a propina de 100 000 reais e dá a
entender que, se ela entrou no ministério, então
ficou no gabinete de seu auxiliar Ivo Almeida da Costa
preso e já demitido.
Como consolo, o
ex-ministro pode alegar que não era a única
autoridade distraída no escândalo. Outra é
o senador Delcídio Amaral (PT-MS), que foi beneficiado
pela Gautama e não sabia. O senador explicou
que precisava viajar a Barretos, no interior de São
Paulo, para o enterro do sogro e pediu a um amigo que alugasse
um avião. O amigo atendeu o pedido, mas não
teria informado ao senador que Zuleido pagara o aluguel
no caso, 24 000 reais. Delcídio, distraidamente, nunca
perguntou ao amigo quem pagou o avião nem quanto custou.
Outro distraído é o governador da Bahia, o petista
Jaques Wagner, que levou a ministra Dilma Rousseff num passeio
na lancha de Zuleido. Primeiro, o governador disse que a lancha
fora alugada por um amigo, o lobista Guilherme Sodré,
e que desconhecia a identidade do dono. Até informou
o valor do aluguel: 5 000 reais. Onde estaria a nota fiscal?
Diante de pergunta tão complexa, o governador mudou
a versão. Afirmou que o amigo-lobista pedira a lancha
emprestada a Zuleido sem que ele soubesse. Sodré (que
foi casado com a atual mulher do governador e hoje é
casado com a chefe do cerimonial do governador) trabalha para
Zuleido Veras. Jaques Wagner diz que não sabia. Quanta
distração!
Com tudo o que
já veio a público, fica claro que o esquema
da Gautama era vasto, eclético, dinâmico. Isso
trai a impressão de que, desde o escândalo do
Orçamento, em 1993, as empreiteiras estariam retraídas
e teriam deixado de ser as mais vorazes mordedoras de emendas
e pagadoras de propina. No DVD da corrupção,
há indícios do que pode vir a ser uma segunda
etapa da Operação Navalha envolvendo
exatamente duas grandes empreiteiras. Elas estariam implicadas
em fraudes de licitações milionárias.
Uma outra, a GDK, baiana que deu o Land Rover de presente
ao então secretário do PT Silvio Pereira, já
entrou na alça de mira: a suspeita é que tenha
se envolvido com grampos telefônicos clandestinos. Conforme
a polícia, a escuta foi realizada e, no dia 4 de abril,
a GDK pagou 10.000 reais pelo serviço. A PF ainda não
sabe quem foi espionado ilegalmente, nem o motivo. A GDK nega
tudo. Mas, do jeito que as coisas estão, não
será surpresa se a Operação Navalha cortar
ainda mais fundo do que escalavrou até agora.
Com reportagem de Ricardo Brito
A casa e a lancha
Alexandre Oltramari
Eduardo Martins/Ag. A Tarde
O empreiteiro Zuleido Veras,
dono da Gautama, é um homem pacato. Seu principal
lazer nos fins de semana é ficar recluso em sua
residência, nas franjas de Salvador. Instalada
num terreno de 15 000 metros quadrados, equipada com
piscina, campo de futebol, quadra de tênis e trilha
para caminhada, a casa está avaliada em 5 milhões
de reais. Outro patrimônio vistoso é sua
lancha Clara, que vale uns 3 milhões de
reais. A lancha, que foi usada num passeio pelo governador
da Bahia, Jaques Wagner, e pela ministra Dilma Rousseff,
tem 52 pés, três suítes, ar-condicionado
e ice maker.
Negociatas
às claras
Nas 585 gravações
telefônicas feitas pela Polícia Federal,
os diálogos têm uma característica
comum todos eles são despudoradamente
claros. Os interlocutores, por se julgar acima da lei
ou por acreditar que jamais seriam flagrados na criminalidade,
falam das negociatas sem pejo, evitando apenas expressões
muito comprometedoras, como propina, suborno, corrupção.
A seguir, alguns exemplos em conversas inéditas:
"ACERTOU
O ESQUEMA"
Neste diálogo,
interceptado às 9h21 do dia 13 de julho do ano
passado, o lobista Sérgio Sá fala abertamente
de um acerto no Dnit, o órgão que cuida
das estradas no país. Na conversa, o lobista,
talvez convicto de sua impunidade, nem se dá
ao trabalho de falar por códigos ou usar frases
cifradas. Ele conta a Maria de Fátima Palmeira,
diretora da Gautama, que esteve com o diretor do Dnit,
Mauro Barbosa, e que o acerto está feito: o dinheiro
vai ser liberado ou "delegado", como se diz no
jargão para a Rodovia BR-020. A Engevix,
de Sérgio Sá, faz o projeto, e o restante
fica por conta da Gautama. Tudo muito simples.
Sérgio
Sá:Eu tive ontem com o Mauro, no Dnit.
Acertou já a delegação. Nós,
a Engevix, vamos fazer o projeto básico e o executivo.
Acertou o esquema da obra lá para vocês.
Fátima:
Tá jóia, fechado.
"CONVERSAMOS
BASTANTE"
Esta conversa
entre o lobista Sérgio Sá e o dono da
Gautama, Zuleido Veras, transcorreu às 22h43
do dia 12 de julho de 2006. A gravação
mostra a naturalidade com que o lobista se encontrava
com o então ministro de Minas e Energia, Silas
Rondeau, e tratavam de assunto que deveria ser sigiloso,
como editais de licitações.
Zuleido:
E aí?
Sérgio
Sá: Foi tudo tranqüilo. Estivemos lá
com o Silas. Tava tudo já encaminhado dentro
da Eletrobrás com relação ao resto
do dinheiro do Luz para Todos. Conversamos bastante
sobre a questão dos editais. (...) Foi uma visita
boa no final de tarde.
Zuleido:Humm...
"É
UM ABSURDO"
Nesta conversa,
gravada às 12h25 do dia 29 de agosto do ano passado,
o lobista Sérgio Sá fala com o empreiteiro
Zuleido Veras. Ele diz que o então ministro
Adylson Motta,
do Tribunal de Contas da União, fará uma
reunião em sua casa com o procurador-geral do
tribunal, Lucas Furtado. O assunto é um caso
em que a Gautama estava enrolada. Neste diálogo,
tudo é estranho: ministro recebe lobista, ministro
convoca procurador, procurador se explica, lobista reclama...
A conversa sugere que se trata de uma quadrilha capaz
de manipular decisões do TCU.
Sérgio
Sá:Adylson chamou Lucas na casa
dele à 1 e meia. Tenho que chegar um pouco antes.
Deixa o celular ligado que te informo.
Zuleido:
O.k.
Horas mais
tarde, às 16h56, o lobista comenta com Fátima
Palmeira, diretora da Gautama, o teor da reunião
na casa do ministro Adylson Motta.
Sérgio
Sá:O Lucas levou só os
pareceres dos processos. Quando cheguei lá, o
Adylson leu e ficou p... para c... Ele falou assim:
"Faz de conta que eu não vi isso."
Fátima:
É um absurdo!
Sérgio
Sá: E tem outra, né? Combinado
é combinado.
"PÃO,
PÃO, QUEIJO, QUEIJO"
Às
19h09 do dia 12 de março deste ano, Fátima
Palmeira, diretora comercial da Gautama, fala com uma
lobista identificada como Ivanise "Oncinha". Elas conversam
sobre a compra de um parecer do Tribunal de Contas da
União (TCU). O diálogo é um escândalo,
por sugerir que os pareceres são negociáveis,
e emblemático, por mostrar que as propinas eram
pagas contra serviços 100% certos. Fátima
pede para ler o parecer antes de tudo.
Fátima:Se for para resolver resolvido, ele topa
(refere-se ao empreiteiro Zuleido Veras). Agora, eu
teria que pelo menos dar uma olhada antes, né?
Ivanise:Queria o quê?
Fátima:Teria que olhar o que está realmente
escrito para ter certeza de que está tudo o.k.
Ivanise:Tá, claro. É uma coisa pão
pão, queijo queijo.
"NORMAL
NÃO FOI NÃO, NÉ?"
Neste diálogo,
interceptado às 10h48 do dia 6 de julho do ano
passado, Rodolpho Veras, filho de Zuleido, conversa
com o administrador da fazenda do pai, Henrique Garcia
de Araújo, sobre uma compra de gado meio
usado para lavar dinheiro de corrupção.
O capataz conta que precisa levar documentos para o
vendedor do gado, e o filho de Zuleido, talvez por temer
um grampo, afirma que a compra foi regular. O capataz,
sem entender o cuidado do interlocutor, deixa claro
que era tudo picaretagem.
Rodolpho
Veras: Foi uma compra normal, tá?
Henrique
de Araújo:Ué, normal não
foi não, né, Rodolpho? Esse gado não
vale 10% do valor que está na nota aqui.